— Ouça, Gyoko-san, compreendo. Não se preocupe. Considerarei tudo o que você disse. Oh, sim, vocês duas partirão comigo pouco depois do amanhecer. Alguns dias nas montanhas farão uma agradável mudança. Imagino que o preço do contrato será aprovado, neh?
Gyoko curvou-se agradecida, depois enxugou as lágrimas e disse com firmeza: — Posso, então, perguntar o nome da honrada pessoa para quem o contrato dela será comprado?
— Yoshi Toranaga-noh-Minowara.
Agora, sob a noite de Yokosé, o ar docemente frio, a música e a voz de Kiku-san possuindo a mente e o coração de todos, Toranaga deixou a própria mente devanear. Lembrou-se da cintilação de orgulho que inundara o rosto de Gyoko e admirou-se de novo com a desnorteante credulidade das pessoas. Que desconcertante que até as pessoas mais inteligentes e astutas freqüentemente vissem apenas o que queriam ver, e raramente olhassem para além da mais delgada das fachadas. Ou que ignorassem a realidade, rejeitando-a como uma fachada. E depois, quando o seu mundo inteiro caísse em pedaços e essas pessoas estivessem de joelhos, rasgando o ventre ou cortando o pescoço, ou atiradas ao mundo indiferente, arrancassem os cabelos, ou rasgassem as roupas ou lamentassem o karma, acusando deuses ou kamis ou a sorte, ou o senhor, o marido, o vassalo — qualquer coisa ou qualquer pessoa —, mas nunca a si mesmas.
Muito estranho.
Olhou para os seus convidados e viu que ainda estavam observando a garota, fechados em seus segredos, a mente expandida pelo talento dela — todos menos o Anjin-san, que estava impaciente e buliçoso. Não tem importância, Anjin-san, pensou Toranaga divertido, é apenas a sua falta de civilização. Sim, não importa, isso virá com o tempo, e ainda assim isso não tem importância, desde que você obedeça. No momento preciso da sua suscetibilidade, da sua cólera e da sua violência.
Sim, vocês estão todos aqui. Você, Omi e Yabu, Naga, Buntaro, e você, Mariko, e Kiku-san, e até Gyoko, todos os meus gaviões e falcões de Izu, todos treinados e muito preparados. Todos aqui, menos um: o padre cristão. E logo chegará a sua vez, Tsukku-san. Ou a minha.
O Padre Martim Alvito, da Companhia de Jesus, estava furioso. Bem quando sabia que devia estar se preparando para seu encontro com Toranaga, para o qual precisaria de todos os seus talentos, era defrontado com aquela nova abominação que não podia esperar. — O que você tem a dizer em sua defesa? — vociferou contra o amedrontado acólito japonês, abjetamente ajoelhado à sua frente. Os outros irmãos erguiam-se em torno do pequeno aposento, em semicírculo.
— Por favor, perdoe-me, padre. Pequei — gaguejou o homem em completa aflição. — Por favor, perdoe...
— Repito: perdoar cabe a Deus todo-poderoso, na sua sabedoria, não a mim. Você cometeu um pecado mortal. Quebrou o seu voto sagrado. Bem?
A resposta veio quase inaudível. — Sinto muito, padre. — O homem era magro e frágil. Seu nome de batismo era José e ele tinha trinta anos. Os acólitos seus companheiros, todos irmãos da Companhia, iam dos dezoito aos quarenta anos. Eram todos tonsurados, e de nobre origem samurai de províncias de Kyushu, todos rigorosamente educados para o sacerdócio, embora ainda nenhum fosse ordenado.
— Eu confessei, padre — disse o Irmão José, mantendo a cabeça curvada.
— Acha que isso basta? Impaciente Alvito deu-lhe as costas e se dirigiu para a janela. A sala era comum, as esteiras razoáveis, as divisórias shoji pobremente consertadas. A hospedaria era velha e de terceira classe, mas a melhor que ele conseguira encontrar em Yokosé, já que as demais tinham sido tomadas pelos samurais. Ele contemplou a noite, ouvindo parcialmente a distante voz de Kiku elevando-se acima do ruído do rio. Antes que a cortesã terminasse, Alvito soube que não seria chamado por Toranaga. — Prostituta imunda — disse ele, meio para si mesmo, a lamentosa dissonância da canção japonesa aborrecendo-o mais do que de costume, intensificando-lhe a raiva pela traição de José.
