Выбрать главу

— Bom. — Toranaga voltou à sua atitude distraída, depois se afastou, a guarda pessoal a reboque. Todos os samurais se curvaram rigidamente, mas ele não os notou.

Um oficial se aproximou de Naga, igualmente apreensivo. — O que há com o nosso senhor?

— Não sei, Yoshinawa-san. — Naga olhou para a clareira.

Alvito estava acabando de sair, rumando para a ponte, um único samurai a escoltá-lo. — Deve ter alguma coisa a ver com ele.

— Nunca vi o Senhor Toranaga caminhar tão pesadamente. Nunca. Dizem... dizem que o padre bárbaro é mágico, um bruxo. Deve ser, para falar a nossa língua tão bem, neh? Ele poderia ter posto um encantamento no nosso senhor?

— Não. Nunca. Não no meu pai.

— Os bárbaros também fazem a minha espinha tremer, Naga-san. Ouviu falar sobre a briga... Tsukku-san e seu bando berrando e discutindo como etas sem educação?

— Sim. Repugnante. Tenho certeza de que aquele homem deve ter destruído a harmonia do meu pai.

— Se me pedir, uma seta na garganta daquele padre pouparia o nosso amo de muitos problemas.

— Sim.

— Talvez devêssemos falar a Buntaro-san sobre o Senhor Toranaga? É o nosso oficial superior.

— Concordo... mas mais tarde. Meu pai disse claramente que eu não devia interromper a cha-no-yu. Esperarei até que termine.

Na paz e silêncio da pequena casa, Buntaro abriu com toda a delicadeza a pequena caixa de chá de louça, da dinastia T’ang, e, com cuidado igual, pegou a colher de bambu, iniciando a parte final da cerimônia. Habilmente tirou com a colher a quantidade exata de pó verde e colocou-o na xícara de porcelana sem asa. Um antigo caldeirão de ferro fundido cantava sobre o braseiro. Com a mesma graça tranqüila, Buntaro verteu a água borbuIhante na xícara, recolocou o caldeirão no tripé, depois gentilmente bateu o pó e a água com o batedor de bambu para misturar perfeitamente.

Juntou uma colherada de água fria, curvou-se para Mariko, ajoelhada à sua frente, e ofereceu a xícara. Ela se curvou e a pegou com requinte igual, admirando o líquido verde, e tomou três goles, descansou, depois sorveu de novo, terminando-o. Devolveu a xícara. Ele repetiu a simetria do preparo formal do chá e novamente lhe ofereceu. Ela lhe pediu que provasse o chá ele mesmo, conforme era esperado dela. Ele sorveu, depois mais uma vez, e terminou. Depois ele preparou uma terceira xícara, e uma quarta. A quinta foi polidamente recusada.

Com grande cuidado, ritualmente, ele lavou e enxugou a xícara, usando um pano de algodão exclusivo, e colocou os objetos em seus lugares. Curvou-se para ela e ela para ele. A chano-yu estava terminada.

Buntaro sentia-se contente por ter feito o melhor possível e por haver agora, pelo menos no momento, paz entre eles. Naquela tarde não houvera paz alguma.

Ele fora ao encontro do palanquim dela. Imediatamente, como sempre, sentira-se vulgar e tosco em contraste com a frágil perfeição da mulher — como um dos aipos peludos, selvagens, desprezados e bárbaros, que habitaram o país um dia, mas que agora tinham sido expulsos para o extremo-norte, para o outro lado dos estreitos, para a ilha inexplorada de Hokkaido. Todas as suas bem pensadas palavras o abandonaram e ele canhestramente a convidara à cha-no-yu, acrescentando: — Faz anos que nós... Nunca lhe ofereci uma, mas esta noite será conveniente. — Depois deixara escapar, sem ter a intenção de dizê-lo, sabendo que era estúpido, deselegante e um erro imenso: — O Senhor Toranaga disse que era tempo que conversássemos.

— Mas o senhor acha que não?

Apesar da sua determinação, ele corou e sua voz soou rascante. — Eu gostaria de que houvesse harmonia entre nós, sim, mais. Não mudei, neh?

— Naturalmente, senhor, por que deveria mudar? Se existe alguma falha, não cabe ao senhor mudar, mas a mim. E se existe alguma falha, é por minha causa, por favor, desculpe-me.

