Omi baixou a cabeça. — Por favor, desculpe-me, senhor.
— Eu poderia desculpá-lo, mas não vejo por que o Senhor Yabu deva fazer isso. Agora tem que agir, de um modo ou de outro.
— O quê? — disse Yabu.
— Por que outro motivo acha que fiz o que fiz? Para adiar... naturalmente, para adiar — disse Toranaga.
— Mas um dia? Que valor tem um dia? — perguntou Yabu.
— Quem sabe? Um dia para nós é um dia a menos para o inimigo. — Os olhos de Toranaga relampejaram de volta a Omi. — A mensagem de Ishido foi verbal ou por escrito?
Foi Yabu quem respondeu. — Verbal, é claro.
Toranaga mantinha o olhar penetrante fixo em Omi. — Você falhou no seu dever para com o seu senhor e para comigo. — Por favor, desculpe...
— O que foi que você disse exatamente? Omi não respondeu.
— Esqueceu-se da sua educação, também? O que foi que disse?
— Nada, senhor. Não disse nada.
— O quê?
— Ele não disse nada a Zataki porque não estava presente — rugiu Yabu. — Zataki pediu para falar comigo sozinho.
— Oh? — Toranaga ocultou o contentamento por Yabu ter tido que admitir o que ele já supunha, e que parte da verdade agora estava às claras. — Por favor, desculpe-me, Omi-san. Naturalmente presumi que você tivesse estado presente.
— O erro foi meu, senhor. Deveria ter insistido. O senhor tem razão, falhei em proteger o meu senhor — disse Omi. — Eu deveria ter sido mais enérgico. Por favor, desculpe-me. Yabusama, por favor, desculpe-me.
Antes que Yabu pudesse responder, Toranaga disse: — É claro que você está perdoado, Omi-san. Se o seu senhor rejeitou a sua companhia, isso é privilégio dele. O senhor rejeitou, Yabu-sama?
— Sim... sim, mas não achei que tivesse importância. O senhor acha que eu...
— Bem, o dano está feito agora. O que planeja fazer?
— Naturalmente ignorar a mensagem, senhor. — Yabu estava inquieto. — O senhor acha que eu poderia ter evitado pegá-la?
— É claro. Poderia ter negociado com ele por um dia. Talvez mais. Semanas até — acrescentou Toranaga, revolvendo a faca mais fundo na ferida, maliciosamente deliciado com o fato de a própria estupidez de Yabu tê-lo atirado ao anzol, e nem um pouco preocupado com a traição para a qual Yabu indubitavelmente fora atraído, bajulado, lisonjeado, ou ameaçado. — Sinto muito, mas está comprometido. Não tem importância, é como o senhor diz: "Quanto mais depressa todo mundo escolher posições, melhor". — Levantou-se. — Não há necessidade de voltar ao regimento esta noite. Vocês dois juntem-se a mim à refeição noturna. Providenciarei um entretenimento. — Para todo mundo, disse a si mesmo, com muita satisfação.
Os hábeis dedos de Kiku feriram um acorde, o plectro seguro com firmeza. Depois ela começou a cantar e a pureza da sua voz encheu a noite silenciosa. Estavam sentados no grande aposento que se abria para a varanda e o jardim, fascinados pelo extraordinário efeito que ela causava sob os archotes bruxuleantes, os fios de ouro do seu quimono captando a luz quando ela se curvava sobre o samisen.
Toranaga correu os olhos em torno momentaneamente. A um lado seu, Mariko estava sentada entre Blackthorne e Buntaro. Do outro, Omi e Yabu, lado a lado. O lugar de honra ainda estava vazio. Zataki fora convidado, mas naturalmente lamentara ter que declinar do convite, por estar mal de saúde, embora tivesse sido visto galopando pelas colinas a nordeste, e agora estivesse "travesseirando" com o seu vigor lendário. Naga e guardas escolhidos com muito cuidado estavam por toda parte. Gyoko vagava em algum lugar na obscuridade. Kiku-san estava ajoelhada na varanda de frente para eles, de costas para o jardim — minúscula, sozinha e esplêndida.
Mariko tinha razão, pensou Toranaga. A cortesã vale o dinheiro. Seu espírito estava fascinado por ela, sua preocupação com Zataki abrandada. Mando chamá-la de novo esta noite ou durmo sozinho? Sua virilidade levantou-se quando se lembrou da noite anterior.
