Ela hesitou, depois cautelosamente pegou a caixa de chá T'ang. Era um pote simples, com tampa, sem ornamentos. O esmalte laranja-amarronzado estava gasto, deixando uma borda desigual de porcelana nua na base, dramatizando a importância do oleiro e sua relutância em dissimular a simplicidade do seu material. Buntaro a comprara de Sen-Nakada, o mais famoso mestre de chá que jamais existira, por vinte mil kokus. — E tão bonita — murmurou ela, apreciando-lhe o toque. — Tão perfeita para a cerimônia.
— Sim.
— O senhor foi realmente um mestre esta noite, Buntaro-san. Deu-me muita felicidade. — A sua voz era baixa e intensa, e ela se inclinou um pouco para a frente. — Tudo foi perfeito para mim, o jardim e como o senhor usou talento para superar as falhas com luz e sombra. E isto — tocou novamente a caixa de chá. — Tudo perfeito, até o símbolo que o senhor escreveu na toalha, ai, afeição. Para mim, esta noite, afeição foi a palavra perfeita. — Novamente as lágrimas lhe escorreram pelas faces... — Por favor, desculpe-me — disse, enxugando-as.
Ele se curvou, embaraçado com tal elogio. Para dissimular, começou a envolver a caixa nos abafadores de seda. Quando terminou, colocou-a noutra caixa e pousou-a cuidadosamente diante dela. — Mariko-san, se a nossa casa tem problemas de dinheiro, pegue isto. Venda.
— Nunca! — Era a única posse, além das espadas e do arco, que ele prezava na vida. — Isso seria a última coisa que eu venderia.
— Por favor, desculpe-me, mas se pagar aos meus vassalos é um problema, pegue isto.
— Há o suficiente para todos eles, com cuidado. E as melhores armas e os melhores cavalos. Nisso nossa casa é forte. Não, Buntaro-san, a T'ang é sua.
— Não nos resta muito tempo. A quem eu deveria legá-la? Saruji?
Ela olhou para as brasas e o fogo consumindo o vulcão, humilhando-o. — Não. Não até que ele seja um mestre de chá digno, igual ao pai. Aconselho-o a deixar a T'ang ao Senhor Toranaga, que a merece, e pedir a ele que, antes de morrer, julgue se o nosso filho merecerá recebe-la.
— E se o Senhor Toranaga perder e morrer antes do inverno, como estou certo de que perderá?
— O quê?
— Aqui, em particular, posso lhe dizer calmamente essa verdade, sem fingimento. Não é uma parte importante da cha-no-yu não se fingir? Sim, ele vai perder, a menos que consiga Kiyama e Onoshi — e Zataki.
— Nesse caso, determine no seu testamento que a T'ang deve ser enviada com um cortejo a Sua Alteza Imperial, solicitando-lhe que a aceite. Certamente a T'ang merece a divindade.
— Sim. Essa seria a escolha perfeita.— Ele estudou a faca, depois acrescentou tristemente: — Ah, Mariko-san, não há nada a se fazer pelo Senhor Toranaga. Seu karma está escrito. Ele vence ou perde. E se vencer ou perder, haverá uma grande matança.
— Sim.
Meditativo, ele desviou os olhos da faca e contemplou o ramo de timo selvagem, a lágrima ainda pura. Mais tarde, disse: — Se ele perder, antes que eu morra, ou que seja morto, eu ou um dos meus homens matará o Anjin-san.
O rosto dela ficou etéreo contra a escuridão. A brisa suave moveu-lhe alguns fios de cabelo, fazendo-a parecer-se ainda mais com uma estátua.
— Por favor, desculpe-me, posso perguntar por quê?
— Ele é perigoso demais para continuar vivo. Seu conhecimento, suas idéias, que ouvi até de quinta mão... Ele infectará o reino, até o Senhor Yaemon. O Senhor Toranaga já está sob o encantamento dele, neh?
— O Senhor Toranaga aprecia o conhecimento dele — disse ela.
— No momento em que o Senhor Toranaga morrer será a ordem para a morte do Anjin-san. Mas espero que os olhos do nosso senhor se abram antes disso. — A lâmpada gotejante crepitou e extinguiu-se. Ele deu uma olhada nela. — Você está sob encantamento.
