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E todas as outras crenças e superstições estúpidas, que a limpeza podia matar, janelas abertas podiam matar, água podia matar e estimular a gripe ou trazer a peste, que piolhos, pulgas, moscas, sujeira e doença eram punições de Deus para os pecados na terra.

Pulgas, moscas e palha trocada a cada primavera, mas todo dia na igreja e duas vezes aos domingos, para ouvir a Palavra martelada nos ouvidos.

Nascida em pecado, vivendo em vergonha, preocupada com o Demônio, condenada ao inferno, orando pela salvação e pelo perdão, Felicity tão devota e cheia de temor pelo Senhor e de terror pelo Diabo, desesperada pelo paraíso. Depois indo para casa para comer. Um pernil no espeto, e caso um pedaço caísse no chão era apanhado, espanado e comido, isso se os cães não o agarrassem primeiro, mas os ossos eram atirados a eles de qualquer modo. Restos jogados ao chão para serem varridos, talvez, e talvez atirados na rua. Dormindo a maior parte das vezes com as roupas usadas de dia e coçando-se como um cão satisfeito, sempre se coçando. Velha tão jovem, e feia tão jovem, morrendo tão jovem. Felicity. Agora com vinte e nove anos, grisalha, com poucos dentes, velha, murcha.

— Antes do tempo, pobre mulher. Meu Deus, que desnecessário! — gritou ele, enraivecido. — Que maldito e fedorento desperdício!

— Nan desu ka, Anjin-san? — disseram ambas as mulheres no mesmo fôlego, seu contentamento esvanecido.

— Desculpem... foi só que... vocês são todos tão limpos e nós somos imundos, e é um desperdício tão grande, milhões incontáveis, eu também, toda a minha vida... e só porque não somos mais bem informados! Jesus Cristo, que desperdício! São os padres... são os educados e os educadores, os padres são donos de todas as escolas, responsáveis por todo o ensino, sempre em nome de Deus, imundície em nome de Deus... Essa é a verdade!

— Oh, sim, naturalmente — disse Mariko apaziguadora, tocada pelo sofrimento dele. — Por favor, não se preocupe com isso agora, Anjin-san. Deixe para amanhã...

Kiku ostentou um sorriso, mas estava furiosa consigo mesma. Você devia ter sido mais cuidadosa, disse a si mesma. Estúpida, estúpida, estúpida! Mariko-san preveniu-a! Agora você permitiu que a noite se arruinasse, e a mágica se foi, foi, foi!

De fato a pesada, quase tangível sexualidade que os tocara a todos desaparecera. Talvez esteja igualmente bem, pensou ela. Pelo menos Mariko e o Anjin-san estão protegidos por mais uma noite.

Pobre homem, pobre senhora. Tão triste. Ela os observou conversando, depois sentiu uma mudança do tom entre eles.

— Agora devo deixá-los — disse Mariko em latim.

— Vamos partir juntos.

— Rogo-lhe que fique. Pela sua honra e a dela. E a minha, Anjin-san.

— Não quero esse seu presente. Quero a senhora.

— Eu sou sua, acredite, Anjin-san. Por favor, fique, imploro-lhe, e saiba que esta noite eu sou sua.

Ele não insistiu para que ela ficasse.

Depois que ela se foi, ele se deitou, passou o braço por sob a cabeça e contemplou a noite pela janela. A chuva respingava nas telhas, o vento soprava acariciante do mar.

Kiku estava ajoelhada imóvel diante dele. Tinha as pernas rígidas. Também teria gostado de se deitar, mas não desejava alterar-lhe o ânimo com o menor movimento. Você não está cansada. Suas pernas não estão doendo, disse-se ela. Ouça a chuva e pense em coisas agradáveis. Pense em Omi-san e na casa de chá em Mishima, e que você está viva, que o terremoto de ontem foi apenas mais um terremoto. Pense em Toranaga-sama e o preço inicial inacreditavelmente extravagante que Gyoko-san ousou pedir pelo seu contrato. O adivinho estava certo, é sua boa fortuna faze-la rica para além dos sonhos. E se essa parte é verdade, porque não o resto todo? Que um dia você se casará com um samurai a quem honrará, e terá um filho dele, que você viverá e morrerá em idade avançada, fazendo parte da família dele, rica e honrada, e que, milagre dos milagres, seu filho crescerá em condição igual — samurai — à dos filhos dele.

