— Por favor, desculpe-me, senhor. Devo ficar com os meus homens. Imploro-lhe que me deixe com os meus homens. Até que o senhor esteja longe, em segurança.
— Esta noite você transferirá seus deveres ao meu filho. Você e sua esposa se reunirão a mim à refeição noturna. Ficarão na hospedaria. Farão as pazes.
Buntaro olhava fixamente para o chão. Depois disse, ainda mais rígido: — Sim, senhor.
— Ordeno-lhe que tente fazer as pazes — disse Toranaga. Pretendia acrescentar "uma paz honrosa é melhor do que a guerra, neh?" Mas isso não era verdade, poderia ter dado início a uma discussão filosófica, e ele estava cansado e não queria discussões, apenas um banho e repouso. — Agora vá buscar o chefe da aldeia!
O cabeça e os anciãos da aldeia caíram uns sobre os outros na sua pressa de se curvar diante dele, dando-lhe as boas-vindas do modo mais extravagante. Toranaga disse-lhes bruscamente que a conta que apresentariam ao seu mestre quarteleiro quando ele partisse naturalmente seria justa e razoável. — Neh?
— Hai — disseram em coro humildemente, abençoando os deuses pela inesperada boa fortuna e pelos gordos lucros que aquela visita inevitavelmente lhes traria. Com muitas mesuras e cumprimentos mais, dizendo de como estavam orgulhosos e honrados de poderem servir ao maior daimio do império, o chefe da aldeia, um velho alegre, conduziu-o até a hospedaria.
Toranaga inspecionou-a completamente por entre multidões de mesuras, criadas sorridentes de todas as idades, a nata da aldeia. Havia dez aposentos em torno de um jardim indefinível, com uma pequena casa de chá no centro, cozinhas nos fundos e, a oeste, aninhada nas rochas, uma grande casa de banho alimentada pelas fontes naturais. A hospedaria inteira era rodeada por uma cerca caprichada — um caminho coberto levava ao banho — e fácil de defender.
— Não necessito da hospedaria inteira, Buntaro-san — disse ele, novamente em pé na varanda. — Três aposentos serão suficientes: um para mim, um para o Anjin-san e um para as mulheres. Fique você com um quarto. Não há necessidade de pagar pelo resto.
— O meu mestre quarteleiro diz que fez um negócio muito bom pela hospedaria inteira, senhor, dia a dia, melhor do que metade do preço, e ainda está fora de estação. Aprovei o custo, por causa da sua segurança.
— Muito bem — concordou Toranaga relutante. — Mas quero ver a conta antes de partirmos. Não há necessidade de desperdiçar dinheiro. É melhor encher os quartos com guardas, quatro em cada aposento.
— Sim, senhor. — Buntaro já havia decidido fazer isso. Observou Toranaga afastar-se a passos largos com dois guarda-costas, rodeado pelas quatro criadas mais bonitas, indo para o seu quarto na ala leste. Que mulheres? perguntou-se ele, sombriamente. Que mulheres precisavam do quarto? Fujiko? Não importa, pensou, cansado, logo saberei.
Uma criada passou alvoroçada. Sorriu-lhe, alegre, e ele retribuiu mecanicamente. Era jovem, bonita, tinha uma pele macia, e ele dormira com ela na noite anterior. Mas a união não lhe dera prazer, e embora ela fosse hábil, animada e bem treinada, a luxúria dele desaparecera — ele nunca sentira desejo por ela. Finalmente, por causa das boas maneiras fingira atingir o auge, assim como ela fingira, para deixá-lo logo depois.
Ainda meditando saiu do pátio, para apreciar a estrada.
Por que Osaka?
À hora do Bode, as sentinelas da ponte se afastaram para o lado. O cortejo começou a passar. Primeiro vinham batedores portando bandeiras decoradas com o todo-poderoso emblema dos regentes, depois o rico palanquim, e finalmente mais guardas.
Aldeãos se curvaram, todos de joelhos. Tanta riqueza e pompa os deixava secretamente curiosos. Precavidamente o chefe da aldeia perguntara se devia reunir toda a sua gente para honrar a ocasião. Toranaga mandara uma mensagem dizendo que todos os que não estivessem trabalhando poderiam assistir, com a permissão dos respectivos amos. Então o chefe, com cautela ainda maior, selecionara uma delegação que incluía velhos e jovens obedientes, exatamente o suficiente para fazer uma demonstração — embora todos os adultos tivessem gostado de estar presentes —, mas não o suficiente para ir contra as ordens do grande daimio. Todos os que podiam estavam assistindo às escondidas, por trás de janelas e portas.
