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— Eu não havia percebido que era... que a noite já se fora. — Samurais estavam postados aos portões e soleiras, observando curiosos, Naga entre eles. A voz dela tornou-se quase imperceptível ao passar para o latim. — Vigie os seus olhos, rogo-lhe: Até a escuridão da noite contém arautos da destruição.

— Peço perdão.

Desviaram o olhar quando cavalos subiram em tropel até o portão principal. Falcoeiros, o grupo de caça e guardas. Desanimado, Toranaga surgiu de dentro da casa.

— Está tudo pronto, senhor — disse Naga. — Posso ir com o senhor?

— Não, não, obrigado. Descanse um pouco. Mariko-san, como foi a cha-no-yu?

— Muito bonita, senhor. Muitíssimo bonita. — Buntaro-san é um mestre. Você tem sorte. — Sim, senhor.

— Anjin-san! Gostaria de ir caçar? Eu gostaria de aprender como é que você faz voar um falcão.

— Senhor?

Mariko traduziu imediatamente.

— Sim, obrigado — disse Blackthorne.

— Bom. — Toranaga indicou-lhe um cavalo. — Venha comigo.

— Sim, senhor.

Mariko observou-os partir. Depois de vê-los subir a trote o caminho, dirigiu-se ao seu quarto. A criada ajudou-a a se despir, a remover a maquilagem e a soltar o cabelo. Depois disse à criada que ficasse no quarto, que ela não queria ser perturbada até o meio-dia.

— Sim, ama.

Mariko deitou-se, fechou os olhos e permitiu que seu corpo mergulhasse na maravilhosa maciez dos acolchoados. Estava exausta e jubilosa. A cha-no-yu a havia impelido a uma estranha altura de paz, limpando-a, e a partir dali, a decisão sublime e plena de alegria de ir para a morte a colocara num pináculo ainda mais elevado, que nunca atingira antes. O retorno à vida deixara-a com uma misteriosa e inacreditável lucidez quanto à beleza de estar viva. Ela parecera estar fora de si mesma ao responder pacientemente a Buntaro, certa de que suas respostas e o seu desempenho tinham sido igualmente perfeitos. Enrodilhou-se na cama, muito contente de que essa paz existisse agora ... até que as folhas caíssem.

Oh, Nossa Senhora, orou fervorosamente, agradeço-lhe pela sua mercê em me conceder o meu glorioso alívio. Agradeço-lhe e adoro-a com todo o coração, com toda a minha alma e por toda a eternidade.

Repetiu uma ave-maria em humildade e depois, pedindo perdão, de acordo com o seu costume e em obediência ao seu suserano, por outro dia colocou o seu Deus num compartimento da mente.

O que eu teria feito, ruminou pouco antes de o sono se apossar dela, se Buntaro tivesse pedido para compartilhar o meu leito?

Eu teria recusado.

E se ele tivesse insistido, conforme o seu direito?

Eu teria cumprido a promessa que fiz a ele. Oh, sim. Nada mudou.

CAPÍTULO 44

À hora do Bode, o cortejo cruzou a ponte de novo. Foi tudo como antes, exceto que agora Zataki e seus homens usavam trajes mais leves, para viajar — ou para enfrentar uma escaramuça. Estavam todos pesadamente armados e, embora muito bem disciplinados, todos ansiosos por um combate de morte, se viesse. Sentaram-se em ordem em frente às forças de Toranaga, que os superavam largamente em quantidade. O Padre Alvito estava a um lado, entre os assistentes. E Blackthorne.

Toranaga deu as boas-vindas a Zataki com a mesma formalidade calma, prolongando o sentar-se cerimonioso. Desta vez os dois daimios ficaram sozinhos sobre o estrado, as almofadas mais afastadas uma da outra, sob um céu carregado. Yabu, Omi, Naga e Buntaro estavam no chão, em torno de Toranaga, e quatro dos conselheiros de combate de Zataki se espaçavam atrás dele. No momento correto, Zataki pegou o segundo pergaminho. — Vim para a sua resposta formal.

— Concordo em ir a Osaka e em me submeter à vontade do conselho — disse Toranaga calmamente, e curvou-se.

— Vai se submeter? — começou Zataki, o rosto desfigurado de incredulidade. — O senhor, Toranaga-noh-Minowara, vai...