— Então, Gyoko-san, deseja ver-me? — perguntara em seus aposentos particulares da fortaleza.
— Sim, senhor.
Ele acendera o bastão de incenso. — Por favor, prossiga.
Gyoko se curvara, mas ele mal tinha olhos para ela. Era a primeira vez que via Kiku de perto. A proximidade realçava-lhe os traços magníficos, ainda não marcados pelos rigores da sua profissão. — Por favor, toque um pouco de música enquanto conversamos — dissera, surpreso de que Gyoko estivesse preparada para conversar na frente dela.
Kiku obedecera imediatamente, mas a música não fora nada como a desta noite. Fora calmante, um acompanhamento para o negócio que estava sendo tratado. Esta noite era para excitar, para admirar, e para prometer.
— Senhor — começara Gyoko formalmente —, primeiro possa eu humildemente agradecer-lhe a honra que me faz, à minha pobre casa, e a Kiku-san, a primeira das minhas damas do Mundo do Salgueiro. O preço que pedi pelo contrato é insolente, eu sei, impossível, tenho certeza, não decidido até o amanhecer de amanhã, quando a Senhora Kasigi e a Senhora Toda, na sua sabedoria, decidirão. Se se tratasse de um assunto seu, o senhor teria decidido há muito tempo, pois o que significa o desprezível dinheiro para qualquer samurai, ainda mais para o maior daimio do mundo?
Gyoko fizera uma pausa para efeito. Ele não mordera a isca, mas movera o leque ligeiramente, o que podia ser interpretado como irritação com a expansividade dela, aceitação do cumprimento ou uma absoluta rejeição do preço solicitado, dependendo da disposição dela. Ambos sabiam com muita clareza quem é que realmente aprovava a quantia.
— O que é o dinheiro? Nada além de um meio de comunicação — continuara ela —, assim como a música de Kiku-san. O que, de fato, nós, do Mundo do Salgueiro, fazemos senão comunicar e entreter, iluminar a alma do homem, aliviar-lhe o fardo... — Toranaga reprimira uma resposta cáustica, lembrando-se de que a mulher comprara um bastão de tempo por quinhentos kokus, e quinhentos kokus mereciam uma audição atenta. Por isso deixou-a continuar e ouviu com um ouvido, deixando o outro gozar da música perfeita que o atingia no âmago do ser, afagando-o até uma sensação de euforia. Então fora rudemente arrastado de volta ao mundo da realidade, por alguma coisa que Gyoko dissera.
— O quê?
— Eu estava meramente sugerindo que o senhor devia tomar o Mundo do Salgueiro sob a sua proteção e mudar o curso da história.
— Como?
— Fazendo o que sempre fez, senhor, interessando-se pelo futuro do império inteiro, antes de se interessar pelo seu.
Ele deixou o ridículo exagero passar e disse a si mesmo que fechasse os ouvidos à música — que ele caíra na primeira armadilha dizendo a Gyoko que trouxesse a garota, na segunda deixando-se regalar com a beleza e o perfume dela, e na terceira permitindo-lhe tocar sedutoramente enquanto a ama falava.
— O Mundo do Salgueiro? O que há com o Mundo do Salgueiro?
— Duas coisas, senhor. Primeiro, atualmente o Mundo do Salgueiro está misturado com o mundo real, para prejuízo de ambos. Segundo, as nossas damas não podem, realmente, atingir a perfeição que todo homem tem o direito de esperar.
— Oh? — O perfume de Kiku, um perfume que ele nunca conhecera antes, chegou-lhe numa lufada. Fora escolhido à perfeição. Involuntariamente olhou para ela. Encontrou um meio sorriso, para ele apenas. Languidamente ela baixou os olhos e seus dedos feriram as cordas, enquanto ele os sentia em si mesmo intimamente.
Tentou se concentrar. — Desculpe, Gyoko-san. Estava dizendo?
— Por favor, desculpe-me por não ser clara, senhor. Primeiro: o Mundo do Salgueiro devia ser separado do mundo real. Minha casa de chá em Mishima fica numa rua ao sul da cidade, enquanto outras se espalham por toda a cidade. Acontece o mesmo em Kyoto e Nara, e por todo o império. Até em Yedo. Mas pensei que Yedo poderia estabelecer o padrão do mundo.