— Eu a desculparei — dissera ele, lá ao lado do palanquim, profundamente consciente de que estavam sendo observados, entre outros pelo Anjin-san e por Omi. Ela era tão amável, minúscula e singular, seu cabelo penteado para o alto, seus olhos baixos aparentemente tão modestos, e no entanto, para ele, agora, cheia do mesmo gelo negro que sempre o lançava a uma fúria cega, impotente, fazendo-o querer matar e gritar e mutilar e esmagar e comportar-se do modo como um samurai nunca deveria se comportar.

— Reservei a casa de chá para esta noite — disse-lhe ele. — Para esta noite, após a refeição noturna. Recebemos ordem de fazer a refeição noturna com o Senhor Toranaga. Eu ficaria honrado se você aceitasse o meu convite para depois.

— Sou eu quem fica honrada. — Ela se curvou e esperou com os mesmos olhos baixos, e ele teve vontade de socá-la no chão até a morte, depois mergulhar a faca em cruz no próprio ventre e deixar a dor eterna limpar-lhe o tormento da alma.

Ele a viu levantar os olhos na sua direção, perspicaz.

— Havia mais alguma coisa, senhor? — perguntou, muito suavemente.

O suor escorria pelas costas e pelas coxas dele, manchando-lhe o quimono, o peito doendo, assim como a cabeça. — Você vai... você vai ficar na hospedaria esta noite. — Depois se afastou e tomou cuidadosas disposições para o comboio de bagagem inteiro. Assim que pôde, passou seus deveres a Naga e se afastou com uma truculência simulada, em direção da margem do rio. Quando ficou sozinho, mergulhou nu na torrente, sem se preocupar com a própria segurança, e lutou com o rio até a cabeça clarear e a dor martelante desaparecer.

Deitara-se na margem, recompondo-se. Agora que ela aceitara, ele tinha que começar. Havia pouco tempo. Reunira as forças e caminhara de volta ao tosco portão do jardim que ficava dentro do jardim principal e permanecera ali algum tempo, repensando seu plano. Naquela noite queria que tudo fosse perfeito. Obviamente a cabana era imperfeita, assim como o jardim — uma grosseira tentativa provinciana de uma verdadeira casa de chá. Não importa, pensou ele, agora completamente absorto na sua tarefa, terá que servir. A noite ocultará muitas falhas e as luzes terão que criar a forma que falta.

Os criados já haviam trazido as coisas que ele ordenara mais cedo — tatamis, lâmpadas de cerâmica a óleo, e utensílios de limpeza —, as melhores de Yokosé, tudo muito novo, mas modesto, discreto e despretensioso.

Ele tirou o quimono, pousou as espadas, e começou a limpar. Primeiro a minúscula sala de recepção, a cozinha e a varanda. Depois o caminho sinuoso e as lajes assentadas no musgo, e finalmente as rochas e o jardim em torno. Ele lavou, varreu, escovou até que tudo estivesse imaculado, rebaixando-se à humilhação do trabalho manual que era o início da cha-no-yu, onde se exigia que o anfitrião sozinho deixasse tudo impecável. A primeira perfeição era a limpeza absoluta.

Pelo crepúsculo havia acabado a maior parte dos preparativos. Depois tomara um banho meticuloso, suportara a refeição noturna e o canto. Assim que pôde, trocara-se de novo, vestindo roupas mais escuras, e voltara correndo para o jardim. Trancara o portão. Primeiro colocara o pavio nas lâmpadas de óleo. Depois, cuidadosamente, borrifara água nas lajes e nas árvores — que agora estavam salpicadas aqui e ali com uma luz bruxuleante —, até que o minúsculo jardim se transformasse num mundo de fadas de gotas de orvalho dançando ao calor da brisa de verão. Reposicionara algumas lanternas. Finalmente satisfeito, destrancara o portão e se dirigira para o vestíbulo. Os pedaços de carvão cuidadosamente selecionados, que tinham sido meticulosamente colocados numa pirâmide sobre areia branca, ardiam corretamente. As flores pareciam corretas no takonoma. Mais uma vez ele limpara os utensílios já impecáveis. O caldeirão começara a cantar e ele se sentira satisfeito com o som que era enriquecido pelos pedacinhos de ferro que colocara tão diligentemente na base.

Ouviu os passos dela nas lajes, o som de suas mãos mergulhando ritualmente na cisterna de água fresca do rio e sendo secas. Três passos suaves subindo a varanda. Mais dois até a soleira acortinada. Até ela tinha que se curvar para atravessar a minúscula porta, construída deliberadamente pequena para deixar humilde todo mundo. Numa cha-no-yu todos eram iguais, anfitrião e convidado, o mais alto daimio e o mais simples samurai. Até um camponês, se fosse convidado.