Levantou os olhos e, em voz igualmente alta, continuou: — Está assinado por todos os regentes e selado com o Grande Selo do reino. — Com arrogância, colocou o rolo diante dele. Toranaga fez sinal a Buntaro, que avançou, curvou-se profundamente para Zataki, pegou o rolo, voltou-se para Toranaga, curvou-se de novo. Toranaga aceitou o rolo e fez sinal a Buntaro que voltasse a seu lugar.
Toranaga estudou o rolo interminavelmente.
— Todas as assinaturas são autênticas — disse Zataki. — O senhor aceita ou recusa?
Numa voz controlada, de modo que apenas os que estavam no estrado e Omi e Naga pudessem ouvi-lo, Toranaga disse:
— Por que eu não lhe tiro a cabeça pelas maneiras abomináveis? — Porque sou filho de minha mãe — replicou Zataki. — Isso não o protegerá se continuar assim. — Então ela morrerá antes do tempo. — O quê?
— A senhora nossa mãe encontra-se em Takato. — Takato era a inexpugnável fortaleza e capital de Shinano, a província de Zataki. — Lamento que o corpo dela tenha que permanecer lá para sempre.
— Blefe! Você a honra tanto quanto eu.
— Pelo espírito imortal dela, Irmão, por mais que a honre, detesto ainda mais o que você está fazendo ao reino.
— Não viso a mais território e...
— Você visa a destruir a sucessão.
— Está errado de novo, e sempre protegerei o meu sobrinho de traidores.
— Você visa à queda do herdeiro. É nisso que acredito e por isso resolvi continuar vivo e fechar Shinano e a estrada nordeste contra você, custe o que custar, e continuarei a fazer isso até que Kwanto esteja em mãos amistosas, custe o que custar.
— Nas suas mãos, Irmão?
— Quaisquer mãos seguras, o que exclui as suas, Irmão.
— Confia em Ishido?
— Não confio em ninguém, você me ensinou isso. Ishido é Ishido, mas a lealdade dele é inquestionável. Até você admitirá isso.
— Admitirei que Ishido está tentando me destruir e dividir reino, que usurpou o poder e que está infringindo o testamento do táicum.
— Mas você tramou com o Senhor Sugiyama para aniquilar o conselho de regentes. Neh?
A veia da testa de Zataki latejava como um verme preto. — O que você pode dizer? Um dos conselheiros dele admitiu a traição: que você conspirou com Sugiyama para que ele aceitasse o Senhor Ito no seu lugar, depois renunciasse na véspera da primeira reunião e fugisse à noite, e assim lançasse o reino em confusão. Ouvi a confissão ... Irmão.
— Você foi um dos assassinos? Zataki corou. — Ronins fanáticos mataram Sugiyama, não eu, nem qualquer dos homens de Ishido!
— Curioso que você tenha tomado o lugar dele como regente tão depressa, neh?
— Não. Minha linhagem é tão antiga quanto a sua. Mas não ordenei essa morte, nem Ishido. Ele jurou isso pela sua honra de samurai. Eu também. Os ronins mataram Sugiyama, mas ele merecia morrer.
— Por tortura, desonrado numa cela imunda, seus filhos e consortes esquartejados diante dele?
— Isso é um boato espalhado por descontentes infames, talvez pelos seus espiões, para desacreditar o Senhor Ishido e, através dele, a Senhora Ochiba e o herdeiro. Não há prova disso.
— Olhe os corpos deles.
— Os ronins incendiaram a casa. Não há corpos.
— Muito conveniente, neh? Como é que você pode ser tão crédulo? Você não é um camponês estúpido!
— Recuso-me a sentar aqui e ouvir esse lixo. Dê-me a sua resposta agora. E então ou me tire a cabeça, e ela morre, ou deixe-me ir. — Zataki inclinou-se para a frente. — Poucos momentos depois de a minha cabeça ter rolado dos ombros, dez pombos correio estarão voando para o norte, em direção a Takato. Tenho homens de confiança ao norte, leste e oeste, a um dia de marcha daqui, fora do seu alcance, e se eles falharem, há mais homens em segurança do outro lado das suas fronteiras. Se você me tirar a cabeça, mandar me assassinar ou se eu morrer em Izu — seja qual for a razão —, ela também morrerá. Agora, ou você me corta a cabeça ou vamos terminar a entrega dos rolos e parto imediatamente de Izu. Escolha!
