— Agora estamos quase sozinhos, neh? A senhora e eu. — Sim. Mas o que foi não é, nem nunca aconteceu.
— É verdade. Sim. A senhora tem razão de novo. E é linda. Um samurai avançou pelo portão e a saudou. Era um homem de meia-idade, de cabelo grisalho, rosto marcado de varíola, e caminhava coxeando levemente. — Por favor, desculpe-me, Senhora Toda, mas partiremos ao amanhecer, neh?
— Sim, Yoshinaka-san. Mas não tem importância se nos atrasarmos até o meio-dia, se o senhor quiser. Temos muito tempo. — Sim. Se a senhora prefere, partimos ao meio-dia. Boa noite, Anjin-san. Por favor, permita-me que me apresente. Sou Akira Yoshinaka, capitão da sua escolta.
— Boa noite, capitão.
Yoshinaka voltou-se para Mariko. — Sou responsável pela senhora e por ele, por isso, por favor, diga-lhe que ordenei que dois homens durmam no quarto dele à noite, como guardas pessoais. Além disso, haverá dez sentinelas em serviço a noite toda. Estarão o tempo todo à sua volta. Tenho cem homens no total. — Muito bem, capitão. Mas, desculpe, seria melhor não postar nenhum homem no quarto do Anjin-san. Eles têm o costume, muito sério, aliás, de dormirem sozinhos, ou sozinhos com uma dama. Minha criada provavelmente ficará com ele, portanto estará protegido. Por favor, mantenha os guardas por perto, mas não demais, assim ele não ficará perturbado.
Yoshinaka coçou a cabeça e franziu o cenho. — Muito bem, senhora. Sim, concordo com isso, embora o meu jeito seja mais sensato. Então, desculpe, por favor, peça-lhe que, nas próximas noites, não dê as caminhadas dele. Até que cheguemos a Yedo eu sou o responsável, e quando sou responsável por pessoas muito importantes, fico muito nervoso. — Curvou-se rigidamente e se afastou.
— O capitão pediu que o senhor não caminhe por aí sozinho durante a nossa viagem. Se se levantar à noite, leve sempre um samurai consigo, Anjin-san. Ele disse que isso o ajudaria.
— Está bem. Sim, farei isso. — Blackthorne observou-o afastando-se.
"O que mais ele disse? Ouvi alguma coisa sobre dormir? Não consegui compreendê-lo muito... " Ele parou. Kiku vinha saindo. Estava usando um roupão de banho com uma toalha decorosamente envolta em torno do cabelo. Descalça, saracoteando na direção da casa de banho alimentada pela nascente quente, fez-lhes uma meia mesura, e acenou alegremente. Eles retribuíram à saudação.
Blackthorne admirou suas longas pernas e o modo ondulante do caminhar até que ela desaparecesse. Sentiu os olhos de Mariko a observá-lo atentamente, e voltou-se para ela. — Não — disse suavemente, e meneou a cabeça.
Ela riu. — Pensei que poderia ser difícil... poderia ser desconfortável para o senhor tê-la apenas como companheira de viagem, depois de um "travesseiro" tão especial.
— Desconfortável, não. Pelo contrário, muito agradável. Tenho lembranças muito agradáveis. Estou contente de que ela pertença ao Senhor Toranaga agora. Isso torna tudo fácil, para ela e para mim. E para todos. — Ia acrescentar "todo mundo, menos Omi", mas pensou melhor e disse: — Afinal de contas, para mim ela foi apenas um presente glorioso e muito especial. Nada mais. Neh?
— Ela foi um presente, sim.
Ele teve vontade de tocar Mariko. Mas não o fez. Em vez disso, voltou-se e contemplou o desfiladeiro, sem ter certeza do que lera por trás dos olhos dela. A noite obscurecia o passo agora. E as nuvens. A água pingava delicadamente do telhado. — O que mais o capitão disse?
— Nada de importância, Anjin-san.
CAPÍTULO 45
A viagem até Mishïma levou nove dias, e todas as noites, durante parte da noite, eles estiveram juntos. Secretamente. Involuntariamente Yoshinaka os ajudava. A cada hospedaria, com toda a naturalidade, escolhia quartos contíguos para todos eles. — Espero que não faça objeção, senhora, mas isto facilitará muito a segurança — dizia sempre, e Mariko concordava e tomava o quarto central, com Kiku e Gyoko de um lado, Blackthorne do outro. Depois, no escuro da noite, ela deixava a sua criada, Chimmoko, e ia ao encontro dele. Com quartos contíguos, mais o vozerio habitual, os sons noturnos, a cantoria e a pândega de outros viajantes, com seus enxames de criadas sempre presentes e ansiosas por agradar, as alertas sentinelas guardando o exterior não tinham como perceber nada. Apenas Chimmoko estava a par do segredo.
