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— Nós, ingleses, também somos um povo simples — disse ele, com não pouca bravata. — Quando estamos mortos, estamos mortos, mas antes disso depositamos nossa confiança em Deus e mantemos a nossa pólvora seca. Restam-me alguns truques, não receie.

— Oh, não tenho receio, piloto. Não receio nada, nem o senhor nem a sua heresia, nem as suas armas. Estão amarradas... assim como o senhor.

— Isso é karma, está nas mãos de Deus, chame como quiser — disse-lhe Blackthorne, aturdido. — Mas por Deus, recuperarei o meu navio e então, em alguns anos, comandarei uma esquadra de navios ingleses até aqui, e vou mandá-los todos para o inferno, para fora da Ásia.

Alvito falou novamente, com a sua calma imensa e enervante. — Isso está nas mãos de Deus, piloto. Mas os dados estão lançados e nada do que o senhor diz acontecerá. Nada. — Alvito o olhara como se ele já estivesse morto. — Que Deus tenha piedade do senhor, pois como Deus é o meu juiz, piloto, creio que o senhor nunca deixará estas ilhas.

Blackthorne estremeceu, lembrando-se com que Alvito dissera isso.

— Está com frio, Anjin-san?

Mariko estava em pé à sua frente na varanda, agora, sacudindo o guarda-chuva. — Oh, desculpe, não, não estou com frio... só estava devaneando. — Olhou para o passo. A coluna toda desaparecera nas nuvens. A chuva diminuíra um pouco e se tornara branda e suave. Alguns aldeãos e criados vinham chapinhando nas poças, em direção da casa. O átrio estava vazio, o jardim alagado. Lanternas a óleo acesas estavam aparecendo por toda a aldeia. Já não havia sentinelas junto ao portão, nem dos dois lados da ponte. Um grande vazio parecia dominar o fusco-fusco. — É muito mais bonito à noite, não é? — disse ela.

— Sim — replicou ele, totalmente consciente de que estavam sozinhos, e a salvo, se fossem cuidadosos e se ela quisesse como ele queria.

Uma criada veio e pegou-lhe o guarda-chuva, trazendo tubis secos. Ajoelhou-se e começou a enxugar os pés de Mariko com uma toalha.

— Amanhã, ao amanhecer, começaremos Anjin-san.

-— Quanto tempo levaremos?

— Alguns dias, Anjin-san. O Senhor Toranaga disse... — Mariko desviou o olhar quando Gyoko surgiu obsequiosamente de dentro da hospedaria. — O Senhor Toranaga me disse que havia muito tempo.

Gyoko curvou-se profundamente.

Toda, por favor, desculpe-me por interrompê-la. — Como vai, Gyoko-san?

— Muito bem, obrigada, embora quisesse que parasse. Não gosto dessa umidade. Mas depois, quando as cessarem, teremos o calor e isso é muito pior, neh? Mas o outono não está longe... Ah, temos sorte em ter um outono para esperar, e uma primavera celestial, neh?

Mariko não respondeu. A criada amarrou-lhe os rabis e se levantou. — Obrigada — disse Mariko, dispensando-a. — Então, Gyoko-san? Há alguma coisa que eu possa fazer pela senhora? — Kiku-san perguntou se a senhora gostaria que ela a servisse no jantar, ou que dançasse ou cantasse esta noite. O Senhor Toranaga deixou-lhe instruções para entretê-la, se a senhora quisesse.

— Sim, ele me disse, Gyoko-san. Seria muito bom, mas talvez não esta noite. Temos que partir ao amanhecer e estou muito cansada. Haverá outras noites, neh? Por favor, peça-lhe as minhas desculpas, e, oh, sim, diga-lhe que estou encantada em ter a companhia de vocês duas na estrada. — Toranaga ordenara a Mariko que levasse as duas mulheres consigo, e ela lhe agradecera, satisfeita de tê-las como acompanhantes formais.

— A senhora é muito gentil — disse Gyoko, com mel na língua. — Mas a honra é nossa. Ainda vamos para Yedo?

— Sim. Naturalmente. Por quê?

— Por nada, Senhora Toda. Mas, nesse caso, talvez pudéssemos parar em Mishima por um ou dois dias? Kiku-san gostaria de reunir algumas roupas. Não se sente adequadamente vestida para o Senhor Toranaga, e ouvi dizer que o verão de Yedo é muito mormacento e cheio de mosquitos. Temos que ir buscar o guarda-roupa dela, por pior que seja.

