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— Qual foi o seu cálice, amigo velho?

Alvito contou-lhe. Sabia que não havia motivo para esconder os fatos, pois naturalmente Toranaga os ouviria muito em breve, se já não os conhecesse, e era muito melhor ouvir a verdade do que uma versão deturpada. — É tristíssimo perder um irmão, terrível fazer um proscrito, por mais terrível que tenha sido o crime. Eu deveria ter sido mais paciente. A culpa foi minha.

— Onde está ele agora?

— Não sei, senhor.

Toranaga chamou um guarda. — Encontre o cristão renegado, e traga-o a mim ao meio-dia de amanhã. — O samurai afastou-se correndo.

— Rogo piedade para ele, senhor — disse Alvito rapidamente, falando com sinceridade. Mas sabia que qualquer coisa que dissesse faria pouco para dissuadir Toranaga de uma trilha já escolhida. Novamente teve vontade de que a Companhia tivesse o seu próprio braço secular, capacitado a deter e punir os apóstatas, como por toda parte no resto do mundo. Recomendara reiteradamente que isso fosse criado, mas a idéia fora sempre rejeitada, ali no Japão, e também em Roma, pelo geral da ordem. Mas sem o braço secular, pensou ele cansado, nunca seremos capazes de exercer uma disciplina real sobre nossos irmãos e o nosso rebanho.

— Por que não há padres japoneses ordenados na sua Companhia, Tsukku-san?

— Porque, senhor, nem um dos nossos acólitos está, ainda, suficientemente bem treinado. Por exemplo, o latim é uma necessidade absoluta, porque a nossa ordem exige que qualquer irmão viaje para qualquer lugar do mundo a qualquer momento, e infelizmente é uma língua muito difícil de aprender. Nenhum está treinado ainda, ou pronto.

Alvito acreditava nisso com todo o coração. Também era implacavelmente contra um clero jesuíta japonês ordenado, em oposição ao padre-inspetor. — Eminência — sempre dissera ele, suplico-lhe, não se deixe enganar pela aparência modesta e decorosa deles. Por baixo são características em que não se pode confiar, e o orgulho e a condição de japoneses sempre dominarão no final. Nunca serão servos autênticos da Companhia, ou soldados de confiança de Sua Santidade, o vigário de Cristo na terra, obedientes a ele apenas. Nunca.

Alvito relanceou o olhar momentaneamente para Blackthorne, depois olhou de novo para Toranaga, que disse: — Mas dois ou três desses padres aprendizes falam latim, neh, e português? É verdade o que o homem disse, neh? Por que eles não foram escolhidos?

— Sinto muito, mas o geral da nossa Companhia não os considera suficientemente preparados. Talvez a trágica queda de José seja um exemplo.

— É sério quebrar um juramento solene — disse Toranaga. Lembrou-se do ano em que os três meninos haviam zarpado de Nagasaki, num Navio Negro, para serem festejados na corte do rei espanhol e na corte do sumo-sacerdote dos cristãos, o mesmo ano em que Goroda fora assassinado. Nove anos depois regressaram, o tempo todo cuidadosamente controlados. Tinham partido como ingênuos e jovens cristãos fanáticos, e regressado igualmente tacanhos e quase tão mal informados como quando partiram. Desperdício estúpido, pensou Toranaga, desperdício de uma oportunidade incrível, de que Goroda se recusou a tirar vantagem, por mais que tenha sido aconselhado a fazer isso.

— Não, Tora-san, precisamos dos cristãos contra os budistas — dissera Goroda. — Muitos sacerdotes e monges budistas são soldados, neh? A maioria deles. Os cristãos não, neh? Deixemos o Padre Gigante ter os três jovens que ele quer, são apenas cabeças ocas de Kyushu, neh? Digo-lhe que estimule os cristãos. Não me perturbe com um plano de dez anos, mas queime cada mosteiro budista ao alcance. Budistas são como moscas sobre carniça, e os cristãos nada além de um saco de peidos.

Agora não são, pensou Toranaga com irritação crescente Agora são vespões.

— Sim — disse alto. — É muito sério quebrar um juramento, gritar e perturbar a harmonia de uma hospedaria.

