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Alvito ficou desconcertado com o japonês de Blackthorne e grandemente perturbado com a questão. — Sim, senhor. Atracou há catorze dias.

— Ah, c orze? — disse Toranaga. — Compreende, Anjin-san?

— Sim. Obrigado.

— Bom. Mais alguma coisa você pode perguntar ao Tsukkusan mais tarde, neh?

— Sim, senhor. Por favor, com licença. — Blackthorne levantou-se, curvou-se e saiu calmamente.

Toranaga observou-o afastando-se. — Um homem muito interessante... para um pirata. Agora, me conte primeiro sobre o Navio Negro.

— Chegou em segurança, senhor, com a maior carga de seda que jamais existiu. — Alvito tentou soar entusiasmado. — O acordo feito entre os senhores Harima, Kiyama, Onoshi e o senhor está em vigor. Por esta época, no próximo ano, o seu tesouro estará mais rico com dezenas de milhares de kobans. A qualidade das sedas é a melhor, senhor. Trouxe uma cópia da declaração para o seu mestre quarteleiro. O Capitão-Mor Ferreira envia-lhe os seus respeitos, esperando vê-lo pessoalmente em breve. Foi essa a razão do meu atraso em vir vê-lo. O inspetor geral me mandou às pressas de Osaka a Nagasaki, para providenciar que tudo fosse perfeito. Exatamente quando eu estava saindo de Nagasaki, ouvimos dizer que o senhor partira de Yedo, rumando para Izu, por isso vim para cá tão rápido quanto possível, de navio até o Porto Nimazu, com um dos nossos cúteres mais velozes, depois por terra. Em Mishima, encontrei o Senhor Zataki e pedi permissão para juntar-me a ele.

— Seu navio ainda está em Nimazu?

— Sim, senhor. Vai esperar por mim lá.

— Bom. — Por um momento Toranaga se perguntou se mandaria ou não Mariko para Osaka naquele navio, depois resolveu tratar do assunto mais tarde. — Por favor, dê a declaração ao mestre quarteleiro esta noite.

— Sim, senhor.

— E o acordo sobre a carga deste ano está selado? — Sim. Absolutamente.

— Bom. Agora a outra parte. A parte importante.

As mãos de Alvito ficaram secas. — Nem o Senhor Kiyama nem o Senhor Onoshi concordarão em desertar o General Ishido. Sinto muito. Não concordarão em se colocar sob a sua bandeira agora, apesar da nossa sugestão mais intensa.

A voz de Toranaga tornou-se baixa e cruel. — Já lhe assinalei que exijo mais que sugestões!

— Sinto muito trazer más notícias quanto a esta parte, senhor, mas nenhum deles concordaria em mudar de idéias publicamente a...

— Ah, publicamente, você diz? E em particular... secretamente?

— Em particular eles ficaram tão inflexíveis quanto pub... — Você conversou com eles separadamente ou juntos?

— Naturalmente juntos e em separado, muito confidencialmente, mas nada do que sugerimos...

— Você apenas "sugeriu" um rumo de ação? Por que não lhes deu ordens?

— E como o padre-inspetor disse, senhor, não podemos dar ordens a qualquer daimio ou a qualquer...

— Ah, mas você pode dar ordens a um dos seus irmãos, neh? Sim, senhor.

Você ameaçou torná-los proscritos também? Não, senhor. Por quê? Porque não cometeram pecado mortal — disse Alvito com firmeza, conforme havia combinado com Dell'Aqua, mas o seu coração batia acelerado agora, porque o Senhor Harima, que legalmente possuía Nagasaki, lhes contara em particular que toda a sua imensa riqueza e influência iriam para o lado de Ishido. — Por favor, desculpe-me, senhor, mas não faço regras divinas, assim como o senhor não fez o código do bushido, o Caminho do Guerreiro. Nós, nós temos que nos sujeitar ao que...

— Você baniu um pobre imbecil por um ato natural como "travesseirar", mas quando dois dos seus convertidos se comportam de modo antinatural, sim, até traiçoeiramente, quando eu busco o seu auxílio, o seu auxílio urgente, e sou seu amigo, você faz apenas "sugestões". Você compreende a seriedade disso, neh?

— Sinto muito, senhor. Por favor, desculpe-me, mas...

— Talvez eu não o desculpe, Tsukku-san. Foi dito antes: agora todo mundo tem que escolher um lado — disse Toranaga.

— Claro que estamos do seu lado, senhor. Mas não podemos ordenar ao Senhor Kiyama ou ao Senhor Onoshi que façam qualquer coisa...

— Felizmente eu posso dar ordens ao meu cristão.

— Senhor?

— Posso ordenar e o Anjin-san estará livre. Com o navio dele. Com os canhões dele.

— Tenha cuidado com ele, senhor. O piloto é diabolicamente inteligente, mas é um herege, um pirata e não deve merecer conf...

