— Diante de Deus — irrompeu José —, no tempo de quem?
— No tempo de Deus! — bradou Alvito, pasmado com a rebelião aberta, seu fervor exaltado. — Ponha-se-de-joelhos!
O Irmão José tentou faze-lo baixar os olhos, mas não conseguiu, depois, perdendo o ânimo, suspirou, caiu de joelhos e curvou a cabeça.
— Deus tenha piedade de você. Você se confessou culpado de hediondo pecado mortal, culpado de quebrar o seu voto sagrado de castidade, o seu voto sagrado de obediência aos seus superiores. E culpado de insolência inacreditável. Como ousa questionar as nossas ordens gerais ou a política da Igreja? Você colocou em risco a sua alma imortal. Você é uma desgraça para o seu Deus, a sua Companhia, a sua Igreja, a sua família e os seus amigos. Seu caso é tão sério que terá de ser tratado pelo padre-inspetor em pessoa. Até lá você não comungará, não se confessará, nem ouvirá confissão, nem tomará parte em qualquer serviço... — Os ombros de José começaram a tremer com a agonia do remorso que o possuía. — Como penitência inicial, você fica proibido de falar, receberá apenas arroz e água durante trinta dias, passará cada noite nos próximos trinta dias de joelhos, em oração à Nossa Senhora por perdão para os seus terríveis pecados, e depois será chicoteado. Trinta chicotadas. Tire a sotaina.
Os ombros pararam de tremer. José levantou os olhos. — Aceito tudo o que o senhor ordenou, padre — disse ele, e peço desculpas de todo o coração, com toda a minha alma. Imploro-lhe o seu perdão, assim como implorarei o perdão dele para sempre. Mas não serei açoitado como um criminoso comum.
— Você será chicoteado!
— Por favor, desculpe-me, padre — disse José. — Em nome da abençoada Nossa Senhora, não é a dor. A dor não é nada para mim, a morte não é nada para mim. Que eu esteja danado e vá arder no fogo do inferno por toda a eternidade pode ser o meu karma, e eu suportarei. Mas sou samurai. Sou da família do Senhor Harima.
— Seu orgulho me enoja. Não é pela dor que você deve ser punido, mas para eliminar esse seu orgulho repugnante. Criminoso comum? Onde está a humilhação? Nosso Senhor Jesus Cristo suportou mortificação. E morreu com criminosos comuns.
— Sim. Esse é o nosso principal problema aqui, padre.
— O quê?
— Por favor, desculpe-me a franqueza, padre, mas se o rei dos reis não tivesse morrido como um criminoso comum na cruz, os samurais poderiam aceitar...
— Pare!
-— ... o cristianismo com mais facilidade. A Companhia é sábia em evitar de pregar o Cristo crucificado como as outras ordens...
Como um anjo vingador, Alvito ergueu a cruz como um escudo à sua frente. — Em nome de Deus, cale-se e obedeça ou será excomungado! Peguem-no e dispam-no!
Os outros voltaram à vida e avançaram, mas José pôs-se de pé num salto. Uma faca apareceu-lhe nas mãos, puxada de sob o hábito. Pôs-se de costas para a parede. Todos pararam. Menos o Irmão Miguel. Este avançou lenta e calmamente, a mão estendida. — Por favor, dê-me a faca, irmão — disse gentilmente.
— Não. Por favor, desculpe-me.
— Então reze por mim, irmão, assim como eu rezo por você. — Tranqüilamente Miguel avançou para a arma.
José recuou alguns passos, depois se preparou para um golpe mortal. — Perdoe-me, Miguel.
Miguel continuou a se aproximar.
— Miguel, pare! Deixe-o em paz — comandou Alvito.
Miguel obedeceu, a algumas polegadas da lâmina suspensa no ar.
Então Alvito disse, pálido: — Deus tenha piedade de você, José. Você está excomungado. Satã tomou posse da sua alma na terra, assim como a possuirá depois da morte.
— Renuncio ao Deus cristão! Sou japonês... sou xintoísta. Minha alma é minha agora. Não tenho medo — gritou José. — Sim, nós temos orgulho, ao contrário dos bárbaros. Somos japoneses, não somos bárbaros. Nem os nossos camponeses são bárbaros.
Gravemente Alvito fez o sinal-da-cruz como proteção para todos eles e destemidamente deu as costas à faca. — Oremos juntos, irmãos. Satã está entre nós.