— Por favor, desculpe-me, senhor, e perdoe-me por mencionar os meus problemas. Obrigado por ter ouvido. Como sempre, o seu interesse me faz sentir melhor. Posso ser autorizado a saudar o piloto?

Toranaga assentiu.

— Devo cumprimentá-lo, piloto — disse Alvito em português. — Suas espadas lhe assentam bem.

— Obrigado, padre, estou aprendendo a usá-las — replicou Blackthorne. — Mas, sinto dizer, não sou muito bom com elas ainda. Continuarei usando pistolas, alfanjes ou canhões, quando tiver que combater.

— Rezo para que o senhor nunca mais precise combater, piloto, e que seus olhos se abram para a infinita mercê de Deus.

— Os meus estão abertos. Os seus é que estão enevoados.

— Pela salvação da sua alma, piloto, conserve os olhos abertos, e a mente também. Talvez o senhor possa se enganar. Ainda assim, devo agradecer-lhe por haver salvado a vida do Senhor Toranaga.

— Quem lhe contou isso?

Alvito não respondeu. Voltou-se para Toranaga.

— O que foi dito? — perguntou Toranaga, rompendo o silêncio.

Alvito contou-lhe, acrescentando: — Embora ele seja o inimigo da minha fé e um pirata, estou contente de que o tenha salvado, senhor: Deus se move por caminhos misteriosos. O senhor o honrou grandemente fazendo-o samurai.

— Ele também é hatamoto. — Toranaga ficou satisfeito com a fugaz surpresa do padre. — Trouxe o dicionário?

— Sim, senhor, com vários dos mapas que o senhor queria, mostrando algumas das bases portuguesas desde Goa. O livro se encontra na minha bagagem. Posso mandar alguém buscá-lo, ou posso dá-lo pessoalmente a ele mais tarde?

— Dê-o a ele mais tarde. Esta noite, ou amanhã. Também trouxe o relatório?

— Sobre as supostas armas que se acredita tenhamos trazido de Macau? O padre-inspetor o está preparando, senhor.

— E as quantidades de mercenários japoneses utilizados em cada uma das suas novas bases?

— O padre-inspetor solicitou um relatório atualizado sobre todos eles, senhor, que lhe entregará assim que estejam completos.

— Bom. Agora conte-me como soube da minha salvação.

— Dificilmente acontece alguma coisa a Toranaga-noh-Minowara que não se torne assunto de boato e lenda. Vindo de Mishima, ouvimos dizer que o senhor quase tinha sido engolido por um terremoto, mas que o Bárbaro Dourado o havia puxado para fora. Além disso, que o senhor havia feito o mesmo por ele e por uma dama ... presumo que seja a Senhora Mariko?

Toranaga assentiu brevemente. — Sim. Ela está aqui em Yokosé. — Pensou um momento, depois disse: — Amanhã ela gostaria de se confessar, de acordo com os seus costumes. Mas apenas as coisas que sejam não-políticas. Eu imaginaria que isso exclui tudo o que se refira a mim, e aos meus vários hatamotos, neh? Também expliquei isso a ela.

Alvito curvou-se, compreendendo. — Com a sua permissão, eu poderia dizer missa para todos os cristãos aqui, senhor? Seria muito discreta, naturalmente. Amanhã?

— Considerarei isso. — Toranaga continuou a falar sobre assuntos inconseqüentes algum tempo, depois disse: — Tem uma mensagem para mim? Do seu padre-chefe?

— Com humildade, senhor, rogo para lhe dizer que é uma mensagem particular.

Toranaga fingiu pensar nisso, embora tivesse determinado com exatidão como o encontro se processaria e já tivesse dado ao Anjin-san instruções específicas de como agir e o que dizer. — Muito bem. — Voltou-se para Blackthorne: — Anjin-san, pode ir agora, conversaremos mais tarde.

— Sim, senhor — retrucou Blackthorne. — Desculpe, o Navio Negro. Chegar Nagasaki?

— Ah, sim, obrigado — replicou Toranaga, satisfeito que a pergunta de Anjin-san não tivesse soado ensaiada. — Bem, Tsukku-san, ele já atracou?