— Aqui o Anjin-san é samurai e hatamoto. Ao mar talvez seja um pirata. Se é um pirata, imagino que atrairá muitos outros corsários e wakos a si, muitos deles. O que um estrangeiro faz em mar aberto é problema dele, neh? Nossa política foi sempre essa. Neh?

Alvito conservou-se em silêncio e tentou fazer o cérebro funcionar. Ninguém planejara que o inglês se tornaria tão próximo de Toranaga.

— Esses dois daimios cristãos não farão compromisso algum, nem mesmo um compromisso secreto?

— Não, senhor. Tentamos at... — Nenhuma concessão, nenhuma? — Não, senhor...

— Nenhum trato, nenhum acordo, nenhum compromisso, nada?

— Não, senhor. Tentamos todos os induzimentos e toda persuasão. Por favor, acredite-me. — Alvito sabia que estava na armadilha e parte do seu desespero se mostrou. — Se fosse eu, sim, eu os ameaçaria com excomunhão, embora fosse uma falsa ameaça porque eu nunca a concretizaria, não a menos que eles cometessem um pecado mortal e não confessassem ou se arrependessem e submetessem. Mas uma ameaça por causa de um ganho temporal seria um grande erro de minha parte, senhor, um pecado mortal. Eu arriscaria a danação eterna.

— Está dizendo que, se eles pecassem contra o seu credo, você os baniria?

— Sim. Mas não estou sugerindo que isso poderia ser usado para trazê-los para o seu lado, senhor. Por favor, desculpe-me, mas eles... eles estão totalmente contra o senhor no momento. Sinto muito, mas essa é a verdade. Ambos deixaram isso muito claro, juntos e em particular. Diante de Deus, rezo para que eles mudem de idéia. Nós, o padre-inspetor e eu, demos ao senhor a nossa palavra de que tentaríamos, diante de Deus. Cumprimos a nossa promessa. Diante de Deus, falhamos.

— Então perderei — disse Toranaga. — Você sabe disso, não sabe? Se eles continuarem aliados a Ishido, todos os daimios cristãos se colocarão do lado deles. Então tenho que perder. Vinte samurais contra cada um dos meus, neh?

— Sim.

— Qual é o plano deles? Quando me atacarão? — Não sei, senhor.

— Se soubesse me contaria? — Sim ... sim, contaria.

Duvido, pensou Toranaga, e desviou o olhar para a noite, o fardo da preocupação quase a esmagá-lo. Será que afinal de contas terá que ser Céu Carmesim, perguntou a si mesmo, desamparado. O estúpido e fadado ao fracasso ataque a Kyoto?

Odiava a gaiola vergonhosa dentro da qual se encontrava. Como o táicum e Goroda antes dele, tinha que tolerar os padres cristãos, porque eram tão inseparáveis dos mercadores portugueses quanto as moscas dos cavalos, exercendo um absoluto poder temporal e espiritual sobre o seu obstinado rebanho. Sem os padres não havia comércio. Sua boa vontade como negociadores e intermediários na operação do Navio Negro era vital, porque falavam a língua e contavam com a confiança de ambos os lados, e, se alguma vez os padres viessem a ser completamente proibidos no império, todos os bárbaros obedientemente partiriam, para nunca mais voltar. Toranaga se lembrava da vez em que o táicum tentara, se livrar dos padres e ao mesmo tempo encorajar o comércio. Durante dois anos não houvera Navio Negro. Os espiões relataram como o chefe gigante dos padres, postado como uma aranha negra venenosa em Macau, ordenara que não houvesse mais comércio como represália aos editos de expulsão do táicum, sabendo que o táicum acabaria se humilhando. No terceiro ano ele se curvara ao inevitável e convidara os padres a voltar, fazendo vista grossa aos seus próprios editos e à traição e rebelião que os padres haviam patrocinado. Não há escapatória dessa realidade, pensou Toranaga. Nenhuma. Não acredito no que diz o Anjin-san — que o comércio é tão essencial para os bárbaros quanto é para nós, que a sua cobiça os fará comerciar, não importa o que façamos aos padres. O risco é grande demais para fazer uma experiência e não há tempo e eu não tenho o poder. Experimentamos uma vez e falhamos. Quem sabe? Talvez os padres pudessem esperar dez anos; são inclementes o suficiente. Se os padres ordenarem que não haja comércio, creio que não haverá. Não poderíamos esperar dez anos. Nem cinco. E se expulsarmos todos os bárbaros, deve levar vinte anos para que o bárbaro inglês preencha a lacuna, se é que o Anjin-san está falando a verdade integral e se — e esse é um "se" imenso — os chineses concordassem em comerciar com eles, contra os bárbaros meridionais. Não acredito que os chineses mudassem seu padrão. Nunca fizeram isso. Vinte anos é tempo demais. Dez anos é tempo demais.