Выбрать главу

Estou com uma sorte inacreditável! Tenho tudo o que quero. Exceto Mariko. Mas tenho até a ela. Tenho seu espírito secreto, o seu amor. E possuí o seu corpo na noite passada, a noite mágica que nunca existiu. Amamos sem amar. Faz muita diferença?

Não há amor entre mim e Kiku, apenas um desejo que floresceu. Foi formidável para mim. Espero que o tenha sido igualmente para ela. Tentei ser japonês integralmente e cumprir o meu dever, satisfazê-la como ela me satisfez.

Ele se lembrou de como usara um anel de prazer. Sentira-se muito desajeitado e constrangido e se voltara de costas para colocá-lo, petrificado ante a idéia de que sua força desapareceria. Mas não desapareceu. E depois, quando o anel estava no lugar, eles haviam "travesseirado" novamente. O corpo dela estremecia, se contorcia, e a vibração o elevara a um plano mais premente do que ele jamais conhecera.

Depois, quando conseguiu respirar de novo, começou a rir e ela sussurrara: — Por que ri? — e ele respondera: — Não sei, só sei que você me fez feliz.

Nunca tinha rido nesse momento, nunca. Tornou tudo perfeito. Não amo Kiku-san — eu a estimo. Amo Mariko-san sem reservas e gosto completamente de Fujiko-san.

Você dormiria com Fujiko-san? Não. Pelo menos, acho que não poderia.

Seu dever não é esse? Se você aceita os privilégios de samurai e exige que os outros o tratem totalmente como samurai, com tudo o que isso significa, deve aceitar as responsabilidades e deveres, neh? É apenas justo, neh? E honroso, neh? É seu dever dar um filho a Fujiko.

E Felicity. O que ela diria disso?

E quando você partir, como fica Fujiko-san, e como fica Mariko-san? Você realmente voltará para cá, abandonando o título de cavaleiro e as honras até maiores que certamente lhe serão concedidas, desde que retorne carregado de riquezas? Você navegará para os abismos hostis mais uma vez, para se arrebentar através do horror enregelante do estreito de Magalhães, suportar tempestade e mar e escorbuto e motim por outros seiscentos e noventa e oito dias para fazer um segundo desembarque aqui? Para levar esta vida de novo?

Decida!

Então se lembrou do que Mariko lhe dissera sobre compartimentos da mente: — Seja japonês, Anjin-san, o senhor tem que fazer isso, para sobreviver. Faça o que fazemos, renda-se ao ritmo do karma francamente. Alegre-se com as forças que estão além do seu controle. Coloque todas as coisas nos seus compartimentos separados e entregue-se à wa, a harmonia da vida. Entregue-se, Anjin-san, karma é karma, neh?

Sim. Decidirei quando chegar o momento.

Primeiro tenho que arranjar uma tripulação. Depois capturo o Navio Negro. Em seguida navego meio caminho em torno do mundo até a Inglaterra. Então compro e equipo os navios de guerra. E depois decidirei. Karma é karma.

Kiku mexeu-se, depois se enterrou mais fundo nos acolchoados, aconchegando-se mais a ele. Blackthorne sentiu-lhe o calor através dos quimonos de seda. E inflamou-se.

— Anjin-chan — murmurou ela, ainda adormecida. — Hai?

Não a despertou. Contentou-se em embalá-la e descansar, arrebatado pela serenidade que a entrega fio karma lhe dera. Mas antes de adormecer, abençoou Mariko por ter-lhe ensinado.

— Sim, Omi-san, certamente — disse Gyoko. — Vou buscar o Anjin-san imediatamente. Por favor, desculpe-me. Alço, venha comigo.

Gioko mandou Ako buscar chá, depois apressou-se jardim adentro, perguntando-se que notícias vitais o mensageiro noturno a galope teria trazido, pois também ela ouvira o tropel. E por que Omi está tão estranho hoje? Perguntou-se ela. Por que tão frio, áspero e perigoso? E por que veio pessoalmente, para uma tarefa tão baixa? Por que não enviou um samurai qualquer?