Saigawa Zataki, senhor de Shinano, era mais alto do que Toranaga, e cinco anos mais jovem, com a mesma largura de ombros e nariz proeminente. Mas tinha o estômago chato, a barba curta, preta e densa, os olhos meras fendas no rosto. Embora parecesse haver uma fantástica semelhança entre os meios irmãos quando estavam longe, agora que estavam juntos eram absolutamente diferentes. O quimono de Zataki era luxuoso, a armadura cintilante e cerimonial, as espadas bem usadas.
— Bem-vindo, irmão — Toranaga avançou do estrado e se curvou. Estava usando o mais simples dos quimonos e sandálias de palha de soldado. E as espadas. — Por favor, desculpe-me por recebê-lo assim informalmente, mas vim tão depressa quanto pude.
— Por favor, desculpe-me por incomodá-lo. Está com boa aparência, irmão. Muito boa. — Zataki desceu do palanquim e retribuiu a reverência dando início às intermináveis e meticulosas formalidades do cerimonial que agora dirigia a ambos.
— Por favor, tome esta almofada, Senhor Zataki.
— Por favor, desculpe-me, eu ficaria honrado se o senhor se sentasse primeiro, Senhor Toranaga.
— É muito gentil. Mas, por favor, honre-me sentando-se primeiro.
Continuaram com o jogo que já haviam jogado tantas vezes, um com o outro e com os amigos e inimigos, ascendendo à escada do poder, apreciando as regras que governavam cada movimento e cada frase, que protegiam a honra individual de cada um, de modo que nenhum deles pudesse cometer um engano, se comprometer ou comprometer a missão.
Finalmente sentaram-se um diante do outro sobre as almofadas, à distância de duas espadas um do outro. Buntaro postou-se atrás à esquerda de Toranaga. O principal assistente de Zataki, um velho samurai grisalho, também se pôs atrás, à esquerda do amo. Em torno do estrado, a vinte passos, estavam samurais de Toranaga, sentados em fileiras, todos deliberadamente ainda vestidos com os trajes de viagem, mas com as armas em perfeitas condições. Omi estava sentado no chão à extremidade do estrado, Naga no lado oposto. Os homens de Zataki estavam vestidos formalmente, e ricamente, as capas imensas e com ombros em forma de asas presas com fivelas de prata. Mas estavam igualmente bem armados. Acomodaram-se, também a vinte passos de distância.
Mariko serviu o chá cerimonial e houve uma conversa formal e inócua entre os dois irmãos. No momento correto, Mariko curvou-se e saiu, Buntaro doloridamente consciente da presença dela e imensamente orgulhoso da sua graça e beleza. Depois, cedo demais, Zataki disse bruscamente: — Trouxe ordens do conselho de regentes.
Um silêncio repentino caiu sobre a área. Todos, até os seus homens, ficaram agastados com a falta de modos de Zataki, com o modo insolente como dissera "ordens" e não "mensagem", e com a sua falha não esperando que Toranaga perguntasse "Como posso ser-lhe útil?", conforme exigia o cerimonial.
Naga disparou os olhos do braço da espada de Zataki para o pai. Viu o rubor no pescoço de Toranaga, o que era sinal infalível de uma explosão iminente. Mas o seu rosto continuou tranqüilo, e Naga ficou atônito quando ouviu a resposta controlada: — Desculpe, o senhor tem ordens? Para quem, Irmão? Certamente tem uma mensagem?
Zataki sacou com violência dois pequenos rolos da manga. A mão de Buntaro quase disparou para a espada à espera ante a rapidez inesperada, pois o ritual exigia que todos os movimentos fossem lentos e calculados. Toranaga não se movera. Zataki rompeu o selo do primeiro rolo e leu numa voz alta, insensíveclass="underline" — "Por ordem do conselho de regentes, em nome do Imperador Go-Nijo, o Filho do Céu: saudamos nosso ilustre vassalo Yoshi-noh-Minowara e convidamo-lo a prestar obediência diante de nós em Osaka, incontinenti, e convidamo-lo a informar nosso ilustre embaixador, o regente Senhor Saigawa Zataki, se nosso o convite é aceito ou recusado — incontinenti".