— Ah, aquilo foi só para proteger a vida do meu suserano, e a minha vida, quando esteve ameaçada. Era meu dever, Anjin-san, nada mais que isso. Não há risco para mim. Fui dama de companhia da Senhora Yodoko, a viúva do táicum, até da Senhora Ochiba, mãe do herdeiro. Tenho a honra de ser amiga delas. Estou absolutamente segura. E por isso que Toranaga-sama me autoriza a ir. Mas para o senhor em Osaka não há segurança, por causa da fuga do Senhor Toranaga, e do que foi feito ao Senhor Ishido. Portanto o senhor não deve nunca aportar lá. Nagasaki lhe será segura.
— Então ele concordou com a minha ida?
— Não. Ainda não. Mas quando o fizer, será seguro. Ele tem poder em Nagasaki.
Ele queria perguntar "maior do que o dos jesuítas?", mas apenas disse: — Rezo para que o Senhor Toranaga ordene que a senhora vá de navio para Osaka. — Viu-a tremer ligeiramente. — O que a perturba?
— Nada, exceto... exceto que o mar não me agrada. — Ele ordenará assim mesmo?
— Não sei. Mas... — ela se transformou de novo na arreliadora travessa e disse em português: — mas, pela sua saúde, devíamos levar Kiku-san conosco, neh? Esta noite o senhor vai de novo à Câmara Rubro-Escarlate dela?
Ele riu com ela. — Seria ótimo, embora... — Parou, lembrando-se com súbita clareza do olhar de Omi. — Sabe, Mariko-san, quando eu estava ao portão, tenho certeza de que vi Omi-san olhando para ela de um modo muito especial, como um amante olharia. Um amante ciumento. Eu não sabia que eles eram amantes.
— Consta-me que ele é um dos clientes dela, um cliente favorecido, sim. Mas por que isso o preocuparia?
— Porque foi um olhar muito particular. Muito especial.
— Ele não tem direito especial sobre ela, Anjin-san. Ela é uma cortesã de primeira classe. E livre para aceitar ou rejeitar quem lhe apraza.
— Se estivéssemos na Europa e eu "travesseirasse" com a garota dele... compreende, Mariko-san?
— Acho que sim, Anjin-san, mas por que isso o preocuparia? Não está na Europa, Anjin-san, ele não tem nenhum direito formal sobre ela. Se ela quer aceitá-lo e a ele, ou mesmo rejeitar o senhor ou a ele, o que isso tem a ver com qualquer coisa?
— Eu diria que ele é amante dela, no nosso sentido da palavra. Isso tem tudo a ver, neh?
— Mas o que tem isso a ver com a profissão dela, ou com "travesseiro"?
Ele acabou por agradecer-lhe de novo e deixou a questão parar nesse ponto. Mas sua cabeça e seu coração diziam-lhe que estivesse alerta. Não é tão simples quanto você pensa, Mariko-san, mesmo aqui. Omi acredita que Kiku é mais que especial, mesmo que ela não sinta o mesmo. Gostaria de ter sabido que ele era amante dela. Prefiro ter Omi como amigo a tê-lo como inimigo. Mariko poderia estar certa de novo? Que "travesseiro" não tem nada a ver com amor, para eles?
Deus me ajude, estou muito confuso. Agora, um oriental; na maior parte, um ocidental. Tenho que agir como eles e pensar como eles para continuar vivo. E muito daquilo em que eles acreditam é tão melhor do que o nosso modo de pensar, que é tentador querer tornar-me um deles totalmente, e ainda assim... o lar é lá, do outro lado do mar, onde nasceram meus ancestrais, onde vive a minha família, Felicity, Tudor e Elizabeth. Neh?
— Anjin-san?
— Sim, Fujiko-san?
— Por favor, não se preocupe com dinheiro. Não posso suportar vê-lo preocupado. Sinto tanto não poder ir a Yedo com o senhor.
— Logo ver em Yedo, neh?
— Sim. O médico diz que estou me curando depressa e a mãe de Omi concorda.
— Quando médico aqui?
— Ao pôr-do-sol. Sinto muito não poder ir amanhã. Por favor, desculpe-me.
Ele se perguntou de novo sobre o seu dever para com a consorte. Depois devolveu esse pensamento ao seu compartimento quando um outro se precipitou para a frente. Examinou essa idéia e achou-a excelente. E urgente. — Eu vou agora, volto logo. Você descansa ... compreende? Com o senhor?
— Sim. Por favor, desculpe-me por não me levantar, e por... sinto muito.