Mariko tinha consciência de que Gyoko, Kiku e todas as mulheres do grupo acabariam sabendo. Mas isso não a preocupava. Era samurai e elas não. A sua palavra pesaria contra a delas, a menos que fosse surpreendida em flagrante, e nenhum samurai, nem mesmo Yoshinaka, normalmente abriria a sua porta à noite, sem ser convidado. Pelo que constava a todos, Blackthorne compartilhava o leito com Chimmoko, ou uma das criadas da hospedaria. Não era assunto de ninguém, só dele. Então, apenas uma mulher podia traí-Ia, e se ela fosse traída, a delatora e todas as mulheres do grupo morreriam de uma morte ainda mais vulgar e prolongada do que a dela, por uma traição tão repugnante. Depois, além disso, se ela desejasse, antes que atingissem Mishima ou Yedo, todas sabiam que ela podia mandar matá-las, conforme o seu capricho, pela mais ligeira das indiscrições, real ou alegada. Mariko tinha certeza de que Toranaga não se oporia a essas mortes. Certamente não à de Gyoko e, bem no íntimo, Mariko tinha certeza de que ele não objetaria nem à de Kiku. Dois mil e quinhentos kokus podiam comprar muitas cortesãs de primeira classe.
Por isso se sentia segura quanto às mulheres. Mas não quanto a Blackthorne, por mais que o amasse agora. Ele não era japonês. Não fora educado desde o nascimento para construir as cercas internas e impenetráveis atrás das quais se esconder. Seu rosto, seu comportamento ou seu orgulho o trairiam. Ela não tinha medo por si mesma. Apenas por ele.
— Finalmente sei o que significa amor — murmurou ela na primeira noite. E como não lutava mais contra o furioso assalto do amor, mas se entregara à sua irresistibilidade, o seu terror pela segurança dele a consumia. — Eu o amo, por isso temo por você — sussurrou, abraçada a ele, usando o latim, a língua dos amantes. — Eu a amo. Oh, como a amo.
— Eu o destruí, meu amor. Estamos condenados agora. Destruí-o... essa é a verdade.
— Não, Mariko, de algum modo acontecerá alguma coisa que fará tudo dar certo.
— Eu não deveria ter começado. A culpa é minha. — Não se preocupe, peço-lhe. Karma é karma. Finalmente ela fingiu ser persuadida e fundiu-se aos braços dele. Mas tinha certeza de que ele seria a sua própria nêmesis. Por si mesma não tinha medo.
As noites foram jubilosas. Ternas. Cada uma melhor do que a anterior. Os dias foram fáceis para ela, difíceis para ele. Ele estava constantemente em guarda, determinado, por causa dela, a não cometer nenhum engano. — Não haverá engano — disse ela enquanto cavalgavam juntos, seguramente afastados dos outros, agora mantendo uma simulação de absoluta confiança após o lapso da primeira noite. — Você é forte. É samurai e não haverá engano — disse em latim.
— E quando chegarmos a Yedo?
— Deixe Yedo se preocupar com Yedo. Eu o amo. — Sim. Eu também a amo.
— Então por que está tão triste?
— Triste, não, senhora. É só que o silêncio é doloroso. Eu gostaria de gritar o meu amor do topo das montanhas. Deliciavam-se com a sua privacidade e com a certeza de que ainda estavam a salvo de olhos curiosos.
— O que acontecerá a eles, Gyoko-san? — perguntou Kiku suavemente no palanquim, no primeiro dia de viagem.
— Desastre, Kiku-san. Não há esperança para o futuro deles. Ele dissimula bem, mas ela...! A adoração que sente é gritante. Olhe para ela! Parece uma jovenzinha! Oh, como é tola!
— Mas é tão bela, neh? Que sorte ser tão completa, neh? — Sim, mas ainda assim eu não gostaria que a morte deles recaísse sobre mais ninguém.
— O que Yoshinaka fará quando os descobrir? — perguntou Kiku.