— É um homem fascinante. Mas sua mente é tão diferente da nossa... seus valores... sim, tão diferente em tantos sentidos, que às vezes é quase impossível compreendê-lo. Uma vez tentei explicar uma cha-no-yu a ele, mas isso estava além da sua capacidade de compreensão.
— Deve ser terrível ter nascido bárbaro... terrível — disse Buntaro.
— Sim.
Os olhos dele caíram sobre a lâmina do estilete. — Algumas pessoas pensam que o Anjin-san foi japonês numa vida anterior. Não é como os outros bárbaros e... tenta arduamente falar e agir como um de nós, embora falhe, neh?
— Gostaria que o senhor o tivesse visto quase cometer seppuku, Buntaro-san... foi extraordinário. Vi a morte visitá-lo, ser afastada pela mão de Omi. Se ele foi japonês anteriormente, isso explicaria muitas coisas. O Senhor Toranaga o considera muito valioso para nós agora.
— É tempo que você pare de treiná-lo e se torne japonesa de novo.
— Senhor?
— Acho que o Senhor Toranaga está sob o encantamento dele. E você também.
— Por favor, desculpe-me, mas não acho que eu esteja.
— Aquela noite em Anjiro, aquela que acabou mal, naquela noite senti que você estava do lado dele, contra mim. Claro que foi um mau pensamento, mas senti isso.
O olhar dela afastou-se da lâmina. Olhou para ele firmemente e não respondeu. Outra lâmpada crepitou rapidamente e extinguiu-se. Agora só restava uma na sala.
— Sim, eu o odiei naquela noite — continuou Buntaro, na mesma voz calma —, e quis vê-lo morto, assim como a você e a Fujiko-san. Meu arco cochichava comigo, como faz algumas vezes, pedindo uma morte. E quando, na manhã seguinte, eu o vi descendo a colina com aquelas covardes pistolazinhas nas mãos, minhas setas imploraram para beber-lhe o sangue. Mas eu pus de lado a idéia de matá-lo e me humilhei, odiando minha falta de educação mais do que a ele, envergonhado pela minha falta de educação e pelo saque. — Seu cansaço mostrava-se agora. — Muitas vergonhas a suportar, você e eu. Neh?
— Sim.
— Não quer que eu o mate?
— Deve fazer aquilo que sabe ser o seu dever — disse ela. — Assim como eu sempre farei o meu.
— Ficamos na hospedaria esta noite — disse ele. — Sim.
Então, como ela fora uma convidada perfeita e a cha-no-yu a melhor que ele jamais realizara, ele mudou de idéia e deu-lhe tempo e paz em medida igual à que recebera dela. — Vá para a hospedaria. Durma — disse. Sua mão pegou o estilete e estendeu-o a ela. — Quando os bordos estiverem despidos de folhas, ou quando você regressar de Osaka, começaremos. Como marido e mulher.
— Sim. Obrigada.
— Concorda espontaneamente, Mariko-san?
— Sim. Obrigada.
— Diante do seu Deus?
— Sim. Diante de Deus.
Mariko curvou-se e aceitou a faca, recolocou-a no esconderijo, curvou-se de novo e partiu.
Seus passos morreram a distância. Buntaro baixou os olhos para o raminho ainda no seu punho, a lágrima ainda presa a uma folha minúscula. Seus dedos tremeram ao, gentilmente, pousar o galho sobre a última brasa. As folhas de um verde puro começaram a se contorcer e a se carbonizar. A lágrima desapareceu com um silvo.
Então, em silêncio, ele começou a chorar com raiva, subitamente certo, no mais íntimo do seu ser, de que ela o traíra com o Anjin-san.
Blackthorne viu-a sair do jardim e atravessar o pátio bem iluminado. Susteve o fôlego ante a brancura da sua beleza. O amanhecer estava se insinuando no céu oriental.
— Alô, Mariko-san.
— Oh ... alô, Anjin-san! O senhor... desculpe, o senhor me assustou ... não o tinha visto. Levantou-se cedo.
— Não. Gomen nasal, estou na hora. — Ele sorriu e apontou para a manhã, que não estava muito distante. — É um hábito que adquiri ao mar, acordar pouco antes do amanhecer, em bom tempo para subir ao convés e medir o sol. — Seu sorriso ampliou-se. — Foi a senhora que acordou cedo!