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— Hai — ouviu Blackthorne dizer com firmeza.

— Bom — retrucou ele, incisivo. — Já que o Anjin-san é tão generoso, aceitarei o seu oferecimento. Mil kokus. Isso ajudará outros samurais necessitados. Diga-lhe que os seus homens o estarão esperando em Yedo. Vejo-o ao amanhecer, amanhã, Anjin-san.

— Sim. Obrigado, Toranaga-sama.

— Mariko-san, consulte-se com a Senhora Kasigi imediatamente. Já que você aprovou a quantia, imagino que ela concordará com o seu arranjo, por mais hediondo que pareça, embora eu suponha que ela precisará de tempo até o amanhecer para dar a uma soma tão ridícula sua consideração plena. Mande algum criado ordenar à mulher Gyoko que esteja aqui ao crepúsculo. Ela pode trazer a cortesã consigo. Kiku-san pode cantar enquanto conversamos, neh?

Dispensou-os, encantado com o fato de ter poupado mil e quinhentos kokus. As pessoas são tão extravagantes, pensou benevolamente.

— Isso me deixará o suficiente para conseguir uma tripulação? — perguntou Blackthorne.

— Oh, sim, Anjin-san. Mas ele ainda não concordou com que o senhor vá a Nagasaki — disse Mariko. — Quinhentos kokus seria mais que suficiente para viver durante um ano, e os outros quinhentos lhe darão cerca de cento e oitenta kobans em ouro, para contratar marujos. É uma grande quantia de dinheiro.

Fujiko ergueu-se penosamente e falou com Mariko.

— Sua consorte diz que o senhor não devia se preocupar, Anjin-san. Ela pode lhe dar cartas de crédito a certos prestamistas, que lhe adiantarão tudo de que o senhor necessitar. Ela arranjará tudo.

— Sim, mas não tenho que pagar a todos os meus assistentes? Como pago por uma casa, Fujiko-san, minha criadagem?

Mariko estava chocada. — Por favor, desculpe, mas isso naturalmente não é preocupação sua. A sua consorte lhe disse que se encarregará de tudo. Ela...

Fujiko interrompeu e as duas mulheres conversaram um instante.

— Ah so desu, Fujiko-san! — Mariko voltou-se para Blackthorne. — Ela diz que o senhor não deve perder tempo pensando nisso. Roga-lhe, por favor, que gaste o seu tempo preocupando-se apenas com os problemas do Senhor Toranaga. Ela tem dinheiro seu, que pode sacar, caso seja necessário.

Blackthorne pestanejou. — Ela me emprestará o seu próprio dinheiro?

— Oh, não, Anjin-san, claro que o dará ao senhor, se necessitar, Anjin-san. Não se esqueça de que os seus problemas são só por este ano — explicou Mariko. — No próximo ano o senhor estará rico. Quanto aos seus assistentes, por um ano eles receberão dois kokus cada um. Não se esqueça de que Toranaga-sama está dando ao senhor todas as armas e cavalos deles, e que dois kokus são suficientes para alimentá-los, aos seus cavalos e famílias. E não se esqueça, também, de que deu ao Senhor Toranaga metade da sua renda de um ano para garantir que eles seriam escolhidos por ele pessoalmente. Isso é uma honra tremenda, Anjin-san.

— Acha?

— Certamente. Fujiko-san concorda inteiramente. O senhor foi muito astuto ao pensar nisso.

— Obrigado. — Blackthorne permitiu que um pouco do seu prazer se mostrasse. Você está recuperando os miolos, e está começando a pensar como eles, disse a si mesmo alegremente. Sim, foi inteligente cooptar Toranaga. Agora você terá os melhores homens possíveis, e sozinho nunca teria conseguido isso. O que são mil kokus contra o Navio Negro? Portanto, mais uma das coisas que Mariko disse é verdade: que uma das fraquezas de Toranaga é ser sovina. Claro, não o disse tão diretamente, disse apenas que Toranaga fez toda a sua inacreditável riqueza aumentar mais do que a de qualquer daimio do reino. Esse indício, junto com as suas próprias observações — que a roupa de Toranaga era tão simples quanto a sua comida, e o seu estilo de vida pouco diferente do de um samurai comum —, havia-lhe dado outra chave para desvendar Toranaga.

Graças a Deus por Mariko e por Frei Domingo!