— Ouçam, irmãos — disse aos demais, voltando-se para eles. — Está em julgamento o Irmão José, que saiu com uma prostituta ontem à noite, quebrando o seu voto sagrado de castidade, quebrando o seu voto sagrado de obediência, profanando sua alma imortal, sua posição como jesuíta, seu lugar na Igreja e tudo aquilo que ela sustenta. Diante de Deus pergunto a cada um de vocês: já fizeram o mesmo?
Todos menearam a cabeça.
— Você já fez isso antes? — Não, padre.
— Você, pecador! Diante de Deus, admite o seu pecado? — Sim, padre, já conf...
— Diante de Deus, essa foi a primeira vez?
— Não, não foi a primeira vez — disse José. — Eu... eu saí com outra há algumas noites... em Mishima.
— Mas... mas ontem dissemos missa! E a sua confissão de ontem, e a de anteontem, e a de trasanteontem, você não... Ontem dissemos missa! Pelo amor de Deus, você recebeu a eucaristia sem se ter confessado, com conhecimento pleno do seu pecado mortal?
O Irmão José estava cinza de vergonha. Estava com os jesuítas desde os oito anos de idade. — Foi a... foi a primeira vez, padre. Faz só quatro dias. Vivi a vida toda sem pecado. Novamente fui tentado... e que a abençoada Nossa Senhora me perdoe, desta vez falhei. Tenho sede. Sou um homem... somos todos homens. Por favor, o Senhor Jesus Pai perdoou os pecadores... por que o senhor não pode me perdoar? Somos todos homens ...
— Somos todos padres!
— Não somos padres de verdade! Não professamos... não somos sequer ordenados! Não somos jesuítas de verdade. Não podemos receber o quarto voto como o senhor, padre — disse José sombriamente. — Outras ordens ordenam os seus irmãos, mas não os jesuítas. Por que não...
— Cale a boca!
— Não calo! — dardejou José. — Por favor, desculpe-me, padre, mas por que alguns de nós não devem ser ordenados? — Apontou para um dos irmãos, um homem alto, de rosto redondo, que observava serenamente. — Por que o Irmão Miguel não deve ser ordenado? Estuda desde os doze anos. Agora tem trinta e seis e é um cristão perfeito, quase um santo. Converteu milhares, mas ainda não foi ordenado, embora...
— Em nome de Deus, você vai ...
— Em nome de Deus, padre, por que um de nós não pode ser ordenado? Alguém tem que ousar lhe perguntar! — José estava de pé agora. — Venho estudando há dezesseis anos, o Irmão Mateus há vinte e três, Julião mais ainda, toda a nossa vida, anos incontáveis. Sabemos as preces, os catecismos e os hinos melhor do que o senhor, e Miguel e eu até falamos latim tão bem quanto port ...
— Pare!
— ... português, e fazemos a maior parte da pregação e debate com os budistas e todos os outros idólatras, e fazemos a maior parte das conversões. Nós fazemos! Em nome de Deus e de Nossa Senhora, o que há de errado conosco? Por que não somos bons o bastante para sermos jesuítas? É só porque não somos portugueses ou espanhóis, ou porque não somos peludos nem temos olhos redondos? Em nome de Deus, padre, por que não existe um jesuíta japonês ordenado?
— Agora você vai calar a boca!
— Estivemos até em Roma, Miguel, Julião e eu! — explodiu José. — O senhor nunca esteve em Roma nem se encontrou com o padre-geral ou Sua Santidade como nós...
— O que é mais uma razão para que você soubesse fazer melhor que discutir. Vocês juraram castidade, pobreza e obediência. Foram escolhidos entre muitos, favorecidos dentre muitos, e agora você deixou sua alma se corromper tanto que...
— Sinto muito, padre, mas não penso que tenhamos sido favorecidos em gastar oito anos indo até lá e voltando se, depois de todo o nosso aprendizado, as nossas orações, as nossas pregações e a nossa espera, nem um de nós foi ordenado, embora isso tenha sido prometido. Eu tinha doze anos quando parti. Julião tinha onz...
— Proíbo-o de continuar falando! Ordeno-lhe que pare. — Depois, em meio ao terrível silêncio, Alvito olhou para os outros, que se alinhavam ao longo das paredes, olhando e ouvindo atentamente. — Vocês todos serão ordenados, em tempo. Mas você, José, diante de Deus, você será...