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— Eu o mandarei ao senhor.

O falcão fechou as asas e caiu a mil pés no céu vespertino, chocando-se contra o pombo em fuga com uma explosão de penas, depois segurou-o nas garras e carregou-o para o solo, novamente caindo como uma pedra. Então, a poucos pés do chão, soltou a presa agora morta, freou furiosamente e pousou perfeitamente. — Ic-ic-ic-ic-üicc! — guinchou a ave, arrepiando as penas do pescoço com orgulho, as garras dilacerando a cabeça do pombo no seu êxtase da conquista.

Toranaga, com Naga como escudeiro, saiu a galope. O daimio deslizou da sela. Gentilmente chamou a ave de volta ao punho. Obediente, ela subiu para a luva. Imediatamente foi recompensada com um pedaço de carne de uma presa anterior. Ele lhe colocou o capuz, apertando as correias com os dentes. Naga pegou o pombo e o colocou na sacola de caça cheia pela metade que pendia da sela do seu pai, depois se voltou e chamou com gestos os batedores e guardas afastados.

Toranaga montou novamente, o falcão confortavelmente na sua luva, seguro pelos delgados pioses de couro. Ele levantou os olhos para o céu, avaliando a claridade que ainda havia.

No fim da tarde, o sol aparecera, e agora, no vale, o dia morrendo rapidamente, o sol de há muito oculto pelo pico ocidental, estava frio e agradável. As nuvens estavam tomando rumo norte, empurradas pelo vento dominante, flutuando sobre os picos das montanhas e ocultando muitos. Àquela altitude, o ar era limpo e suave.

— Devemos ter um bom dia amanhã, Naga-san. Sem nuvens, imagino. Acho que caçarei assim que amanhecer.

— Sim, Pai. — Naga o observava, perplexo, com medo de fazer perguntas como sempre, mas querendo saber tudo. Não conseguia entender como o pai podia estar tão despreocupado depois de uma reunião tão hedionda. Despedir-se de Zataki com a cerimônia devida, depois, imediatamente, convocar seus gaviões, batedores e guardas e levá-los para as colinas ondulantes além da floresta, parecia a Naga uma extraordinária demonstração de autocontrole. O simples fato de pensar em Zataki fazia a pele de Naga arrepiar-se, e ele sabia que o velho conselheiro tinha razão: se um décimo da conversa tivesse sido ouvido, os samurais teriam saltado para defender a honra dos respectivos senhores. Não fosse pela ameaça que pendia sobre a cabeça da sua venerada avó, Naga teria se atirado a Zataki pessoalmente. Acho que é por isso que meu pai é o que é, e está onde está, pensou ele...

Seus olhos perceberam cavaleiros surgindo da floresta abaixo e galopando na direção deles sobre os contrafortes ondulantes. Além do verde escuro da floresta, o rio era uma faixa negra enroscando-se. As luzes nas hospedarias piscavam como vagalumes. — Pai!

— Hein? Ah, sim, estou vendo agora. Quem são?

— Yabu-san, Omi-san e... oito guardas.

— Seus olhos são melhores do que os meus. Ah, sim, agora os reconheço.

Sem pensar, Naga disse: — Eu não teria deixado Yabu-san ir sozinho ao encontro do Senhor Zataki sem... — Parou e gaguejou: — Por favor, desculpe-me.

— Por que não teria mandado Yabu-san sozinho?

Naga se amaldiçoou por abrir a boca e estremeceu sob o olhar fixo de Toranaga. — Por favor, desculpe-me, mas porque eu nunca saberia que acordo secreto eles teriam feito. Ele poderia fazer isso, Pai, facilmente. Eu os teria mantido separados... por favor, desculpe-me. Não confio nele.

— Se Yabu-san e Zataki-san planejam traição pelas minhas costas, eles o farão, mande eu uma testemunha ou não. Algumas vezes é mais prudente dar linha extra à vítima... é assim que se pega um peixe, neh?

— Sim, por favor, desculpe-me.

Toranaga percebeu que o filho não havia compreendido, nunca compreenderia, seria sempre meramente um falcão para ser lançado contra um inimigo, veloz, voraz e mortalmente.

— Fico contente de que você compreenda, meu filho — disse para encorajá-lo, conhecendo-lhe as boas qualidades e valorizando-as. — Você é um bom filho — acrescentou, falando sinceramente.

