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Com um esforço, Omi se arrastou de volta da beira do precipício.

Tudo deu errado, pensou. Não existe paz na minha casa, sempre raiva e discussão, e Midori sempre em lágrimas. Minha vingança contra Yabu é remota agora. Não houve acordo secreto com Zataki, com ou sem Yabu, negociado durante horas na noite passada. Nenhum acordo de espécie alguma. Nada certo. Mesmo quando Mura encontrou as espadas, estavam ambas tão mutiladas pela força da terra, que sei que Toranaga me odiou por te-las mostrado a ele. E agora, finalmente, isto — esta covarde e traidora rendição!

É quase como se eu estivesse enfeitiçado — num mau encantamento. Lançado pelo Anjin-san? Talvez. Mas está tudo perdido do mesmo jeito. Nada de espadas, vinganças, via secreta de fuga, Kiku, o futuro. Espere. Existe um futuro com ela. A morte é um futuro, e passado e presente, e será muito limpo e simples...

— Está desistindo? O senhor não vai combater? — berrou Yabu, consciente de que a sua morte e a da sua linhagem estavam garantidas agora.

— Aceito o convite do conselho — replicou Toranaga. Como o senhor aceitará o convite do conselho!

— Não farei...

Omi saiu do devaneio com presença de espírito suficiente para saber que tinha que interromper Yabu e protege-lo da morte instantânea que qualquer confrontação com Toranaga causaria. Mas deliberadamente apertou os lábios, dando vivas de alegria consigo mesmo diante desse presente enviado pelo céu, e esperou que o desastre de Yabu o arruinasse de vez.

— Não vai fazer o quê? — perguntou Toranaga.

A alma de Yabu guinchou perigo. Ele tentou disfarçar: — Eu... eu... naturalmente seus vassalos obedecerão. Sim... se o senhor decide... qualquer coisa que o senhor decida eu... eu farei.

Omi praguejou intimamente e permitiu que a expressão vítrea do rosto voltasse, a mente ainda paralisada pela totalmente inesperada capitulação de Toranaga.

Furioso, Toranaga deixou Yabu continuar gaguejando, aumentando a intensidade do pedido de desculpas. Depois, desdenhosamente, interrompeu-o: —Bom.

Voltou-se para Zataki, mas não relaxou a vigilância. — Então, Irmão, o senhor pode ignorar o segundo pergaminho. Não há mais nada... — Do canto do olho, viu o rosto de Naga alterar-se e girou na sua direção: — Naga!

O jovem quase saltou fora da própria pele, mas a mão deixou a espada. — Sim, Pai? — gaguejou ele.

— Vá buscar meus materiais de escrita! Já! — Quando Naga estava bem longe do alcance da espada, Toranaga respirou, aliviado por ter impedido o ataque a Zataki antes que tivesse começado. Seus olhos estudaram Buntaro cuidadosamente. Depois Omi. E por último Yabu. Achou que os três estavam agora suficientemente controlados para não fazer qualquer gesto imbecil que precipitaria um tumulto imediato e uma grande carnificina.

Mais uma vez dirigiu-se a Zataki. — Dar-lhe-ei a minha aceitação formal e por escrito imediatamente. Isso preparará o conselho para a minha visita de cerimônia. — Baixou a voz e falou apenas aos ouvidos de Zataki: — Dentro de Izu o senhor está seguro, regente. Fora também está seguro. Até que minha mãe esteja fora do seu alcance, o senhor estará seguro. Só até lá. Esta reunião está encerrada.

— Bom. "Visita de cerimônia"? — Zataki foi abertamente desdenhoso. — Que hipocrisia! Nunca pensei que veria o dia em que Yoshi Toranaga-noh-Minowara se ajoelharia ao General Ishido. O senhor é...

— O que é mais importante, Irmão? — disse Toranaga. — A continuidade da minha linhagem ou a do reino?

A escuridão pairava sobre o vale. Estava se espalhando agora, a base das nuvens mal e mal a trezentos pés do solo, obscurecendo completamente o caminho para o passo. A clareira e o adro da hospedaria estavam cheios de samurais se acotovelando, malhumorados. Cavalos pisoteavam irritadamente. Oficiais gritavam ordens com aspereza desnecessária. Carregadores atemorizados corriam de um lado para o outro, preparando a coluna que partia. Faltava por volta de uma hora para o escurecer.

