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Pela primeira vez na vida, Kiku não estava com vontade de se curvar para um convidado em despedida diante de outro convidado.

Não posso, não com o Anjin-san diante de Omi-san.

Por quê? perguntou a si mesma. É por que o Anjin-san é bárbaro e você está envergonhada de que todo mundo saiba que você foi possuída por um bárbaro? Não. Toda Anjiro já sabe e um homem é como qualquer outro, a maior parte do tempo. Este homem é samurai, hatamoto, e almirante dos navios do Senhor Toranaga! Não, não é nada disso.

O que é então?

É porque descobri durante a noite que estava envergonhada pelo que Omi-san fez a ele. Assim como nós todos devíamos estar. Omi-san nunca lhe devia ter feito aquilo. O Anjin-san está marcado a ferro e os meus dedos pareciam sentir a marca através da seda do quimono. Estou ardendo de vergonha por ele, um bom homem, a quem nunca devia ter sido feito aquilo.

Estou desonrada?

Não, claro que não, só estou envergonhada diante dele. E envergonhada diante de Omi-san por estar envergonhada.

Então, nos ermos da sua mente, ouviu Mama-san dizendo de novo: — Criança, criança, deixe ao homem as coisas de homens. O riso é o nosso lenitivo contra eles, e contra o mundo, os deuses e até a velhice.

— Kiku-san?

— Sim, Anjin-san?

— Agora eu vou.

— Sim. Vamos juntos — disse ela.

Ele pegou-lhe suavemente o rosto nas mãos ásperas e beijou-a. — Obrigado. Não palavras suficientes para agradecer.

— Sou eu quem deve agradecer. Por favor, permita-me agradecer-lhe, Anjin-san. Vamos agora.

Deixou que Ako lhe desse os últimos retoques no cabelo, que ela deixou pendendo frouxamente, amarrou o sash do quimono limpo, e saiu com ele.

Kiku caminhava ao seu lado, conforme era privilégio seu, e não alguns passos atrás, como uma esposa, consorte, filha ou criada era obrigada a fazer. Ele pôs a mão no ombro dela momentaneamente e isso foi desagradável para ela, pois não se encontravam na privacidade de um quarto. Então teve um súbito e horrível pressentimento de que ele ia beijá-la em público — o que Mariko mencionara como costume bárbaro —, ao portão. Oh, Buda, não deixe acontecer, pensou, quase desmaiando de susto.

As espadas dele estavam na sala de recepção. Por costume, todas as armas eram deixadas sob guarda, fora dos quartos de prazer, para evitar discussões letais entre clientes, e também para impedir qualquer dama de pôr fim à vida. Nem todas as damas do Mundo do Salgueiro eram felizes ou afortunadas.

Blackthorne pôs as espadas no sash. Kiku curvou-se e fê-lo passar à varanda, onde ele calçou as sandálias, Gyoko e outros reunidos para se despedir dele, um hóspede honrado. Além do portão estava a praça da aldeia e o mar. Muitos samurais estavam lá, andando em círculos, a esmo, Buntaro entre eles. Kiku não podia ver Omi, embora tivesse certeza de que ele estava observando de algum lugar.

O Anjin-san parecia imensamente alto, ela muito pequena ao seu lado. Agora estavam atravessando o pátio. Ambos viram Omi ao mesmo tempo. Estava em pé perto do portão.

Blackthorne parou. — Bom dia, Omi-san — disse como um amigo, e curvou-se como um amigo, sem saber que Omi e Kiku eram mais que amigos. Como poderia saber? pensou ela. Ninguém lhe disse, por que deveriam dizer-lhe? E o que importa isso, de qualquer modo?

— Bom dia, Anjin-san. — A voz de Omi estava amistosa também, mas ele o viu curvar-se apenas com a polidez suficiente. Depois os seus olhos de azeviche voltaram-se para ela de novo, que se curvou, com um sorriso perfeito. — Bom dia, Omi-san. Esta casa está honrada.

— Obrigado, Kiku-san. Obrigado.

Ela sentiu-lhe o olhar perscrutador, mas fingiu não notar, mantendo os olhos afetadamente baixos. Gyoko e as criadas e cortesãs que estavam livres observavam da varanda.

— Eu vou fortaleza, Omi-san — disse Blackthorne. — Está tudo bem?