— Ouça — interrompeu Toranaga, numa ressonante voz de comando que ricocheteou em torno da clareira, sem parecer alta. — O conselho de regentes deve ser obedecido! Embora seja ilegal, está constituído e nenhum daimio isolado tem o direito de dividir o reino, por mais razão que ele tenha. O reino tem precedência. Se um daimio se revolta, é dever de todos destruí-lo.

Jurei ao táicum que nunca seria o primeiro a romper a paz, e não serei, ainda que o país esteja dominado pelo mal. Aceito o convite. Aceito-o hoje.

Agastado, cada samurai estava tentando adivinhar o que aquela inacreditável meia-volta significaria. Estavam todos doloridamente certos de que muitos, se não todos, seriam forçados a se tornar ronins, com tudo o que isso significava — perda de honra, de renda, de família, de futuro.

Buntaro sabia que acompanharia Toranaga na sua última viagem e lhe compartilharia o destino — morte com toda a família, de todas as gerações. Ishido era seu inimigo demais para perdoar, e de qualquer modo, quem quereria continuar vivo quando seu próprio senhor desistia da verdadeira luta de um modo tão covarde? Karma, pensou Buntaro, cáustico. Buda me dê forças! Agora estou comprometido em tirar a vida de Mariko e a do nosso filho, antes de tirar a minha. Quando? Quando meu dever estiver cumprido e nosso senhor tiver segura e honradamente partido para o Vazio. Ele precisará de um assistente fiel, neh? Foi-se tudo, como folhas de outono, todo o futuro e o presente, Céu Carmesim e o destino. Está igualmente bem, neh? Agora o Senhor Yaemon herdará, com certeza. O Senhor Toranaga deve estar secretamente tentado, no mais íntimo do seu coração, a tomar o poder, por mais que o negue. Talvez o táicum volte à vida por intermédio do filho e, oportunamente, combateremos com a China de novo e desta vez venceremos, para nos erguer ao topo do mundo, como é nosso dever divino. Sim, a Senhora Ochiba e Yaemon não nos venderão na próxima vez, como Ishido e seus covardes seguidores fizeram na última...

Naga estava desconcertado. Nada de Céu Carmesim? Nada de guerra honrosa? Nada de luta até a morte nas montanhas de Shinano ou nas planícies de Kyoto? Nada de morte honrosa em batalha, heroicamente defendendo o estandarte do pai, nada de pilhas de inimigos mortos, em cima dos quais se escarranchar num último momento de glória, ou numa vitória divina? Nada de ataque, mesmo com as vis armas de fogo? Nada disso — apenas um seppuku, provavelmente às pressas, sem pompa, cerimônia ou honra, e sua cabeça espetada num chuço, exposta ao escárnio do populacho. Apenas uma morte e o fim da linhagem Yoshi. Pois naturalmente cada um deles morreria, o pai, todos os irmãos, irmãs, primos, sobrinhos e sobrinhas, e tias e tios. Seus olhos se fixaram em Zataki. O sangue começou a inundar-lhe o cérebro.

Omi observava Toranaga com olhos semicerrados, o ódio a devorá-lo. Nosso amo enlouqueceu, pensou. Como pode ser tão estúpido? Temos cem mil homens e o Regimento de Mosquetes e mais cinqüenta mil em torno de Osaka! Céu Carmesim é mil vezes melhor do que urna solitária sepultura fedorenta!

Sua mão pesava sobre o punho da espada e, num momento de enlevo, ele se imaginou pulando para a frente para decapitar Toranaga, estender a cabeça do suserano ao regente Zataki e assim pôr termo à charada desprezível. Depois morrer pela própria mão com honra, ali, diante de todos. Pois que sentido havia em viver agora? Agora Kiku estava fora do seu alcance, seu contrato comprado e possuído por Toranaga, que os traíra a todos. Na noite passada seu corpo ficara em chamas enquanto ela cantava e ele sabia que a canção, secretamente, se destinava a ele, e só a ele. Ardor não reconhecido — ele e ela. Espere: por que não um suicídio conjunto? Morrer lindamente juntos, estar juntos por toda a eternidade. Oh, que maravilhoso seria isso! Fundir nossas almas na morte, como um testemunho sem fim da nossa adoração à vida. Mas primeiro o traidor Toranaga, neh?