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— Todas as tropas vão? — perguntou Blackthorne, perturbado, e puxou as rédeas do seu cavalo.

— Sim.

— Vão nascente com Toranaga-sama, Omi-san?

— Não sei.

O sentido de sobrevivência de Blackthorne preveniu-o para não fazer mais perguntas. Mas uma tinha que ser feita. — E Buntaro-sama? — perguntou com indiferença. — Ele conosco amanhã, Omi-san?

— Não. Ele já foi. Esta manhã ele estava na praça quando você saiu da casa de chá. Não o viu, perto da casa de chá?

Blackthorne não conseguiu ler nada de aparente no rosto de Omi.

— Não. Não ver, sinto muito. Ele ir nascente também?

— Acho que sim. Não tenho certeza. — A chuva gotejava do chapéu cônico de Omi, amarrado sob o queixo. Seus olhos estavam quase escondidos. — Agora por que quis que eu viesse aqui com você?

— Mostrar lugar, como eu digo. — Antes que Omi pudesse dizer qualquer coisa mais, Blackthorne esporeou o cavalo. Com o seu acurado sentido marítimo, tomou posições precisas de memória e se dirigiu rapidamente para o ponto exato sobre a fenda. Desmontou e chamou Omi com um gesto. — Por favor.

— O que é, hein? — A voz de Omi estava afiada.

— Por favor, aqui, Omi-san. Sozinho.

Omi afastou os guardas com um aceno e avançou até estar sobranceiro a Blackthorne. — Nan desu ka? — perguntou, sua mão aparentemente apertando a espada.

— Este lugar Toranaga-sama... — Blackthorne não conseguia pensar nas palavras, então explicou parcialmente com as mãos. — Compreende?

— Aqui você o arrancou da terra, neh? E daí?

Blackthorne olhou para ele, depois deliberadamente para a espada dele, depois encarou-o de novo, sem dizer mais nada. Enxugou a chuva do rosto.

— Nan desu ka? — repetiu Omi, mais irritado.

Blackthorne ainda não respondeu. Omi olhou para a fenda e novamente para o rosto de Blackthorne. Então seus olhos se iluminaram. — Ah so desu! Wakarimasu! — Omi pensou um momento, depois chamou um dos guardas. — Traga Mura aqui imediatamente. Com vinte homens e pás!

O samurai se afastou a galope. Omi mandou os outros de volta à aldeia, depois desmontou e parou ao lado de Blackthorne. — Sim, Anjin-san, foi uma excelente idéia. Uma boa idéia.

— Idéia? Que idéia? — perguntou Blackthorne com inocência. — Só mostrar lugar... pensar o senhor querer conhecer lugar, neh? Sinto muito... não compreendo.

— Toranaga-sama perdeu as espadas aqui — disse Omi.

— As espadas são muito valiosas. Ele ficará feliz em recuperá-las. Muito feliz, neh?

— Ah so! Não minha idéia, Omi-san — disse Blackthorne. — Omi-san idéia.

— Claro. Obrigado, Anjin-san. O senhor é um bom amigo e sua mente é rápida. Eu devia ter pensado nisso sozinho. Sim, o senhor é um bom amigo e todos nós precisaremos de amigos nos próximos meses. A guerra está conosco agora, queiramos ou não.

— Por favor? Sinto muito. Não compreendo, falar depressa demais. Por favor, desculpe.

— Contente de sermos amigos... o senhor e eu. Compreende?

— Hai. O senhor diz guerra? Guerra agora?

— Logo. O que podemos fazer? Nada. Não se preocupe. Toranaga-sama dominará Ishido e os traidores. Essa é a verdade, compreende? Não se preocupe, neh?

— Compreender. Eu vou agora, minha casa. Está bem?

— Sim. Vejo-o ao amanhecer. Novamente obrigado.

Blackthorne assentiu. Mas não foi embora. — Ela é bonita, neh?

O quê?

— Kiku-san. — As pernas de Blackthorne estavam ligeiramente separadas e ele estava pronto para saltar para trás e sacar a pistola, apontar e atirar. Lembrava-se com clareza absoluta da inacreditável rapidez com que Omi decapitara o primeiro aldeão, muito tempo atrás, e se preparou do melhor modo que pôde. Raciocinou que sua única segurança estava em precipitar o assunto de Kiku. Omi nunca o faria. Omi consideraria impensável essa falta de educação. E, muito envergonhado com a própria fraqueza, Omi trancaria esse ciúme muito não-japonês num compartimento secreto. Como era estranho e vergonhoso, esse ciúme apodreceria até que, quando menos se esperasse, Omi explodisse cega e ferozmente.

