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— É verdade, Mura-san? — perguntou outro aldeão. — Elas não têm pelinhos?

— Yedo era só uma fedorenta aldeiazinha de pesca, nada de tão bom quanto Anjiro, quando estive lá a primeira vez — contou-lhes Mura, sem parar de cavar. — Isso foi com Toranaga-sama, quando estávamos todos dando caça aos Beppu. Cortamos mais de três mil cabeças. Quanto aos pêlos, todas as garotas que conheci os tinham, menos uma da Coréia, mas ela disse que os arrancara, um a um.

— O que algumas mulheres não fariam para nos atrair, hein? — disse alguém.

— Sim. Mas eu gostaria de ver isso — disse Ninjin desdentadamente. — Sim, gostaria de ver um Portão de Jade sem um bosque.

— Eu apostaria um barco carregado de peixe contra um balde de merda como dói arrancar todos aqueles pêlos. — Uo assobiou.

— Quando eu for um kami, vou morar no Pavilhão do Paraíso de Kiku-san! Dizem que ela nasceu perfumada e sem pêlos!

Em meio à risada, Uo perguntou: — Fez alguma diferença, Mura-san, atacar o Portão de Jade sem o bosque?

— Foi o mais próximo que eu já consegui chegar. Iiiiih! Cheguei mais perto e mais fundo do que nunca, e isso é importante, neh? Por isso sei que é sempre melhor que a garota tire o bosque, embora algumas sejam supersticiosas com relação a isso e outras se queixem da coceira. Fica mais perto para a gente, e muito mais para ela... e chegar perto faz toda a diferença, neh? — Eles riram e se abraçaram sobre a escavação. O buraco crescia sob a chuva.

— Aposto como o Anjin-san chegou mais perto a noite passada, para que ela ficasse ao portão daquele jeito! Iüih, o que eu não daria para ter sido ele. — Uo enxugou o suor da testa. Como todos os demais, usava apenas uma tanga e um chapéu cônico de bambu, e estava descalço.

— Iiiiih! Eu estava lá, Uo, na praça, e vi tudo. Vi o sorriso dela e o senti descer até a minha Fruta e os meus artelhos.

— Sim — disse outro. — Tenho que admitir que só o sorriso dela me deixou duro como um remo.

— Mas não tão grande quanto o do Anjin-san, hein, Murasan? — casquinou Uo. — Vamos, conte-nos a história de novo.

Alegremente Mura aquiesceu e contou sobre a primeira noite e a casa de banho. A história melhorara à medida que fora sendo repetida, mas nenhum deles se importava.

— Oh, ser tão imenso! — Uo fez de conta que carregava uma gigantesca ereção à sua frente, e riu tanto que escorregou na lama.

— Quem teria imaginado que o bárbaro estrangeiro sairia do buraco para o paraíso? — Mura curvou-se sobre a sua pá um instante, recobrando fôlego. — Eu nunca teria acreditado... como uma lenda antiga. Karma, neh?

— Talvez ele tenha sido um de nós, numa vida anterior, e tenha voltado com a mesma mente mas uma pele diferente.

Ninjin assentiu. — Isso é possível. Deve ser... porque, pelo que disse o santo padre, eu pensei que ele estaria ardendo na fornalha do Diabo há muito tempo. O padre não disse que rogaria uma praga especial nele? Eu o ouvi invocar a vingança do grande kami Jesus sobre o Anjin-san e, oh ko, até eu fiquei muito assustado. — Persignou-se e os outros mal notaram isso. — Mas Jesus Cristo, Nossa Senhora, Deus punem seus inimigos muito estranhamente, se é que vocês querem saber a minha opinião.

— Bem — disse Uo —, eu não sou cristão, como vocês bem sabem, mas, sinto muito, parece-me que o Anjin-san é um bom homem, por favor, desculpem-me, e melhor do que o padre cristão, que fedia, praguejava e assustava todo mundo. E ele tem sido bom conosco, neh? Trata bem a sua gente... alguns dizem que ele é amigo do Senhor Toranaga, deve ser com todas as honrarias, neh? E não se esqueçam de que Kiku-san o honrou com o seu Rego de Ouro.

— É de ouro, sim. Ouvi dizer que a noite lhe custou cinco kobans!

— Quinze kokus por uma noite? — exclamou Ninjin. — Iiiiiih, que sorte o Anjin-san tem! Tem um kami ótimo para um inimigo de Deus Pai, Filho, e Nossa Senhora.

