Não há escapatória dessa realidade. Ou da pior realidade de todas, o espectro que secretamente petrificava Goroda e o táicum e agora está empinando a cabeça asquerosa de novo: que os fanáticos e destemidos padres cristãos, se pressionados demais, colocariam toda a sua influência, o poder de comércio, o poder marítimo, por trás de um dos grandes daimios cristãos. Depois, engendrariam uma força de invasão vestida de ferro, conquistadores igualmente fanáticos, armados com os mosquetes mais modernos para apoiar esse daimio cristão — como quase fizeram na última vez. Por si mesmos, qualquer número de bárbaros invasores e seus padres não são nada contra as nossas esmagadoras forças conjuntas. Nós esmagamos a hordas de Kublai-cã e podemos lidar com qualquer invasor. Mas aliados a um dos nossos, um grande daimio cristão com exércitos de samurais, e havendo guerras civis por todo o reino, isso poderia, finalmente, dar a esse daimio o poder absoluto sobre todos nós.
Kiyama ou Onoshi? É óbvio, agora, que tem que ser o esquema do padre. O momento é perfeito. Mas que daimio?
Ambos, inicialmente, ajudados por Harima de Nagasaki. Mas quem portará a bandeira final? Kiyama — porque Onoshi, o leproso, não vai durar muito nesta terra e porque a óbvia recompensa a Onoshi por apoiar seu odiado inimigo e rival, Kiyama, seria uma garantida, indolor e eterna vida no paraíso cristão, com um assento permanente à direita do Deus cristão.
Entre si, agora, eles têm quatrocentos mil samurais. Sua base é Kyushu e essa ilha está a salvo do meu alcance. Juntos, aqueles dois poderiam subjugar facilmente a ilha inteira, e depois teriam tropas ilimitadas, provisões ilimitadas, todos os navios necessários a uma invasão, toda a seda, e Nagasaki. No país inteiro há, talvez, outros quinhentos ou seiscentos mil cristãos. Desses, mais da metade — os convertidos pelos jesuítas — são samurais, todos lindamente misturados às forças de todos os daimios, uma vasta rede de traidores em potencial, espiões ou assassinos — caso os padres assim ordenassem. E por que não o fariam? Conseguiriam aquilo que desejam acima da própria vida: poder absoluto sobre todas as nossas almas, conseqüentemente sobre toda esta Terra dos Deuses — herdar a nossa terra e tudo o que ela contém —, exatamente conforme o Anjin-san explicou que já aconteceu cinqüenta vezes nesse Novo Mundo deles... Convertem um rei, depois o usam contra a sua própria gente, até que o país inteiro seja engolido. É tão fácil para eles, esse minúsculo bando de padres bárbaros, conquistar-nos.
Quantos deles existem no Japão? Cinqüenta ou sessenta? Mas têm o poder. E acreditam. Estão preparados para morrer de bom grado pelas próprias crenças, com orgulho e bravura, com o nome do seu Deus nos lábios. Vimos isso em Nagasaki quando a experiência do táicum provou ser um erro desastroso. Nenhum dos padres abjurou, dezenas de milhares testemunharam as mortes na fogueira, dezenas de milhares foram convertidos, e esse "martírio" deu à religião cristã um prestígio imenso, de que os padres cristãos, desde então, vêm se nutrindo.
A mim, os padres falharam, mas isso não os dissuade do seu curso implacável. Isso é realidade, também.
Portanto é Kiyama.
O plano já estará estabelecido, com Ishido, que é um simplório, e a Senhora Ochiba e Yaemon também? Harima já aderiu a eles secretamente? Devo atirar o Anjin-san contra o Navio Negro e Nagasaki imediatamente?
O que devo fazer?
Nada além do habitual. Ser paciente, procurar a harmonia, pôr de lado todas as preocupações sobre Eu ou Você, Vida ou Morte, Alívio ou Pós-Vida, Agora ou Depois, e pôr em funcionamento um novo plano. Que plano? Queria ele gritar em desespero. Não há um sequer!
