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Primeiro ela estudou o arranjo de flores do marido. Ele escolhera um único botão de rosa branca selvagem, pingara uma única pérola de água sobre a folha verde, e colocara-o sobre pedras vermelhas. O outono se aproxima, estava ele sugerindo com a flor, falando através da flor, não chore pelo outono, a época de morrer, quando a terra começa a dormir; desfrute do tempo de começar de novo e experimente o frio glorioso do ar outonal nesta noite de verão... logo a lágrima desaparecerá, e a rosa, apenas as pedras permanecerão — logo você e eu desapareceremos, e apenas as pedras permanecerão.

Ele a observou, esquecido de si, agora mergulhado no transe próximo que um mestre de chá às vezes tinha a boa fortuna de experimentar, completamente em harmonia com o ambiente que o cercava. Ela se curvou para a flor em homenagem, aproximou-se e ajoelhou-se diante dele. O seu quimono era marrom-escuro, um fio de ouro queimado nas costuras realçando-lhe a coluna branca do colo e o rosto; o obi era do mais escuro dos verdes, combinando com o sobquimono; o cabelo simples, natural, sem adornos.

— Seja bem-vinda — disse ele com uma mesura, começando o ritual.

A honra é minha — replicou ela, aceitando o seu papel.

Ele serviu o minúsculo repasto numa imaculada bandeja de laca, os pauzinhos colocados num lado, as fatias de peixe sobre o arroz que ele preparara, e para completar o efeito algumas flores campestres que ele encontrara perto da margem do rio, distribuídas num desarranjo perfeito. Quando ela terminou de comer e Buntaro, por sua vez, terminou de comer, ele ergueu a bandeja, cada movimento formalizado — para ser observado, avaliado, recordado — e levou-a através da porta baixa para a cozinha.

Então, sozinha, em repouso, Mariko olhou o fogo criticamente, as brasas numa montanha incandescente, sobre o mar de areia branca embaixo do tripé, seus ouvidos ouvindo o som sibilante do fogo, fundindo-se ao suspirar do caldeirão que chiava levemente e, da cozinha que não era visível, a sibilação de pano sobre a porcelana e água limpando o que já estava limpo. Depois seus olhos passearam pelas vigas entrelaçadas, pelos bambus e juncos que formavam o telhado. As sombras lançadas pelas poucas lâmpadas que ele colocara aparentemente ao acaso tornavam o pequeno grande, o insignificante raro, e o conjunto uma harmonia perfeita. Depois de ter visto tudo e avaliado a própria alma, Mariko voltou para o jardim, para a bacia rasa que, ao longo de eras, a natureza formara na rocha. Mais uma vez purificou as mãos e a boca com a água fria, fresca, enxugando-as numa nova toalha.

Quando ela se acomodara de novo em seu lugar, ele disse: — Talvez agora pudéssemos tomar chá?

— A honra seria minha. Mas, por favor, não se dê a tanto incômodo por minha causa.

— A honra é minha. Você é minha convidada.

Então ele a servira. E agora era o término.

Em meio ao silêncio, Mariko não se moveu um instante. Permaneceu na sua tranqüilidade, não querendo ainda reconhecer o fim nem perturbar a paz que a rodeava. Mas sentiu o vigor crescente nos olhos dele. A cha-no-yu estava encerrada. Agora a vida devia começar de novo.

— O senhor o fez perfeitamente — sussurrou ela, sua tristeza dominando-a. Uma lágrima deslizou-lhe dos olhos, e a sua queda arrancou o coração de Buntaro ao peito.

— Não... não. Por favor, desculpe-me... você é perfeita... foi comum — disse ele, desconcertado com um aplauso tão inesperado.

— Foi a melhor que jamais vi — disse ela, tocada pela total honestidade na voz dele.

— Não. Não, por favor, desculpe-me, se foi belo, foi por sua causa, Mariko-san. Foi apenas belo — você a tornou melhor.

— Para mim foi impecável. Tudo. Que triste que outros, mais dignos do que eu, também não pudessem tê-la presenciado! — Seus olhos reluziam à luz piscante.

— Você a presenciou. Isso é tudo. Era apenas para você. Outros não teriam compreendido.

Ela agora sentiu as lágrimas quentes nas faces. Normalmente se teria envergonhado delas, mas agora não a incomodaram. — Obrigada, como posso agradecer-lhe?

