Toranaga grunhiu uma aprovação, mas continuou montado no seu cavalo coberto de suor. Usava um peitoral de armas, elmo, e uma leve armadura de bambu, assim como a sua escolta, igualmente esgotada pela viagem. Novamente olhou em torno com cuidado. A clareira fora muito bem escolhida, sem possibilidade alguma de emboscada. Não havia árvores ou casas nas proximidades, que pudessem ocultar arqueiros ou mosqueteiros. A leste da aldeia o terreno era plano e um pouco mais alto. Norte, oeste e sul estavam guardados pela aldeia e pela ponte de madeira que se estendia sobre o rio de curso rápido. Ali na garganta a água redemoinhava, o leito infestado de rochas. A leste, atrás dele e dos cavaleiros exaustos e transpirando, o caminho subia abruptamente o passo até o cume enevoado, a cinco ris de distância. Montanhas erguiam-se acima de tudo ao redor, muitas vulcânicas, a maioria com os picos nas nuvens. No centro da clareira, um estrado de doze esteiras fora especialmente erguido sobre colunas baixas. Cobria-o um alto dossel de junco. Os artesãos não pareciam ter tido pressa. Duas almofadas de brocado estavam colocadas uma diante da outra sobre os tatamis.
— Tenho homens ali, ali e ali — continuou Buntaro, apontando com o arco para todos os penhascos que davam para o vale. — O senhor pode vê-los a muitas ris em todas as direções, senhor. Boas posições de defesa — a ponte e a aldeia inteira estão cobertas. A leste a sua retirada está garantida por mais homens. É claro que a aldeia está bem vigiada por sentinelas, e deixei uma "guarda de honra" de cem homens no acampamento dele.
— O Senhor Zataki está lá agora?
— Não, senhor. Escolhi uma hospedaria para ele e seus escudeiros nos arredores da aldeia, a norte, digna da posição dele, convidei-o a desfrutar dos banhos lá mesmo. A hospedaria é isolada e está protegida. Sugeri que o senhor iria à nascente Shuzenji amanhã e ele seria seu convidado. — Buntaro indicou uma hospedaria de um andar na extremidade da clareira, que dava para a melhor vista, perto de uma fonte pequena que efervescia da rocha num banho natural. — Aquela hospedaria é sua, senhor. — Em frente da estalagem, estavam um grupo de homens, todos ajoelhados, de cabeça bem baixa, curvados imóveis na direção deles. — São o chefe e os anciãos da aldeia. Eu não sabia se o senhor iria querer vê-los imediatamente.
— Mais tarde. — O cavalo de Toranaga relinchou, cansado, sacudiu a cabeça, os freios retinindo. Ele o afagou e, agora totalmente satisfeito com a segurança, fez sinal a seus homens e desmontou. Um dos samurais de Buntaro segurou-lhe as rédeas — o samurai, como Buntaro e todos eles, de armadura, armado para combate, e de prontidão.
Toranaga espreguiçou-se e fez flexões para relaxar os músculos com cãibras das costas e das pernas. Viera na dianteira desde Anjiro em marcha forçada, parando apenas para trocar as montarias. O resto do comboio de bagagem, sob o comando de Omi — palanquins e carregadores —, ainda estava bem longe, enfileirado na estrada que descia do cume. A estrada de Anjiro serpeava ao longo da costa, depois se ramificava. Eles haviam tomado o caminho oeste, para o interior, e subido resolutamente através de florestas luxuriantes com caça abundante, o monte Omura à direita, os picos da cordilheira vulcânica Amagi à esquerda, elevando-se quase a cinco mil pés. A cavalgada o havia alegrado — finalmente um pouco de ação! Parte da jornada fora através de uma região tão boa para falcoar, que ele se prometeu que um dia caçaria por toda Izu.
— Bom. Sim, muito bom — disse ele por sobre o alarido dos seus homens desmontando e tagarelando e se separando. — Você agiu bem.
— Se me quiser honrar, senhor, rogo-lhe que me permita destruir o Senhor Zataki e seus homens imediatamente. — Ele o insultou?
— Não... pelo contrário, seus modos foram dignos de um cortesão, mas a bandeira sob a qual ele viaja é uma traição contra senhor.
— Paciência. Quantas vezes tenho que lhe dizer? — disse Toranaga, sem grosseria.