— Entristece-me que aqueles dois fiquem com o verdadeiro inimigo.
— Juro que tentamos, senhor — Alvito o observava compadecidamente, vendo-lhe a opressão do espírito.
— Sim. Acredito nisso. Acredito que você e o padre-inspetor mantiveram a sua promessa solene, por isso manterei a minha. Podem começar a construir o seu templo em Yedo imediatamente. O terreno já foi designado. Não posso proibir os padres, os outros, cabeludos, de entrar no império, mas pelo menos posso torná-los indesejados nos meus domínios. Os novos bárbaros serão igualmente indesejados, se jamais chegarem. Quanto ao Anjin-san... — Toranaga encolheu os ombros. — Mas quanto tempo isto tudo... bem, é karma, neh?
Alvito estava agradecendo a Deus com todo o fervor pela sua mercê e favor, com a inesperada moratória. — Obrigado, senhor — disse, quase incapaz de falar. — Sei que o senhor não se arrependerá. Rezo para que os seus inimigos se dispersem como cisco e que o senhor possa colher as recompensas do paraíso.
— Sinto muito pelas minhas palavras ásperas. Foram ditas pela cólera. Há tanto... — Toranaga levantou-se pesadamente. — Você tem a minha permissão para dizer o seu serviço amanhã, amigo velho.
— Obrigado, senhor — disse Alvito, curvando-se profundamente, com pena do homem normalmente majestoso. — Obrigado de todo o coração. Que a Divindade o abençoe e o ache na sua guarda.
Toranaga arrastou-se para a hospedaria, seus guardas seguindo-o — Naga-san!
— Sim, Pai — disse o jovem, acorrendo.
— Onde está a Senhora Mariko?
— Lá, senhor, com Buntaro-san. — Naga apontou para a pequena casa de chá iluminada com lanternas, dentro do cercado no jardim, os vultos indistintos lá dentro. — Devo interromper a cha-no-yu? — Uma cha-no-yu era uma cerimônia do chá formal, extremamente ritualizada.
— Não. Nunca se deve interferir nisso. Onde estão Omi e Yabu-san?
— Na hospedaria deles, senhor. — Naga indicou a construção baixa que se esparramava do outro lado do rio, perto da ribanceira oposta.
— Quem escolheu aquela?
— Eu, senhor. Por favor, desculpe-me, o senhor me pediu que encontrasse uma hospedaria para eles do outro lado da ponte. Compreendi mal?
— O Anjin-san?
— Está no seu quarto, senhor. Está esperando para o caso de o senhor querer vê-lo.
Novamente Toranaga meneou a cabeça. — Vê-lo-ei amanhã. — Após uma pausa, disse na mesma voz distraída: — Vou tomar um banho agora. Depois não quero ser incomodado até o amanhecer, exceto...
Naga esperava apreensivo, observando o pai fitar o vazio, grandemente desconcertado pela atitude dele. — Sente-se bem, Pai?
— O quê? Oh, sim... sim, estou bem. Por quê?
— Nada... por favor, desculpe-me. Ainda quer caçar ao amanhecer?
— Caçar? Ah, sim, é uma boa idéia. Obrigado por sugeri-la, sim, isso seria muito bom. Providencie. Bem. Boa noite... Ah, sim, o Tsukku-san tem a minha permissão para dizer uma missa particular amanhã. Todos os cristãos podem comparecer. Você também.
— Senhor?
— No primeiro dia do Ano Novo você se tornará cristão. — Eu!?
— Sim. De livre e espontânea vontade. Diga isso ao Tsukku-san em particular.
— Senhor?
Toranaga caiu em cima dele. — Ficou surdo? Já não compreende a coisa mais simples?
— Por favor, desculpe-me. Sim, Pai, compreendo.