Buntaro voltou-se e mediu a distância até a cabeça da coluna. Quando a olhou de novo, seu rosto mostrava um vestígio do seu tormento.
— Agora não haverá folhas outonais para os nossos olhos, neh?
— Isso está nas mãos de Deus, senhor.
— Não, está nas mãos do Senhor Toranaga — disse ele com desdém.
Ela levantou os olhos, sem vacilar sob o olhar dele. A chuva caía forte. As gotas caíam da borda do guarda-chuva como uma cortina de lágrimas. A lama salpicava na barra do quimono dela. Então disse: — Sayonara... até que eu a veja em Osaka.
Ela ficou surpresa. — Oh, desculpe, mas eu não vou vê-lo em Yedo? Com certeza o senhor estará lá com o Senhor Toranaga, chegará quase ao mesmo tempo, vê-lo-ei então.
— Sim. Mas em Osaka, quando nos encontrarmos lá ou quando você regressar de lá, será quando começaremos de novo. Será então que eu a verei realmente, neh?
— Ah, compreendo. Sinto muito.
— Sayonara, Mariko-san — disse ele.
— Sayonara, meu senhor. — Mariko curvou-se, Ele lhe retribuiu a reverência imperiosamente e se afastou pelo charco na direção do seu cavalo. Saltou para a sela e disparou, sem olhar para trás.
— Vá com Deus — disse ela, de olhos fixos nele.
Blackthorne viu os olhos dela acompanhando Buntaro. Esperava ao abrigo do telhado, a chuva diminuindo. Logo a cabeça da coluna desapareceu nas nuvens, depois o palanquim de Toranaga, e ele respirou com mais facilidade, ainda abalado por Toranaga e por todo o dia de mau agouro.
Naquela manhã a caça começara muito bem. Ele escolhera um falcão minúsculo, de longas asas, como um esmerilhão, e fizera-o voar com muito sucesso contra uma calhandra. Comandando o ataque, conforme era privilégio seu, ele galopara através da floresta ao longo de uma trilha bem batida, mascates e sitiantes itinerantes dispersos pelo caminho. Mas um vendedor de óleo, alquebrado pelo tempo, com um cavalo igualmente molambento, bloqueou o caminho crixento, não se moveu do lugar. Na animação da caçada, Blackthorne gritara ao homem que se afastasse, mas o mascate não arredou pé, então ele o cobrira de imprecações. O vendedor de óleo retrucara com rudeza, gritando também, e então Toranaga se aproximara, apontara para o seu próprio guarda-costas e dissera: — Anjin-san, dê-lhe a sua espada um instante — e algumas palavras que ele não compreendeu. Blackthorne obedeceu imediatamente. Antes que percebesse o que estava acontecendo, o samurai investiu contra o mercador. O golpe foi tão selvagem e perfeito, que o vendedor de óleo ainda deu um passo antes de cair, dividido em dois pela cintura.
Toranaga dera um murro na maçaneta da sela com um prazer momentâneo, depois caíra de novo na sua melancolia, enquanto os outros samurais davam vivas. O guarda-costas limpou a lâmina cuidadosamente, usando o seu sash de seda para proteger o aço. Embainhou a espada com satisfação e devolveu-a, dizendo alguma coisa que Mariko depois explicou: — Ele só disse, Anjin-san, que ficou orgulhoso de poder testar essa lâmina. O Senhor Toranaga está sugerindo que o senhor apelide a espada de "Vendedor de óleo", porque um tal golpe e agudeza deviam ser lembrados com honra. Sua espada agora tornou-se lendária, neh?
Blackthorne lembrava-se de como assentira, ocultando a própria angústia. Estava usando a Vendedor de óleo agora — seria Vendedor de óleo para sempre —, a mesma espada que Toranaga lhe presenteara. Gostaria que ele nunca me tivesse dado, pensou Blackthorne. Mas a culpa não foi toda dele, foi minha também. Gritei com o homem, ele foi rude, e samurais não podem ser tratados com rudeza. Que outra linha de conduta havia? Blackthorne sabia que não havia nenhuma. Ainda assim, a morte suprimira-lhe a alegria da caçada, embora tivesse que esconder isso com cuidado porque Toranaga estivera taciturno e difícil o dia todo.
Pouco antes do meio-dia, retornaram a Yokosé, depois houve o encontro de Toranaga com Zataki, e depois, após um banho de vapor e uma massagem, repentinamente o Padre Alvito apareceu-lhe no caminho, como um espectro vingador, acompanhado de dois acólitos hostis. — Jesus Cristo, afaste-se de mim!
