Hiromatsu escrevia:
Senhor, seu meio irmão, Zataki, senhor de Shinano, chegou aqui hoje, vindo de Osaka, pedindo um salvo-conduto para vê-lo em Anjiro. Viaja formalmente com cem samurais e carregadores, sob o emblema do “novo” conselho de regentes. Lamento informar-lhe que as notícias da Senhora Kiritsubo são corretas. Zataki tornou-se traidor e está abertamente alardeando a sua aliança com Ishido. O que ela não sabia é que Zataki agora é regente no lugar do Senhor Sugiyama. Ele me mostrou sua designação oficial, corretamente assinada por Ishido, Kiyama, Onoshi e Ito. Pedir-lhe que a mostrasse era tudo o que eu podia fazer para conter meus homens diante da arrogância dele e obedecer às suas ordens de deixar passar qualquer mensageiro de Ishido. Quis matar esse comedor de bosta pessoalmente. Viajando com ele vai o padre bárbaro, Tsukku-san, que chegou por mar ao porto de Numazu, proveniente de Nagasaki. Ele pediu permissão para visitá-lo, então despachei-o com o mesmo grupo. Mandei duzentos dos meus homens para escoltá-los. Chegarão a Anjiro dentro de dois dias. Quando o senhor retorna a Yedo? Os espiões dizem que Jikkyu está se mobilizando secretamente e chegam notícias de Yedo de que os clãs do nordeste estão prontos para atacar com Ishido, agora que Shinano de Zataki está contra o senhor. Rogo-lhe que deixe Anjiro imediatamente — retire-se por mar. Deixe Zataki segui-lo até Yedo, onde podemos lidar com ele adequadamente.
Toranaga socou o punho contra o chão.
— Naga-san. Traga Buntaro-san, Yabu-san e Omi-san imediatamente.
Chegaram todos rapidamente. Toranaga leu-lhes a mensagem.
— É melhor cancelarmos totalmente o treinamento. Mandem o Regimento de Mosquetes, todos os homens, para as montanhas. Não queremos nenhuma falha de segurança agora.
— Por favor, desculpe-me, senhor — disse Omi —, mas poderia considerar a interceptação do grupo sobre as montanhas. Digamos em Yokosé. Convide o Senhor Zataki — Omi escolheu o título cuidadosamente — para experimentar as águas de uma das nascentes das redondezas, mas faça a reunião em Yokosé. Então, depois de ele ter entregado a mensagem, ele e todos os seus homens podem ser escoltados até a fronteira, ou destruídos, como o senhor desejar.
— Não conheço Yokosé.
— É linda — disse Yabu com ares de importância —, quase no centro de Izu, senhor, num vale entre as montanhas. Fica ao lado do rio Kano. O Kano corre de norte, conseqüentemente através de Mishima e Numato, até o mar, neh? Yokosé fica numa encruzilhada de estradas que levam de norte a sul e de leste a oeste. Sim. Yokosé seria um bom lugar para encontrá-lo, senhor. A nascente Shuzenji fica perto — muito quente, muito boa, urna das nossas melhores. O senhor deve visitá-la, senhor. Acho que Omi-san fez uma boa sugestão.
— Poderíamos defendê-la com facilidade?
— Sim, senhor — disse Omi rapidamente. — Há uma ponte. O terreno cai abruptamente das montanhas. Quaisquer atacantes teriam que combater numa estrada coleante. As duas passagens podem ser defendidas com poucos homens. O senhor nunca sofreria uma emboscada. Temos homens mais que suficientes para defendê-lo e massacrar dez vezes o número deles — se necessário.
— Nós os massacraremos aconteça o que acontecer, neh? — disse Buntaro, com desprezo. — Mas melhor lá do que aqui. Senhor, por favor, deixe-me tornar o lugar seguro. Quinhentos arqueiros, nenhum mosqueteiro, todos a cavalo. Junto com os homens que meu pai enviou, teremos mais que o suficiente.
Toranaga conferiu a data no despacho.
— Atingirão a encruzilhada quando?
Yabu olhou para Omi pedindo confirmação.
— Esta noite, o mais tardar?
— Sim. Talvez não antes do amanhecer de amanhã.