— Sim. Naturalmente. As duas terão tempo mais que o suficiente.

Gyoko não olhou para Blackthorne, embora estivessem ambas muito conscientes da presença dele. — É... é trágico o que aconteceu ao nosso amo, neh?

— Karma — respondeu Mariko calmamente. E acrescentou com uma suave malignidade feminina: — Mas nada mudou, Gyoko-san. A senhora será paga no dia em que chegarmos, em prata, conforme diz o contrato.

— Oh, desculpe — disse a mulher mais velha, fingindo estar chocada. — Desculpe, Senhora Toda, mas dinheiro? Isso estava muito distante da minha mente. Nunca! Só estava preocupada com o futuro do nosso amo.

— Ele é senhor do próprio futuro — disse Mariko afavelmente, já não acreditando nisso. — Mas o seu futuro é bom, não é, aconteça o que acontecer? Está rica agora. Todos os seus problemas materiais terminaram. Logo a senhora será uma potência em Yedo, com a sua nova corporação de cortesãs, seja quem for que governe o Kwanto. Logo será a maior de todas as Mamasans, e aconteça o que acontecer, bem, Kiku-san ainda é a sua protegida e a sua juventude não foi tocada, nem o seu karma, neh?

— Minha única preocupação é com o Senhor Toranaga — respondeu Gyoko, com uma gravidade experiente, o ânus contraindo-se com o pensamento de dois mil e quinhentos kokus tão perto da sua caixa-forte. — Se há algum meio por que eu possa ajudá-lo, eu...

— Que generoso de sua parte, Gyoko-san! Falarei a ele do seu oferecimento. Sim, mil kokus do preço ajudariam muitíssimo. Aceito em nome dele.

Gyoko agitou o leque, pôs um sorriso gracioso no rosto, e a custo conseguiu não se pôr a gemer alto pela sua imbecilidade de cair numa armadilha como uma novata intoxicada de saquê. — Oh, não, Senhora Toda, como o dinheiro poderia ajudar um protetor tão generoso? Não, evidentemente o dinheiro não é ajuda para ele — balbuciou, tentando se recuperar. — Não, dinheiro não é ajuda. Melhor uma informação ou um serviço ou...

— Por favor, desculpe-me, mas que informação?

— Nenhuma, nenhuma no momento. Só usei isso como uma figura de linguagem, sinto muito. Mas dinheiro...

— Ah, desculpe, sim. Bem, falarei a ele sobre a sua oferta. E sobre a sua generosidade. Em nome dele, obrigada.

Gyoko curvou-se, sendo dispensada, e correu de volta para dentro da hospedaria.

Mariko soltou uma risadinha entrecortada. — De que está rindo, Mariko-san?

Ela lhe contou o que fora dito. — As Mama-sans devem ser a mesma coisa no mundo todo. Ela só está preocupada com o seu dinheiro.

— O Senhor Toranaga pagará apesar de... — Blackthorne parou. Mariko esperou, com ar inocente. Depois, sob o olhar dela, ele continuou: — O Padre Alvito disse que quando o Senhor Toranaga for a Osaka, estará liquidado.

— Oh, sim. Sim, Anjin-san, isso é totalmente verdadeiro — disse Mariko, com uma vivacidade que não sentia. Depois colocou Toranaga e Osaka nos respectivos compartimentos e ficou tranqüila de novo. — Mas Osaka está a muitas léguas de distância e a incontáveis bastões de tempo no futuro, e até lá, quando o que tem que ser é, Ishido não sabe, o bom padre não sabe realmente, nós não sabemos, ninguém sabe o que realmente vai acontecer. Neh? Exceto o Senhor Deus. Mas ele não nos dirá, dirá? Até, talvez, que já tenha passado. Neh?

— Hai! — Ele riu com ela. — Ah, a senhora é tão sábia. -— Obrigada. Tenho uma sugestão, Anjin-san. Durante a viagem, vamos esquecer todos os problemas externos. Todos eles. — É bom vê-Ia — disse ele em latim.

— Digo o mesmo. Um cuidado extraordinário diante das duas mulheres durante a viagem é muito necessário, neh?

— Pode contar com isso, senhora.

— Conto. Na verdade conto muitíssimo.