A memória de Blackthorne levou-o de volta à cela e ele pensou em como estivera próximo da morte, então, e em como estava próximo da morte agora, mesmo com todas as suas honrarias. O que Toranaga dá, pode tomar de volta. Você acha que ele é seu amigo, mas se ele assassinaria uma esposa e mataria um filho favorito, como você pode dar valor à amizade dele ou à sua vida? Não dou, disse Blackthorne a si mesmo, renovando o seu compromisso. Isso é karma. Não posso fazer nada em relação ao karma, e vivi próximo da morte a vida toda, portanto não há nada de novo. Rendo-me ao karma em toda a sua beleza. Aceito o karma em toda a sua majestade. Confio em que o karma me fará atravessar os próximos seis meses. Depois, por esta altura no próximo ano, estarei atravessando de vento em popa o passo de Magalhães, a caminho de Londres, fora do alcance dele...

Fujiko estava falando. Ele a observou. As bandagens ainda estavam manchadas. Ela estava penosamente deitada sobre os futons, uma criada a abaná-la.

— Ela arranjará tudo para o senhor até o amanhecer, Anjin-san — disse Mariko. — Sua consorte sugere que o senhor leve dois cavalos e um cavalo de bagagem. Um criado homem e uma criada...

— Um criado homem será suficiente.

— Sinto muito, mas a criada deve ir para servi-lo. E, naturalmente, um cozinheiro e um ajudante de cozinheiro.

— Não haverá cozinhas que nós... eu possa usar?

— Oh, sim. Mas o senhor ainda tem que ter os seus próprios cozinheiros, Anjin-san. O senhor é um hatamoto.

Ele sabia que não havia sentido em argumentar. — Deixarei tudo por sua conta.

— Oh, isso é sábio de sua parte, Anjin-san, muito sábio.

Agora devo ir fazer as malas, por favor, desculpe-me. — Mariko partiu alegremente. Não haviam conversado muito, só o suficiente, em latim, para que ambos soubessem que, embora a noite mágica nunca tivesse ocorrido e, como a outra noite, não devesse nunca ser discutida, ambas viveriam na imaginação deles para sempre.

— Fiquei tão orgulhosa quando soube que ela permaneceu ao portão por tanto tempo! A sua dignidade é imensa agora, Anjin-san.

— Por um instante quase esqueci o que a senhora me tinha dito. Involuntariamente cheguei à distância de um fio de cabelo de beijá-la em público.

— Oh ko, Anjin-san, isso teria sido terrível!

— Oh ko, a senhora tem razão! Não fosse pela senhora, eu estaria desonrado... um verme contorcendo-se no pó.

— Em vez disso, é famoso e a sua proeza indubitável. O senhor apreciou algum daqueles objetos curiosos?

— Ah, linda senhora, na minha terra temos um antigo costume: um homem não discute os hábitos íntimos de uma dama com outra.

— Temos o mesmo costume. Mas perguntei se foi apreciado, não usado. Sim, temos o mesmo costume. Estou contente de que a noite tenha sido a seu gosto. — O sorriso dela era acolhedor. — Ser japonês no Japão é sábio, neh?

— Não posso lhe agradecer o suficiente por me haver ensinado, por me haver orientado, por me ter aberto os olhos — disse ele. — Por... — Ele ia dizer "me amar", mas acrescentou: — por ser.

— Não fiz nada. O senhor é o senhor mesmo.

— Agradeço-lhe, por tudo... e pelo seu presente.

— Estou contente de que o seu prazer tenha sido grande.

— Estou triste de que o seu prazer tenha sido nenhum. Estou muito contente de que a senhora também tenha recebido ordem de ir à nascente. Mas por que Osaka?

— Oh, não recebi ordem de ir para Osaka. O Senhor Toranaga me autorizou a ir. Temos propriedades e assuntos de família que devem ser tratados. Além disso, meu filho se encontra lá agora. Depois, também, posso levar mensagens particulares para Kiritsubo-san e a Senhora Sazuko.

— Não é perigoso? Lembre-se das suas palavras: a guerra se aproxima e Ishido é o inimigo. O Senhor Toranaga não disse o mesmo?

— Sim. Mas ainda não há guerra, Anjin-san. E samurais não combatem contra mulheres, a menos que as mulheres os ataquem.

— Mas a senhora? E a ponte em Osaka, do outro lado do fosso? A senhora não me seguiu para enganar Ishido? Ele me teria matado. E lembre-se da sua espada na luta no navio.