Os outros também se voltaram, muito tristes, alguns ainda chocados. Apenas Miguel permaneceu onde estava, olhando para José. José arrancou o seu rosário e a cruz. Estava prestes a atira-los ao chão, mas Miguel estendeu-lhe a mão de novo. — Por favor, irmão, por favor, dê isso a mim... é um presente tão simples — disse.
José o olhou um longo momento, depois deu-lhe. — Por favor desculpe-me.
— Rezarei por você — disse Miguel.
— Você não ouviu? Renunciei a Deus!
— Rezarei a Deus para que não renuncie a você, Uruganoh-Tadamasa-san.
— Perdoe-me, irmão — disse José. Enfiou a faca no sash, abriu a porta com um repelão, e caminhou às cegas pelo corredor, rumo à varanda. As pessoas o olhavam curiosas, entre elas Uo, o pescador, que esperava pacientemente e à sombra. José cruzou o pátio e se dirigiu para o portão. Um samurai surgiu em seu caminho.
— Alto!
José parou.
— Aonde vai, por favor?
— Desculpe, por favor, desculpe-me, eu... eu não sei.
— Sirvo ao Senhor Toranaga. Sinto muito, não pude deixar de ouvir o que aconteceu lá. A hospedaria inteira deve ter ouvido. Uma chocante falta de educação... chocante para o seu líder, gritar assim e perturbar a paz. E para você também. Estou a serviço aqui, acho que é melhor que você veja o oficial do meu turno.
— Acho... obrigado, irei pelo outro caminho. Por favor, desculpe...
— Você não vai a parte alguma, sinto muito. Vai ver o meu oficial.
— O quê? Oh... sim. Sim, desculpe, naturalmente. — José tentou fazer o cérebro funcionar.
— Bom. Obrigado. — O samurai voltou-se quando outro samurai se aproximou, vindo da ponte, e saudou.
— Devo levar o Tsukku-san ao Senhor Toranaga. — Bom. Você é esperado.
CAPÍTULO 43
Toranaga observou o padre alto aproximando-se através da clareira, a luz bruxuleante dos archotes fazendo o rosto enxuto mais severo do que o habitual, acima do negrume da barba. O hábito budista do padre era laranja e elegante, e um rosário e uma cruz pendiam-lhe da cintura.
A dez passos de distância, Alvito parou, ajoelhou-se e curvou-se respeitosamente, dando início às formalidades costumeiras.
Toranaga estava sentado sozinho sobre o estrado, guardas num semicírculo à sua volta, mas à distância. Apenas Blackthorne estava perto, indolentemente recostado à plataforma, conforme lhe fora ordenado, os olhos cravados no padre. Alvito não pareceu notá-lo.
— É bom vê-lo, senhor — disse o padre, quando foi polido fazer isso.
— Vê-lo, também, Tsukku-san. — Toranaga fez sinal ao padre que se pusesse confortável sobre a almofada que fora colocada sobre o tatami, no chão, diante da plataforma. — Faz muito tempo desde que o vi pela última vez.
— Sim, senhor, há muito o que contar. — Alvito estava profundamente consciente de que a almofada estava sobre a terra e não sobre o estrado. Além disso, estava agudamente consciente das espadas de samurai que Blackthorne agora usava tão perto de Toranaga e do modo negligente como se portava. — Trago uma mensagem confidencial do meu superior, o padre-inspetor, que o saúda com deferência.
— Obrigado. Mas primeiro fale-me de você.
— Ah, senhor — disse Alvito, sabendo que Toranaga era perspicaz demais para não ter notado o remorso que o atormentava, por mais que ele tivesse tentado dissimular. — Esta noite estou consciente demais dos meus próprios fracassos. Esta noite eu gostaria de poder renunciar aos meus deveres terrenos e ir para um retiro orar, implorar pelo favor de Deus. — Ele se sentia envergonhado pela própria falta de humildade. Embora o pecado de José tivesse sido terrível, Alvito agira com ódio, raiva e estupidez. Era culpa sua que uma alma tivesse sido proscrita, se perdesse para sempre. — Nosso Senhor uma vez disse: "Por favor, Pai, afasta de mim esse cálice". Mas mesmo ele teve que reter o cálice. Nós, no mundo, temos que tentar seguir-lhe os passos do melhor modo que pudermos. Por favor, desculpe-me por permitir que o meu problema se mostre.