Kiku começou a se animar com o seu futuro maravilhoso, inacreditável. Depois de algum tempo, Blackthorne espreguiçou-se voluptuosamente, com um agradável cansaço. Viu-a e sorriu.

— Nan desu ka, Anjin-san?

Ele meneou a cabeça gentilmente, levantou-se e abriu a shoji para o aposento contíguo. Não havia nenhuma criada ajoelhada junto aos futons sob o mosquiteiro. Ele e Kiku estavam sozinhos na magnífica casinha. Dirigiu-se para o quarto de dormir e começou a tirar o quimono. Ela se apressou a ajudá-lo. Ele despiu-se completamente, depois vestiu o quimono de dormir, de seda leve, que ela lhe segurou. Kiku abriu o mosquiteiro e ele se deitou.

Depois Kiku também se trocou. Ele a viu tirar o obi, o primeiro quimono, o segundo, de um verde mais claro e barra escarlate, e finalmente a combinação. Vestiu o quimono de dormir, cor de pêssego, depois removeu a elaborada peruca formal e soltou o cabelo. Era preto-azulado, belíssimo e muito comprido.

Ajoelhou-se do lado de fora do mosquiteiro.

— Dozo, Anjin-san?

— Domo — disse ele.

— Domo arigato goziemashita — sussurrou ela.

Ela deslizou por sob o mosquiteiro e deitou-se ao lado dele. As velas e lâmpadas de óleo ardiam brilhantemente. Ele ficou contente de que houvesse luz, porque ela era muito bonita.

Sua necessidade desesperadora desaparecera, embora a dor continuasse. Não a desejo, Kiku-san, pensou. Se você fosse Mariko, seria a mesma coisa. Ainda que você fosse a mulher mais bela que eu já tivesse visto, mais até do que Midori-san, que achei mais bela do que uma deusa. Não a desejo. Mais tarde, talvez, mas agora não, sinto muito.

A mão dela esticou-se e tocou-o.

— Dozo?

— Iyé — disse ele gentilmente, meneando a cabeça. Segurou-lhe a mão, depois deslizou um braço por sob os seus ombros. Obedientemente ela se aninhou contra ele, compreendendo de imediato. Seu perfume combinava com a fragrância dos lençóis e futons. Tão limpa, pensou ele, tudo tão inacreditavelmente limpo.

O que foi que Rodrigues disse? "O Japão é o paraíso na terra, Inglês, se você souber para onde olhar", ou "Isto é o paraíso, Inglês". Não me lembro. Só sei que não é lá, do outro lado do mar, onde pensei que fosse. Não é lá.

O paraíso na terra é aqui.

CAPÍTULO 41

O mensageiro desceu a galope a estrada na escuridão, em direção à aldeia adormecida. O céu estava matizado pelo amanhecer e os barcos de pesca noturna que estiveram lançando as redes perto dos bancos de areia vinham regressando. O mensageiro cavalgara sem descanso desde Mishima, através dos desfiladeiros e estradas ruins, requisitando cavalos descansados em todos os lugares onde pôde.

O cavalo martelou pelas ruas da aldeia — observado, agora, por olhos escondidos — através da praça e subindo o caminho para a fortaleza. Seu estandarte ostentava o emblema de Toranaga e ele conhecia a senha atual. Não obstante, foi detido e identificado quatro vezes antes de ser autorizado a entrar e ter uma audiência com o oficial do turno.

— Despachos urgentes de Mishima, Naga-san, mandados pelo Senhor Hiromatsu!

Naga pegou o rolo e correu para dentro. Ante a shoji pesadamente guardada, parou.

— Pai?

— Sim?

Naga correu a porta e esperou. A espada de Toranaga deslizou de volta para a bainha. Um dos guardas trouxe uma lâmpada de óleo.

Toranaga sentou-se sob o mosquiteiro e rompeu o lacre. Duas semanas antes ordenara que Hiromatsu, com um regimento de elite, se dirigisse secretamente para Mishima, a cidade-castelo na estrada Tokaido que guardava a entrada para o caminho que levava através das montanhas até as cidades de Atami e Odawara, na costa leste de Izu. Atami era o portão de ingresso para Odawara, ao norte. Odawara era a chave da defesa do Kwanto inteiro.