— Kiku-san? — disse Omi.

— Hai. — Blackthorne podia ver que Omi estava petrificado. Ainda assim, ficou contente de ter escolhido o momento e o lugar. — Ela é bonita, neh?

— Bonita?

— Hai.

A chuva aumentou. As pesadas gotas respingavam na lama. Os cavalos arrepiavam desconfortavelmente. Os dois homens estavam encharcados, mas a chuva era quente.

— Sim — disse Omi. — Kiku-san é muito bonita — e pronunciou uma torrente de palavras que Blackthorne não assimilou.

— Não palavras suficientes agora, Omi-san... não suficientes para falar claro agora — disse Blackthorne. — Mais tarde, sim. Não agora. Compreende?

Omi não pareceu ter ouvido. Depois disse: — Há muito tempo, Anjin-san, muito tempo para falar sobre ela, e sobre o senhor, eu e karma. Mas concordo, este não é o momento, neh?

— Acho compreender. Sim. Ontem não saber Omi-san e Kiku-san bons amigos — disse ele, forçando o ataque.

— Ela não é minha propriedade.

— Não saber o senhor e ela muito amigos. Agora...

— Agora vá embora. O assunto está encerrado. A mulher não é nada. Nada. Obstinado, Blackthorne continuou onde estava. — Próxima vez eu...

-— Esta conversa está encerrada! Não ouviu? Acabada! — lyé! Iyé, por Deus!

A mão de Omi foi para a sua espada. Blackthorne saltou dois passos para trás sem perceber. Mas Omi não sacou a arma e Blackthorne não puxou a espada. Os dois homens se prepararam, embora nenhum dos dois quisesse começar.

— O que quer dizer, Anjin-san?

— Próxima vez, primeiro eu pergunto ... sobre Kiku-san. Se Omi-san dizer sim... sim. Se não... não! Compreende? Amigo para amigo, neh?

Omi relaxou ligeiramente a mão sobre a espada. — Repito: ela não é minha propriedade. Obrigado por me ter mostrado este lugar, Anjin-san. Adeus.

— Amigo?

— Claro. — Omi dirigiu-se para o cavalo de Blackthorne e segurou as rédeas. Blackthorne saltou para a sela.

Olhou para Omi. Se pudesse sair ileso, sabia que teria estourado a cabeça do samurai agora. Seria o rumo mais seguro. — Adeus, Omi-san, e obrigado.

— Adeus, Anjin-san. — Omi observou Blackthorne se afastando e não voltou as costas até que ele estivesse sobre a elevação. Marcou o lugar exato na fenda com algumas pedras e depois, perturbado, acocorou-se para esperar, esquecido do dilúvio.

Logo chegaram Mura e os camponeses, salpicados de lama.

— Toranaga-sama caiu no abismo exatamente neste ponto,

Mura. As suas espadas estão enterradas aqui. Traga-as a mim ao crepúsculo.

— Sim, Omi-sarna.

— Se você tivesse miolos, se estivesse interessado em mim, seu suserano, já teria feito isso.

— Por favor, desculpe a minha estupidez.

Omi foi embora. Os homens o observaram brevemente, depois se espalharam num círculo em torno das pedras, e começaram a cavar.

Mura baixou a voz. — Uo, você irá com o comboio de bagagem.

Sim, Mura-san. Mas como?

— Vou oferecê-lo ao Anjin-san. Ele não vai notar diferença alguma.

— Mas a consorte dele, oh ko, vai — sussurrou Uo.

Ela não vai com ele. Ouvi dizer que as queimaduras são graves. Ela irá de navio para Yedo mais tarde. Você sabe o que fazer?

— Procurar o santo padre em particular, responder a todas as perguntas.

— Sim. — Mura descontraiu-se e começou a conversar normalmente. — Você pode ir com o Anjin-san, Uo, ele pagará bem. Faça-se útil, mas não demais, ou ele o levará até Yedo.

Uo riu. — Ei, ouvi dizer que Yedo é tão rica que todo mundo mija em potes de prata, até os etas. E as mulheres têm a pele como espuma do mar, sem pêlos púbicos.