Ah, quem sabe? Omi é um homem. Como se pode compreendê-los, particularmente os samurais? Mas alguma coisa está errada, terrivelmente errada. Será que o mensageiro trouxe uma declaração de guerra? Suponho que sim. Se é a guerra, então é a guerra, e a guerra nunca prejudicou o nosso negócio. Daimios e samurais ainda precisarão de entretenimento, como sempre — mais até, em guerra —, e na guerra o dinheiro tem menos valor do que nunca para eles. Bom, bom, bom. Ela sorriu consigo mesma. Lembra-se da guerra, quarenta e muitos anos atrás, quando você tinha dezessete anos e era a menina dos olhos de Mishima? Lembra-se de todo o riso, "travesseiro" e noites de orgulho que se fundiram naqueles dias? Lembra-se de como serviu o Velho Baldy em pessoa, o pai de Yabu, o velho e bondoso cavalheiro que cozinhava criminosos como o filho faz agora? Lembra-se de como você teve que dar duro para deixá-lo flexível — ao contrário do filho! Gyoko soltou uma risadinha. "Travesseiramos" três dias e três noites, depois ele se tornou meu protetor por um ano inteiro. Bons tempos — um bom homem. Oh, como "travesseirávamos"!

Guerra ou paz, não importa! Shikata ga nai? Há o suficiente investido com os prestamistas e os comerciantes de arroz, um pouco aqui, um pouco ali. Depois há a fábrica de saque em Odawara, a casa de chá em Mishima está prosperando, e hoje o Senhor Toranaga vai comprar o contrato de Kiku!

Sim, tempos interessantes à frente, e como a noite anterior fora fantasticamente interessante! Kiku estivera brilhante, a explosão do Anjin-san aflitiva. E depois, quando a Senhora Toda os deixara, o talento de Kiku tornara tudo perfeito e a noite bem-aventurada. Ah, homens e mulheres. Tão previsíveis. Especialmente os homens. Bebês, sempre. Tolos, difíceis, terríveis, petulantes, flexíveis, horríveis — maravilhosos mais raramente —, mas todos nascidos com aquela saliência única, incrivelmente compensadora, que nós no negócio chamamos de Raiz de Jade, Cabeça de Tartaruga, Bico de Yang, Seta Aquecida, Intrometido do Macho, ou simplesmente Pedaço de Carne.

Que insultante! E no entanto tão adequado!

Gyoko casquinou e perguntou a si mesma pela décima milésima vez: por todos os deuses, vivos, mortos e ainda por nascer, o que faríamos neste mundo sem o Pedaço de Carne?

Ela correu de novo, seus passos audíveis apenas o bastante para anunciar a sua presença. Subiu os degraus de cedro polido. Sua batida foi experiente.

— Anjin-san... Anjin-san, desculpe, mas o Senhor Toranaga mandou buscá-lo. O senhor deve se dirigir à fortaleza imediatamente.

— O quê? O que foi que disse?

Ela repetiu em linguagem mais simples.

— Ah! Compreender! Está bem ... eu lá depressa — ela ouviu-o dizer, com seu sotaque engraçado.

— Sinto muito, por favor, desculpe-me. Kiku-san?

— Sim, Mama-san? — Num instante a shoji se abriu. Kiku sorriu para ela, apertando o quimono junto ao corpo, o cabelo lindamente desarranjado. — Bom dia, Mama-san, teve bons sonhos?

— Sim, sim, obrigada. Sinto muito perturbá-la, Kiku-san, gostaria de um pouco de chá fresco?

— Oh! — O sorriso de Kiku desapareceu. Aquela era a frase em código que Gyoko podia usar livremente diante de qualquer cliente, para dizer a Kiku que seu cliente mais especial, Omi-san, estava na casa de chá. Desse modo Kiku sempre podia terminar mais depressa a sua história, ou canção, ou dança, e ir ao encontro de Omi-san, se quisesse. Kiku "travesseirava" com muito poucos, embora entretivesse a muitos — se pagassem o preço. Muito, muito poucos podiam pagar todos os serviços dela.

— O que é? — perguntou Gyoko, atenta.

— Nada, Mama-san. Anjin-san — chamou Kiku alegremente —, desculpe, gostaria de tomar um chá?

— Sim, por favor.

— Estará aqui imediatamente — disse Gyoko. — Ako! Depressa, criança!

— Sim, ama. — Ako entrou com a bandeja de chá e duas xícaras, e serviu. Gyoko se afastou, novamente se desculpando por incomodá-los. Kiku deu a xícara a Blackthorne pessoalmente. Ele bebeu, sedento, depois ela o ajudou a se vestir. Ako estendeu um quimono limpo para ela. Kiku estava muito atenciosa, mas consumida pela idéia de que logo teria que acompanhar o Anjin-san até o lado de fora do portão e curvar-se para ele em despedida. Fazia parte das boas maneiras. Mais que isso, era um privilégio seu, e dever. Apenas as cortesãs de primeira classe eram autorizadas a ultrapassar a soleira para conferir aquela honra rara; todas as outras tinham que ficar dentro do pátio. Era impensável que ela não terminasse a noite como era esperado — isso seria um terrível insulto ao hóspede —, e no entanto...