— Ele pagou um koban, três kokus — disse Mura. — Mas se vocês acham que isso é muito... — Parou e olhou em torno com ar de conspiração, para se certificar de que não havia ouvidos clandestinos, embora soubesse, é claro, que com aquela chuva não haveria nenhum -— e mesmo que houvesse, que importava?

Todos pararam e se aproximaram. — Sim, Mura-san?

— Simplesmente ouvi dizer que ela vai ser consorte do Senhor Toranaga. Ele comprou o contrato dela esta manhã. Três mil kokus.

Era uma cifra assustadora, mais do que a aldeia inteira ganhava com peixe e arroz em vinte anos. O respeito por Kiku aumentou, se é que isso era possível. E pelo Anjin-san, que fora portanto o último homem na terra a desfrutar dela como cortesã de primeira classe.

— Iiiiih! — resmungou Uo, falando com dificuldade. — Tanto dinheiro... não sei se quero vomitar, mijar ou peidar.

— Não faça nenhuma das três coisas — disse Mura laconicamente. — Cave. Vamos encontrar as espadas.

Obedeceram, cada um perdido nos próprios pensamentos. Inexoravelmente o buraco se aprofundava.

Logo Ninjin, ardendo de preocupação, não conseguiu mais se conter e parou de cavar. — Mura-san, por favor, desculpe-me, mas o que decidiu sobre as novas taxas? — perguntou. Os outros pararam.

Mura continuou cavando no seu ritmo metódico, esfalfante. — O que há para decidir? Yabu-sama diz paguem, nós pagamos, neh?

— Mas Toranaga-sama reduziu os nossos impostos para quatro partes sobre dez e ele é o nosso suserano agora.

— Verdade. Mas o Senhor Yabu recebeu Izu de volta, e Suruga e Totomi junto, e se tornou governador de novo, portanto quem é o nosso suserano?

— Toranaga-sama. Certamente, Mura-san, Tora...

— Você vai se queixar para ele, Ninjin? Hein? Acorde, Yabu-sama é governador como sempre foi. Nada mudou. E se ele sobe os impostos, pagamos mais impostos. Está acabado!

— Mas isso vai levar todos os nossos estoques de inverno. Tudo. — A voz de Ninjin era um lamento enraivecido, mas todos eles sabiam da verdade do que ele dissera. — Mesmo com o arroz que roubamos...

— O arroz que poupamos! — sibilou Uo, corrigindo-o.

— Mesmo com isso, não haverá o suficiente para durar todo o inverno. Teremos que vender um bote ou dois.

— Não venderemos bote algum — disse Mura. Espetou a pá na lama e enxugou o suor de sobre os olhos, reamarrou o cordão do chapéu com mais firmeza. Depois começou a cavar de novo. — Trabalhe, Ninjin. Isso lhe desviará a mente do amanhã.

— Como agüentamos o inverno, Mura-san?

— Ainda temos que atravessar o verão.

— Sim — concordou Ninjin amargamente. — Pagamos mais de dois anos de impostos adiantados e ainda não é suficiente. — Karma, Ninjin — disse Uo.

— A guerra se aproxima. Talvez tenhamos um novo senhor que seja mais justo, neh? — disse outro. — Não pode ser pior... ninguém poderia ser pior.

— Não apostem nisso — disse Mura a todos. — Vocês estão vivos ... mas podem estar totalmente mortos rapidamente e então não haverá mais Regos de Ouro, com ou sem bosque. — Sua pá atingiu a rocha e ele parou. — Dê-me uma mão, Uo, amigo velho.

Juntos tiraram a rocha à força da lama. Um cochichou ansiosamente: — Mura-san, e se o santo padre perguntar sobre as armas?

— Conte-lhe. E diga-lhe que estamos prontos... que Anjiro está pronta.

CAPÍTULO 42

Chegaram a Yokosé pelo meio-dia. Buntaro já havia interceptado Zataki na noite anterior e, conforme ordenara Toranaga, dera-lhe as boas-vindas com grande formalidade. — Pedi-lhe que acampasse fora da aldeia, ao norte, senhor, até que o local de encontro pudesse ser preparado — disse Buntaro. — A reunião formal ocorrerá aqui esta tarde, se lhe aprouver — acrescentou, inexpressivo. — Achei que a hora do Bode seria auspiciosa.

— Bom.

— Ele queria encontrá-lo esta noite, mas eu rejeitei isso. Disse-lhe que o senhor ficaria "honrado" em encontrá-lo hoje ou amanhã, como ele quisesse, mas não após escurecer.