— Ishido assassinou o Senhor Sugiyama. Oportunamente lhe darei a prova. Isso é importante, neh? Só preciso de um pouco...
— Você não tem mais tempo! "Incontinenti", diz a mensagem. Claro que se você se recusar a obedecer, ótimo, assim será feito. Olhe — Zataki colocou o segundo rolo sobre os tatamis —, aqui está o seu impedimento formal e a ordem para cometer seppuku, que você tratará com desprezo igual — que Buda o perdoe! Agora está tudo feito. Partirei imediatamente, e na próxima vez que nos virmos será num campo de batalha, e por Buda, antes do pôr-do-sol desse dia, prometi a mim mesmo que verei a sua cabeça na ponta de um chuço.
Toranaga mantinha os olhos fixos no adversário. — O Senhor Sugiyama era seu amigo e meu. Companheiro nosso, um samurai tão honrado quanto jamais existiu. A verdade sobre a morte dele deveria ser de importância para você.
— A sua tem mais importância, Irmão.
— Ishido o sugou como um bebê faminto na teta da mãe.
Zataki voltou-se para o seu conselheiro. — Pela sua honra de samurai, eu postei homens e qual é a mensagem?
O velho samurai, grisalho e digno, chefe dos confidentes de Zataki, e bem conhecido de Toranaga como homem honrado, sentia-se aborrecido e envergonhado pela ruidosa demonstração de ódio, assim como todos os que ouviam. — Sinto muito, senhor — disse ele, num sussurro sufocado, curvando-se para Toranaga —, mas meu amo, naturalmente, está dizendo a verdade. Como se poderia questionar isso? E, por favor, desculpe-me, mas é meu dever, com toda a honra e humildade, assinalar-lhes que... essa falta de polidez tão surpreendente e vergonhosa, entre os senhores, não é digna da sua posição nem da solenidade desta ocasião. Se os seus vassalos... se pudessem ter ouvido... duvido que qualquer um dos senhores pudesse tê-los contido. Esqueceram-se do seu dever como samurais e do seu dever para com os seus homens. Por favor, desculpem-me — ele se curvou para os dois —, mas isto tinha que ser dito. — E acrescentou: — Todas as mensagens foram idênticas, Senhor Toranaga, e sob o selo oficial do Senhor Zataki: "Matem a senhora minha mãe imediatamente".
— Como posso provar que não estou tentando destruir o herdeiro? — perguntou Toranaga ao irmão.
— Abdique imediatamente de todos os seus títulos e poder em favor do seu filho e herdeiro, o Senhor Sudara, e cometa seppuku hoje. Então eu e os meus homens, até o último, apoiaremos Sudara como senhor do Kwanto.
— Considerarei o que você disse.
— Hein?
— Considerarei o que você disse — repetiu Toranaga com mais firmeza. — Encontramo-nos amanhã à mesma hora, se lhe aprouver.
O rosto de Zataki contorceu-se. — Isso é mais um dos seus truques? O que há para justificar outro encontro?
— O que você disse e isto — Toranaga levantou o rolo que tinha na mão. — Dar-lhe-ei a minha resposta amanhã.
— Buntaro-san! — Zataki apontou o segundo rolo. — Por favor, dê isto ao seu amo.
— Não! — A voz de Toranaga repercutiu em torno da clareira. Depois, com grande cerimônia, acrescentou alto: — Fico formalmente honrado em aceitar a mensagem do conselho e submeterei a minha resposta ao seu ilustre embaixador, meu irmão, o senhor de Shinano, amanhã a esta hora.
Zataki encarou-o desconfiado. — Que possível resp...
— Por favor, desculpe-me, senhor -— interrompeu o velho samurai baixinho, com uma dignidade grave, novamente mantendo a conversa em particular —, sinto muito, mas o Senhor Toranaga está perfeitamente correto em sugerir isso. E uma escolha solene que o senhor lhe deu, uma escolha que não está contida nos pergaminhos. E justo e honrado que se dê a ele o tempo que solicita.
Zataki pegou o segundo pergaminho e o empurrou de volta à manga. — Muito bem. Concordo. Senhor Toranaga, por favor, desculpe-me os maus modos. Por último, por favor, diga-me onde está Kasigi Yabu. Tenho um pergaminho para ele. Só um, no caso dele.