Toranaga escrevera a floreada mensagem, assinara, e a enviara por um mensageiro a Zataki, ignorando as súplicas de Buntaro, Omi e Yabu, em conferência privada. Ouvira os argumentos deles silenciosamente.

Quando terminaram, ele disse: — Não quero mais saber de conversa. Escolhi o meu caminho. Obedeçam!

Dissera-lhes que regressaria a Anjiro imediatamente para reunir o resto dos seus homens. No dia seguinte tomaria a estrada costeira de leste em direção a Atami e Odawara, dali para os desfiladeiros entre as montanhas, até Yedo. Buntaro comandaria a sua escolta. No dia seguinte, também, o Regimento de Mosquetes deveria embarcar em galeras, em Anjiro, e zarpar para esperá-lo em Yedo, com Yabu ao comando. Omi seguiria para a fronteira, pela estrada central, com todos os guerreiros disponíveis em Izu. Devia dar assistência a Hiromatsu, que estava no comando supremo, e garantir que o inimigo, Ikawa Jikkyu, não interferisse no tráfego normal. Omi devia se basear em Mishima por enquanto, para guardar aquele setor da estrada Tokaido, e preparar palanquins e cavalos em quantidade suficiente para Toranaga e o séquito considerável que era necessário para uma visita de cerimônia formal. — Alerte todos os pontos de parada ao longo da estrada e prepare-os igualmente. Compreendeu?

— Sim, senhor.

— Certifique-se de que esteja tudo perfeito!

— Sim, senhor. Pode contar comigo. — Até Omi tinha estremecido sob o olhar penetrante e terrível.

Quando tudo ficou pronto para a partida, Toranaga saiu dos seus aposentos para a varanda. Todos se curvaram. Carrancudo, fez-lhes sinal que continuassem e mandou buscar o estalajadeiro. O homem foi todo mesuras ao apresentar a conta, de joelhos. Toranaga verificou item por item. A conta era justa. Ele assentiu e atirou-a ao seu pagador, para que a pagasse, depois chamou Mariko e o Anjin-san. Mariko recebeu permissão para ir a Osaka. — Mas antes você irá direto daqui até Mishima. Entregue este despacho particular a Hiromatsu, depois continue até Yedo com o Anjin-san. É responsável por ele até chegarem. Você provavelmente irá por mar a Osaka, decidirei isso mais tarde. Anjin-san! Recebeu o dicionário do padre-san?

— Por favor? Sinto muito, não compreendo. Mariko traduzira.

-— Sinto muito. Sim, eu livro recebi.

— Quando nos encontrarmos em Yedo, você estará falando japonês melhor do que agora. Wakarimasu ka?

— Hai. Gomen nasal.

Tristemente, Toranaga saiu para o pátio, um samurai segurando-lhe um amplo guarda-chuva para protegê-lo da chuva. Como um só, todos os samurais, carregadores e aldeãos novamente se curvaram. Toranaga não prestou atenção neles, simplesmente subiu no seu palanquim coberto, à testa da coluna, e fechou as cortinas.

Imediatamente, os seis carregadores semidespidos ergueram a liteira e se puseram em marcha, num trote cerrado, os calosos pés descalços chapinhando nas poças. Samurais da escolta cavalgavam à frente, e outra guarda montada cercava o palanquim. Carregadores de reserva e o comboio de bagagem seguiam atrás, todos correndo, todos tensos e apavorados. Omi chefiava a vanguarda. Buntaro estava no comando da retaguarda. Yabu e Naga já haviam partido ao encontro do Regimento de Mosquetes, que ainda estava atravessado na estrada em emboscada, à espera de Toranaga no cume; o regimento engataria atrás, para formar uma retaguarda. — Retaguarda contra quem? — rosnara Yabu a Omi nos poucos momentos à parte que tiveram antes de Yabu partir a galope.

Buntaro avançou a passos largos para o alto e curvo portão da hospedaria, sem tomar conhecimento do aguaceiro. — Mariko-san!

Obedientemente ela se apressou na direção dele, seu guarda-chuva laranja de papel oleado batido pelos pingos pesados. — Sim, senhor?

Sob a aba do chapéu de bambu, os olhos de Buntaro foram dela para Blackthorne, que observava da varanda. — Diga a ele... — Parou.

— Senhor?

Ele a encarou. — Diga-lhe que o torno responsável por você. — Sim, senhor — disse ela. — Mas, por favor, desculpe-me, eu sou responsável por mim.