Ele a deixou e foi para o seu quarto. Pegou uma pistola do esconderijo, examinou a escorva, e enfiou-a por sob o quimono. Depois caminhou sozinho até a casa de Omi. Omi não estava. Midori deu-lhe as boas-vindas e ofereceu-lhe chá, que ele polidamente recusou. Midori estava com seu bebê de dois anos nos braços. Disse que sentia muito, mas Omi voltaria logo. O Anjin-san gostaria de esperar? Ela parecia pouco à vontade, embora polida e atenciosa. Novamente ele recusou e agradeceu, dizendo que voltaria mais tarde, depois desceu para a sua casa.
Aldeãos já haviam limpado o chão, preparando para reconstruir tudo. Nada fora poupado ao incêndio, exceto utensílios de cozinha. Fujiko não lhe contaria o custo da reconstrução. Era muito barato, dissera. Por favor, não se preocupe.
— Karma, Anjin-sama — disse um dos aldeãos.
— Sim.
— O que se poderia fazer? Não se preocupe, sua casa logo estará pronta... melhor do que antes.
Blackthorne viu Omi subindo a colina, tenso e rígido. Foi ao seu encontro. Quando Omi o viu, pareceu perder parte da fúria. — Ah, Anjin-san — disse cordialmente. — Ouvi dizer que vai partir com Toranaga-sama ao amanhecer. Muito bom, podemos cavalgar juntos.
Apesar da aparente amistosidade de Omi, Blackthorne manteve-se em guarda.
— Ouça, Omi-san, agora eu vou lá. — Apontou na direção do altiplano. — Por favor, o senhor vai comigo, sim? — Não há treinamento hoje.
— Compreender. Por favor, ir comigo, sim?
Omi viu que a mão de Blackthorne estava no punho da espada mortífera, ao modo característico, preparando-a. Depois seus olhos agudos notaram o volume sob o sash e ele entendeu imediatamente, pela forma parcialmente delineada, que era uma pistola escondida. — Um homem que tem autorização de usar as duas espadas deveria ser capaz de utilizá-las, não apenas usá-las, neh? — disse, a voz fraca.
— Por favor? Não compreendo.
Omi repetiu, mais simplesmente.
— Ah, compreendo. Sim. Melhor.
— Sim. O Senhor Yabu disse — agora que o senhor é totalmente samurai — que devia começar a aprender mais do que consideramos correto. Como agir como assistente num seppuku, por exemplo — e mesmo como se preparar para o seu próprio seppuku, conforme somos todos obrigados a aprender. Sim, Anjin-san, o senhor devia aprender a usar as espadas. É muito necessário para um samurai saber como usar e honrar sua espada, neh?
Blackthorne não compreendeu metade das palavras. Mas sabia o que Omi estava dizendo. Pelo menos, corrigiu-se ele, apreensivo, sei o que ele está dizendo na superfície.
— Sim. Verdade. Importante — disse ele. — Por favor, um dia o senhor ensinar... desculpe, o senhor ensina, talvez? Por favor? Eu honrado.
— Sim, gostaria de ensinar-lhe, Anjin-san.
Os pêlos de Blackthorne se eriçaram ante a ameaça implícita na voz de Omi. Atenção, censurou-se ele. Não comece a imaginar coisas. — Obrigado. Agora caminhar lá, por favor? Pouco tempo. O senhor vai com? Sim?
— Muito bem, Anjin-san. Mas iremos a cavalo. Volto num instante. — Omi afastou-se colina acima, entrando no seu próprio pátio.
Blackthorne ordenou a um criado que selasse o seu cavalo e montou desajeitadamente pelo lado direito, conforme o costume no Japão e na China. Não penso que haveria muito futuro em deixá-lo me ensinar esgrima, disse a si mesmo, a mão direita apalpando a pistola escondida, o agradável calor da arma tranqüilizando-o. Sua confiança esvaneceu-se quando Omi reapareceu. Com ele vinham quatro samurais montados.
Juntos tomaram a estrada destruída a meio galope, em direção ao altiplano. Passaram por muitas companhias de samurais em equipamento de marcha completo, armados, comandados pelos seus oficiais, galhardetes de lança esvoaçando. Quando alcançaram o cume, viram que todo o Regimento de Mosquetes estava fora do acampamento, em ordem de marcha, cada homem em pé ao lado do seu cavalo armado, um comboio de bagagem na retaguarda, Yabu, Naga e os oficiais na vanguarda. A chuva começou a cair pesadamente.