Ele pegou um galho de timo selvagem e, de dedos trêmulos, inclinou-se para a frente e gentilmente apanhou uma de suas lágrimas. Silenciosamente baixou os olhos para a lágrima e o raminho sumiu em contraste com o seu punho imenso. — O meu trabalho... qualquer trabalho... é inadequado diante da beleza disto. Obrigado.

Observou a lágrima na folha. Um pedaço de carvão tombou da montanha e, sem pensar, ele pegou as tenazes e recolocou-o. Algumas centelhas dançaram no ar, do topo da montanha, que se transformou num vulcão em erupção.

Ambos devanearam numa doce melancolia, reunidos pela simplicidade da lágrima única, contentes, juntos no silêncio, reunidos pela humildade, sabendo que o que fora dado fora retribuído em pureza.

Mais tarde ele disse: — Se o nosso dever não o proibisse, eu lhe pediria que se juntasse a mim na morte. Agora.

— Eu iria com o senhor. Contente — respondeu ela de imediato. — Vamos para a morte. Agora.

— Não podemos. Nosso dever é para com o Senhor Toranaga.

Ela tirou o estilete do obi e reverentemente colocou-o sobre o tatami. — Então, por favor, permita-me preparar o caminho. — Não. Isso seria falhar com o nosso dever.

— O que tem que ser, será. O senhor e eu não podemos decidir.

— Sim. Mas não podemos ir antes do nosso amo. Nem você nem eu. Ele necessita de cada vassalo digno de confiança por um pouco mais. Por favor, desculpe-me, devo proibi-lo.

— Eu ficaria satisfeita em ir esta noite. Estou preparada. Mais do que isso, desejo totalmente ir para o além. Sim. Minha alma está transbordando de alegria. — Um sorriso hesitante.

— Por favor, desculpe-me por ser egoísta. O senhor está perfeitamente certo sobre o nosso dever.

A lâmina afiada cintilava à luz das lâmpadas. Eles a observaram, perdidos em contemplação. Então ele quebrou o encanto.

— Por que Osaka, Mariko-san?

— Há coisas a serem feitas lá que apenas eu posso fazer.

O cenho dele aprofundou-se enquanto observava a luz de um pavio gotejante bater na lágrima e se refratar num bilhão de cores.

— Que coisas?

— Coisas que dizem respeito ao futuro da nossa casa e que devem ser feitas por mim.

— Nesse caso você deve ir. — Olhou-a inquisitivo. — Mas você sozinha?

— Sim. Desejo me certificar de que todos os arranjos de família estão perfeitos entre nós e o Senhor Kiyama para o casamento de Saruji. Dinheiro, dote, terras, e assim por diante. Há o feudo aumentado dele a formalizar. O Senhor Hiromatsu e o Senhor Toranaga exigem que isso seja feito. Eu sou a responsável pela casa.

— Sim — disse ele lentamente —, é seu dever. — Seus olhos encontraram os dela. — Se o Senhor Toranaga diz que você pode ir, então vá, mas não é provável que você tenha permissão para ficar lá. Ainda assim... deve voltar rapidamente. Muito rapidamente. Seria imprudente ficar em Osaka um momento além do necessário.

— Sim.

— Por mar seria mais rápido do que por terra. Mas você sempre detestou o mar.

— Ainda detesto.

— Você tem que estar lá logo?

— Não creio que meio mês ou um mês fizesse diferença. Talvez, não sei. Só sinto que devo ir imediatamente.

— Então deixaremos o momento e o assunto da ida ao Senhor Toranaga, se ele permitir que você vá. Com o Senhor Zataki aqui, e os dois pergaminhos, isso só pode significar a guerra. Ir será perigoso demais.

— Sim. Obrigada.

Contente de que aquilo estivesse terminado, ele olhou em torno na pequena sala, satisfeito, sem se preocupar agora com o fato de que sua feia corpulência dominava o espaço, cada uma das suas coxas mais vasta do que a cintura dela, seus braços mais grossos do que o pescoço dela. — Esta sala foi excelente, melhor do que me atrevi a esperar. Gostei de estar aqui. Fui lembrado de novo de que um corpo não é nada além de uma cabana na selva. Obrigado a você por ter estado aqui. Estou muito contente de que tenha vindo a Yokosé, Mariko-san. Não fosse por sua causa, eu nunca teria dado uma cha-no-yu aqui e nunca me teria sentido tão unificado com a eternidade.