— Sim. O Senhor Toranaga mandou chamá-lo. Ir agora. Esperar vê-lo em breve.

— Sim.

Kiku levantou os olhos num relance. Omi ainda a fitava. Ela sorriu o seu melhor sorriso e olhou para o Anjin-san. Este observava Omi intensamente; então, sentindo os olhos dela, voltou-se e correspondeu ao sorriso. A ela o sorriso pareceu constrangido. — Sinto muito, Kiku-san, Omi-san, devo ir agora. — Ele se curvou para Omi. Foi correspondido. Atravessou o portão. Ela o seguiu, quase sem respirar. O movimento parou na praça. No silêncio, ela o viu se voltar e por um terrível momento sentiu que ele ia abraçá-la. Mas para seu enorme alívio, ele não fez isso, e apenas permaneceu ali, esperando como uma pessoa civilizada esperaria.

Ela se curvou com toda a ternura que pôde reunir, o olhar de Omi cravado nela.

— Obrigada, Anjin-san — disse, e sorriu para ele apenas. Um suspiro atravessou a praça. — Obrigada. — Depois acrescentou o tradicionaclass="underline" — Por favor, visite-nos de novo. Contarei os momentos até que nos vejamos de novo.

Ele se curvou com a medida exata de negligência, e partiu a passos largos arrogantemente, como qualquer samurai de qualidade o faria. Depois, porque ele a tratara muito corretamente, e para pagar a Omi pela frieza desnecessária na mesura, ao invés de voltar para dentro de casa imediatamente, permaneceu onde estava, olhando o Anjin-san, para honrá-lo ainda mais. Esperou até que ele estivesse na última esquina. Viu-o olhar para trás. Acenar. Ela se curvou bem profundamente, agora encantada com a atenção na praça, fingindo não notá-la. E apenas quando ele realmente desapareceu foi que caminhou de volta. Com orgulho e grande elegância. E até que o portão se fechasse, todos os homens a olharam, nutrindo-se daquela beleza, invejosos do Anjin-san, que devia ser muito homem para que ela esperasse daquele modo.

— Você está muito bonita — disse Omi.

— Gostaria que isso fosse verdade — disse ela com um sorriso contido. — Aceitaria um pouco de chá, Omi-sama? Ou comida?

— Com você, sim.

Gyoko juntou-se a eles untuosamente. — Por favor, desculpe-me os maus modos, Omi-sama. Coma conosco, por favor. Já tomou a sua primeira refeição?

— Não... ainda não, mas não estou com fome. — Omi olhou Kiku de relance. — Você ainda não comeu?

Gyoko interrompeu expansivamente: — Permita-nos trazer-lhe alguma coisa que não seria inadequado demais, Omi-sama. Kiku-san, quando se tiver trocado junte-se a nós, neh?

— Naturalmente. Por favor, desculpe-me, Omi-sama, por aparecer assim. Sinto muito. — A garota saiu correndo, fingindo uma felicidade que não sentia, Ako a reboque.

Omi disse abruptamente: — Eu gostaria de estar com ela esta noite, para comer e me entreter.

— Naturalmente, Omi-sama — replicou Gyoko com uma profunda mesura, sabendo que ela não estaria livre. — O senhor honra a minha casa e nos concede muita honra. Kiku-san é muito afortunada de que o senhor a distinga com o seu favor.

— Três mil kokus? — Toranaga estava escandalizado.

— Sim, senhor — disse Mariko. Estavam na varanda particular da fortaleza. A chuva já começara de novo, mas não abrandara o calor do dia. Ela se sentia desatenta, muito cansada, e ansiando pelo frescor do outono. — Sinto muito, mas não consegui negociar de modo que a mulher reduzisse mais o preço. Conversei quase até o amanhecer. Sinto muito, senhor, mas ordenou-me que concluísse um acordo na noite passada.

— Mas três mil, Mariko-san! Isso é usura! — Na realidade Toranaga estava contente por ter outro problema que lhe desviasse a mente da preocupação que o atormentava. O padre cristão Tsukku-san viajando com Zataki, o regente pretensioso, não pressagiava nada além de complicação. Ele examinara cada via de escapada, cada estrada de retirada e ataque que cada homem poderia imaginar, e a resposta fora sempre a mesma: se Ishido se mover rapidamente, estou perdido. Tenho que arranjar tempo. Mas como?