— Tenho medo sempre, senhor — replicou Buntaro, asperamente. — Por favor, desculpe-me.
— Você costumava ser amigo dele.
— Ele costumava ser seu aliado.
— Ele lhe salvou a vida em Odawara.
— Estávamos do mesmo lado em Odawara — disse Buntaro gelidamente, depois explodiu: — Como ele pode lhe fazer isso, senhor? Seu próprio irmão! O senhor não o favoreceu, não lutou do mesmo lado que ele, a vida toda?
— As pessoas mudam. — Toranaga concentrou toda a atenção no estrado. Delicadas cortinas de seda tinham sido penduradas às vigas sobre a plataforma como decoração. Borlas ornamentais de brocado, combinando com as almofadas, formavam um friso agradável, e dos quatro pilares dos cantos pendiam borlas maiores. — Está rico demais e dá ao encontro importância excessiva — disse ele. — Deixe-o mais simples. Remova as cortinas, todas as borlas e almofadas, devolva-as aos mercadores, e se eles não derem o dinheiro de volta ao mestre quarteleiro, diga-lhe que as venda. Providencie quatro almofadas, não duas, simples, de palha.
— Sim, senhor.
O olhar de Toranaga deu com a fonte e ele se aproximou de lá. A água, fumegante e sulfurosa, chiava quando ele se aproximou de uma fenda nas rochas. Seu corpo doía por um banho. — E o cristão? — perguntou.
— Senhor?
— Tsukku-san, o padre cristão?
— Oh, ele! Está em algum lugar na aldeia, mas do outro lado da ponte. Está proibido de vir a este lado sem a sua permissão. Por quê? É importante? Ele disse alguma coisa sobre como ficaria honrado em vê-lo, quando fosse conveniente. O senhor o quer aqui agora?
— Ele está sozinho?
Buntaro fez um muxoxo. — Não. Tem uma escolta de vinte acólitos, todos tonsurados como ele. Todos homens de Kyushu, senhor, todos bem-nascidos e todos samurais. Todos bem montados, mas sem armas. Mandei revistá-los completamente.
— E ele?
— Claro que a ele também, mais que a qualquer outro. Havia quatro pombos-correio na sua bagagem. Confisquei-os.
— Bom. Destrua-os ... Algum imbecil fez isso por engano, sinto muito, neh?
— Compreendo. Quer que eu mande buscá-lo agora? — Mais tarde. Vê-lo-ei mais tarde.
Buntaro franziu o cenho. — Foi errado revistá-lo?
Toranaga meneou a cabeça e distraidamente olhou para trás, para o cume da montanha, perdido em pensamento. Depois disse: — Mande um par de homens em quem possamos confiar vigiar o Regimento de Mosquetes.
— Já fiz isso, senhor. — O rosto de Buntaro acendeu-se com uma satisfação austera. — E a guarda pessoal do Senhor Yabu contém alguns dos nossos ouvidos e olhos. Ele não vai poder peidar sem que o senhor saiba, se for esse o seu desejo.
— Bom. — A cabeça do comboio de bagagem, ainda bem distante, contornou uma curva no caminho sinuoso. Toranaga podia ver os três palanquins, Omi cavalgando na liderança, conforme o ordenado, o Anjin-san ao seu lado, também cavalgando com desembaraço.
Toranaga deu-lhes as costas. — Trouxe sua esposa comigo. — Sim, senhor.
— Ela está me pedindo permissão para ir a Osaka.
Buntaro encarou-o, mas não disse nada. Depois olhou de soslaio para as figuras discerníveis.
— Dei-lhe a minha aprovação... desde que, naturalmente, você também aprove.
— Tudo o que o senhor aprovar, eu aprovarei — disse Buntaro.
— Posso permitir-lhe que vá por terra, de Mishima, ou que acompanhe o Anjin-san até Yedo, e vá de lá para Osaka, por mar. O Anjin-san concordou em ser responsável por ela... se você aprovar.
— Seria mais seguro por mar — Buntaro estava ardendo por dentro.
— Tudo depende da mensagem do Senhor Zataki. Se Ishido declarou formalmente guerra contra mim, então é claro que devo proibi-lo. Senão, sua esposa pode seguir amanhã ou depois de amanhã, se você aprovar.
— Concordo com qualquer coisa que o senhor decida.
— Esta tarde transfira os seus deveres a Naga-san. É um bom momento para você e sua esposa fazerem as pazes.