— Obrigado, Pai — disse Naga, cheio de orgulho com o raro elogio. — Só espero que o senhor perdoe minhas tolices e me ensine a servi-lo melhor.

— Você não é tolo — disse Toranaga, quase acrescentando "Yabu é que é". Quanto menos gente souber, melhor, e não é necessário esforçar a sua mente. Você é tão jovem... meu filho mais novo, não fosse o seu meio irmão, Tadateru. Quantos anos ele tem? Ah, sete, sim, deve estar com sete.

Observou um momento os cavaleiros que se aproximavam. — Como está sua mãe, Naga?

— Como sempre, a mulher mais feliz do mundo. Só me deixa vê-Ia uma vez por ano. O senhor não pode convencê-la a mudar?

— Não — disse Toranaga. — Ela nunca mudará.

Toranaga sempre se animava quando pensava em ChanoTsuboné, sua oitava consorte oficial e mãe de Naga. Riu consigo mesmo ao se lembrar do humor grosseiro dela, suas faces com covinhas, o traseiro insolente, o modo como ondulava e o entusiasmo com que "travesseirava".

Fora a viúva de um fazendeiro das proximidades de Yedo, que o atraíra vinte anos atrás. Ficara com ele três anos, depois pedira permissão para retornar à terra. Ele lhe permitira ir-se. Agora vivia numa boa fazenda perto do lugar onde nascera — gorda e contente, uma monja budista, honrada por todos e sem obrigação para com ninguém. De vez em quando ia vê-Ia e então riam muito juntos, sem motivo, amigos.

— Ah, é uma boa mulher — disse Toranaga.

Yabu e Omi chegaram e desmontaram. A dez passos, pararam e se curvaram.

— Ele me deu um pergaminho — disse Yabu, enraivecido, brandindo-o. — "...Convidamo-lo a deixar Izu imediatamente e rumar para Osaka hoje, e apresentar-se no Castelo de Osaka para uma audiência, ou todas as suas terras ficam confiscadas e o senhor, conseqüentemente, declarado fora da lei." — Amarrotou o rolo na mão e atirou-o ao chão. — "Hoje"!

— Então o senhor deve partir imediatamente — disse Toranaga, repentinamente muito bem-humorado ante a truculência e estupidez de Yabu.

— Senhor, imploro-lhe — começou Omi apressadamente, caindo de joelhos —, o Senhor Yabu é seu vassalo devotado e imploro-lhe humildemente que não escarneça dele. Perdoe-me por ser tão rude, mas o Senhor Zataki ... Perdoe-me por ser tão rude.

— Yabu-san, desculpe a observação, por favor, tinha a intenção de ser cordial — disse Toranaga, amaldiçoando o seu lapso.

— Devemos todos ter senso de humor ante essas mensagens, neh?

— Chamou o falcoeiro, deu-lhe a ave do punho, e dispensou a ele e aos batedores. Depois afastou todos os samurais do raio de audição, exceto Naga, acocorou-se e os mandou fazer o mesmo. — Talvez fosse melhor me contar o que aconteceu.

— Quase não há nada a contar — disse Yabu. — Fui vê-lo. Recebeu-me com o mínimo absoluto de cortesia. Primeiro houve "saudações" do Senhor Ishido e um convite brusco para me aliar secretamente a ele, planejar o seu assassinato imediato, e matar cada samurai de Toranaga em Izu. Naturalmente me recusei a ouvir, e imediatamente — imediatamente —, sem qualquer cortesia, ele me estendeu isto! — Os dedos dele apontaram beligerantemente na direção do pergaminho. — Se a sua ordem direta não o estivesse protegendo, eu o teria feito em pedaços na hora! Solicito-lhe que anule essa ordem. Não posso viver com essa vergonha. Tenho que me vingar!

— Isso foi tudo o que aconteceu?

— Não é o suficiente?

Toranaga passou por cima da rudeza de Yabu e olhou carrancudo para Omi. — Você merece ser censurado, neh? Por que não teve a inteligência de proteger melhor o seu senhor? Supõe-se que você seja um conselheiro. Deveria ter sido o escudo dele. Deveria ter levado o Senhor Zataki a falar às claras tentando descobrir o que Ishido tem em mente, qual era o suborno, que planos eles têm. Supõe-se que você seja um conselheiro de valor. Teve uma oportunidade perfeita e desperdiçou-a como um simplório inexperiente!