— Buntaro-san, parta imediatamente — disse Toranaga. — Detenha-os em Yokosé, mas mantenha-os do outro lado do rio. Partirei ao amanhecer, amanhã, com outros cem homens. Devemos estar lá pelo meio-dia. Yabu-san, encarregue-se do nosso Regimento de Mosquetes por enquanto e guarde a nossa retirada. Ponha-o em emboscada do outro lado da estrada Heikawa, de modo que, se necessário, possamos nos retirar com a sua ajuda.
Buntaro começou a se retirar, mas parou quando Yabu disse, apreensivo:
— Como pode haver traição, senhor? Eles só têm cem homens.
— Espero traição. O Senhor Zataki não colocaria a própria cabeça nas minhas mãos sem um plano, pois, é claro, eu lhe tirarei a cabeça se puder — disse Toranaga. — Sem ele para liderar os seus fanáticos, teremos uma chance muito maior de atravessar as montanhas do seu feudo. Mas por que será que está arriscando tudo? Por quê?
Tentativamente, Omi disse:
— Ele não poderia estar pronto para trocar de aliado novamente?
Todos sabiam da antiga rivalidade que existia entre os meio irmãos. Uma rivalidade amistosa até agora.
— Não, não ele. Nunca confiei nele antes. Algum de vocês o faria agora?
Eles menearam a cabeça.
— Certamente não há nada para perturbá-lo, senhor — disse Yabu. — O Senhor Zataki é um regente, sim, mas é apenas um mensageiro, neh?
Imbecil, queria gritar Toranaga, você não compreende nada?
— Logo saberemos. Buntaro, vá imediatamente.
— Sim, senhor. Escolherei cuidadosamente o lugar para a reunião, mas não o deixe se aproximar além de dez passos. Estive com ele na Coréia. É rápido demais com a espada.
— Sim.
Buntaro saiu às pressas. Yabu disse: — Talvez Zataki possa ser tentado a trair Ishido. Uma recompensa talvez? Qual será a isca para ele? Mesmo sem a sua liderança, as montanhas de Shinano são cruéis.
— A isca é óbvia — disse Toranaga. — O Kwanto. Não é isso o que ele quer, o que sempre quis? Não é isso o que querem todos os meus inimigos? Não é isso o que o próprio Ishido quer?
Não lhe responderam. Não havia necessidade.
— Que Buda nos ajude — disse Toranaga gravemente. — A paz do táicum terminou. A guerra está começando.
Os ouvidos de Blackthorne, treinados no mar, tinham percebido a urgência nos cascos aproximando-se e sussurraram-lhe perigo. Ele acordara imediatamente, pronto para atacar ou recuar, todos os sentidos aguçados. Os cascos passaram, depois subiram a colina em direção à fortaleza, para morrer de novo.
Ele esperou. Não ouviu som de escolta seguindo. Provavelmente um mensageiro sozinho, pensou. De onde? É a guerra, já?
O alvorecer estava iminente. Agora Blackthorne podia ver uma pequena parte do céu. Estava nublado e carregado de chuva, o ar quente com um travo de sal, elevando o mosquiteiro de tempos em tempos. Um mosquito zumbia fracamente do lado de fora. Ele se sentiu muito satisfeito por estar dentro, seguro no momento. Goze da segurança e da tranqüilidade enquanto duram, disse a si mesmo.
Kiku dormia ao seu lado, enrolada como um gatinho. Com o cabelo em desalinho, parecia-lhe ainda mais bela. Cuidadosamente ele relaxou de novo na maciez dos acolchoados sobre o chão de tatami.
Isto é muito melhor do que uma cama. Melhor do que qualquer beliche — meu Deus, muito melhor! Mas logo estarei de novo a bordo, neh? Logo cairemos em cima do Navio Negro e o tomaremos, neh? Acho que Toranaga concordou embora não tenha dito isso abertamente. Simplesmente não concordou à moda japonesa? "Nada poderá jamais ser resolvido no Japão senão por métodos japoneses." Sim, acredito que isso seja verdade.
Gostaria de estar mais bem informado. Ele não disse a Mariko que traduzisse tudo e explicasse sobre os seus problemas políticos? Gostaria de ter dinheiro para comprar a minha nova tripulação. Ele não me deu dois mil kokus?
Pedi duzentos ou trezentos corsários. Ele não me deu duzentos samurais com todo o poder e dignidade de que necessito? Eles me obedecerão? Claro. Ele me fez samurai e hatamoto. Portanto obedecerão até a morte e eu os levarei para bordo do Erasmus, serão o meu destacamento de abordagem e eu comandarei o ataque.