— Não há necessidade de ter medo, ou de blasfemar — dissera Alvito.
— Deus amaldiçoe o senhor e todos os padres! — dissera Blackthorne, tentando se controlar, sabendo que se encontrava mergulhado em território inimigo. Anteriormente vira meia centena de samurais católicos escoando aos poucos pela ponte para a missa que Mariko lhe dissera estava sendo realizada no pátio da hospedaria de Alvito. Sua mão procurou o punho da espada, mas não a estava usando com o roupão de banho, ou carregando-a como era costumeiro, e amaldiçoou a própria estupidez, detestando estar desarmado.
— Que Deus lhe perdoe, lhe perdoe e lhe abra os olhos.
— Blasfêmia, piloto. Sim. Que eu não lhe desejo mal. Vim para lhe trazer um presente. Tome, um presente de Deus, piloto. Blackthorne pegou o pacote desconfiado. Quando o abriu e viu o dicionário-gramática de português, latim e japonês, um arrepio o percorreu. Folheou algumas páginas. A impressão era certamente a melhor que ele já vira, a qualidade e o pormenor da informação surpreendentes. — Sim, isto é um presente de Deus, está bem, mas o Senhor Toranaga lhe ordenou que me desse.
— Obedecemos apenas às ordens de Deus. — Toranaga lhe pediu que me desse?
— Sim. Foi solicitação dele.
— E uma "solicitação" de Toranaga não é uma ordem?
— Depende, capitão-piloto, de quem se é, do que se é, e de quão grande é a fé que se tem. — Alvito apontou para o livro. — Três dos nossos irmãos gastaram vinte e sete anos preparando-o.
— Por que o senhor está me dando? — Pediram-nos que fizéssemos isso.
— Por que não evitou a solicitação do Senhor Toranaga? O senhor é astuto mais que o suficiente para fazer isso.
Alvito deu de ombros. Rapidamente Blackthorne folheou o livro, examinando-o. Excelente papel, impressão e o número das páginas estavam em seqüência.
— Está completo — disse Alvito, divertido com meios livros.
— Isto é valioso em troca?
— O padre-inspetor foi muito claro. Ele nos pediu que lhe déssemos.
— Nós lidamos demais para lhe entregar assim. Por isso o estamos dando. Foi impresso neste ano, finalmente. É lindo, não? Só lhe pedimos que o estime, que trate o livro. É digno de ser bem tratado.
— É digno de ser protegido com a vida. Isto é cimento inestimável, como um dos nossos portulanos, melhor ainda. O que quer por ele?
— Não pedimos nada em troca.
— Não acredito. — Blackthorne sopesou-o ainda mais desconfiado. — O senhor deve saber que isto me une ao senhor. Dá-me todo o seu conhecimento, ainda o torna igual dez, talvez vinte anos. Com isto logo estarei falando tão bem quanto o senhor. Uma vez que possa fazer isso, poderei ensinar a outros. Esta é a chave do Japão, neh? A língua é a chave de qualquer lugar estrangeiro, neh? Dentro de seis meses serei capaz de conversar diretamente com Toranaga-sama.
— Sim, talvez seja. Se tiver seis meses. — O que significa isso?
— Nada mais além do que o senhor já sabe. O Senhor Toranaga estará morto bem antes que se passem seis meses.
— Por quê? Que novidades o senhor lhe trouxe? Desde que conversou com o senhor ele ficou como um touro, com metade da garganta dilacerada. O que foi que lhe disse, hein?
— Minha mensagem era particular, de Sua Eminência ao Senhor Toranaga. Sinto muito, sou meramente um mensageiro. Mas o General Ishido controla Osaka, como o senhor certamente sabe, e quando Toranaga-sama for a Osaka, estará tudo acabado para ele. E para você.
Blackthorne sentiu o gelo na medula. — Por que eu?
— Não se pode escapar ao seu destino, piloto. Ajudou Toranaga contra Ishido. Esqueceu? Colocou as mãos violentamente em cima de Ishido. Comandou a arremetida para fora da enseada de Osaka. Sinto muito, mas ser capaz de falar japonês, ou as suas espadas ou o status de samurai não o ajudarão em absoluto. Talvez seja pior agora, sendo o senhor samurai. Agora receberá ordem de cometer seppukií e se recusar... — Alvito acrescentou na mesma voz genticlass="underline" — Eu lhe disse antes que eles são um povo simples.