— Talvez não descubra. Rezo para isso. Os homens são muito tolos e estúpidos. Não conseguem ver as coisas mais simples sobre as mulheres, graças a Buda, abençoado o seu nome. Oremos para que eles não sejam descobertos até que tenhamos concluído o nosso negócio em Yedo. Oremos para que não nos considerem responsáveis. Oh, sim! E esta tarde, quando pararmos, vamos procurar o santuário mais próximo e acender dez bastões de incenso. Por todos os deuses, vou até doar a um templo para todos os deuses três kokus anuais, durante dez anos, se escaparmos e se eu conseguir o meu dinheiro.
— Mas eles são tão lindos juntos, neh? Nunca tinha visto uma mulher desabrochar tanto.
— Sim, mas ela vai murchar como uma camélia quebrada quando for acusada diante de Buntaro-san. O karma deles é o karma deles, e não há nada que possamos fazer por eles. Ou pelo Senhor Toranaga — ou mesmo por Omi-san. Não chore, criança. — Pobre Omi-san.
Omi os havia alcançado no terceiro dia. Ficara na hospedaria deles, e após a refeição noturna falara em particular com Kiku, pedindo-lhe formalmente que se juntasse a ele por toda a eternidade.
— De boa vontade, Omi-san, de boa vontade — respondera ela imediatamente, permitindo-se chorar, pois gostava muitíssimo dele. — Mas o meu dever para com o Senhor Toranaga, que me favoreceu, e para com Gyoko-san, que me formou, me proíbe isso. — Mas o Senhor Toranaga perdeu os seus direitos sobre você. Ele se rendeu. Está liquidado.
— Mas o contrato não, Omi-san, por mais que eu deseje isso. O contrato dele é legal, um compromisso. Por favor, desculpe-me, devo recusar...
— Não responda agora, Kiku-san. Pense. Por favor, eu lhe peço. Dê-me a sua resposta amanhã — dissera ele, e se fora. Mas a lacrimosa resposta fora a mesma. — Não posso ser tão egoísta, Omi-san. Por favor, perdoe-me. Meu dever para com o Senhor Toranaga, para com Gyoko-san... não posso, por mais que o deseje. Por favor, perdoe-me.
Ele argumentara. Houvera mais lágrimas. Juraram adoração perpétua e depois ela o mandara embora, com uma promessa: — Se o contrato se romper, ou o Senhor Toranaga morrer e eu ficar livre, farei qualquer coisa que o senhor queira, obedecerei a qualquer ordem sua. — E então ele deixara a hospedaria e seguira na frente para Mishima, cheio de pressentimentos, e ela secara as lágrimas e retocara a maquilagem. Gyoko a cumprimentara: — Você é tão sábia, criança. Oh, como eu gostaria de que a Senhora Toda tivesse metade da sua sabedoria.
Yoshinaka os levava vagarosamente de hospedaria em hospedaria ao longo do curso do rio Kano, que coleava para o norte, rumo ao mar, conformando-se com os atrasos que sempre pareciam acontecer, não se preocupando com o tempo. Toranaga lhe dissera reservadamente que não era preciso se apressar. — Preferiria que eles chegassem mais tarde do que cedo, Yoshinaka-san. Compreende?
— Sim, senhor — respondera ele. Agora abençoava seu kami guardião por lhe dar um intervalo. Em Mishima, com o Senhor Hiromatsu — ou em Yedo, com o Senhor Toranaga —, ele teria que fazer o seu relatório obrigatório, oral e por escrito. Então teria que decidir se contaria o que pensava, não o que fora tão cuidadoso em não ver. Iiiiiih, dizia a si mesmo atônito, com certeza estou enganado. A Senhora Toda? Ela e outro homem, e ainda por cima o bárbaro!
O seu dever não é ver? perguntou a si mesmo. Obter provas. Surpreendê-los por trás de portas fechadas, deitados juntos. Você será condenado por cumplicidade se não fizer isso, neh? Seria muito fácil, embora eles sejam muito cuidadosos.
Sim, mas apenas um imbecil levaria informações assim, pensou ele. Não é melhor fazer o papel de estúpido e rezar para que ninguém os traia e assim não traia a você? A vida dela terminou, estamos todos condenados, então o que importa? Desvie os olhos. Deixe-os ao karma deles. Que importância tem isso?
Com toda a alma o samurai sabia que tinha muitíssima importância.
— Ah, bom dia, Mariko-san. Que lindo dia — disse o Padre Alvito, caminhando até eles. Estavam fora da hospedaria, prontos para iniciar a jornada do dia. Ele fez o sinal-da-cruz sobre ela. — Que Deus a abençoe e a mantenha em suas mãos para sempre. — Obrigada, padre.
— Bom dia, piloto. Como está hoje? — Bem, obrigado. E o senhor?
O grupo deles e os jesuítas haviam se encontrado durante a marcha. Algumas vezes tinham ficado na mesma hospedaria. Outras, viajaram juntos.
— Gostaria de que eu cavalgasse com o senhor esta manhã, piloto? Eu ficaria feliz em continuar as aulas de japonês, se estiver disposto.
— Obrigado. Sim, eu gostaria.
No primeiro dia, Alvito se oferecera para tentar ensinar a língua a Blackthorne.
— Em troca de quê? — perguntara Blackthorne, cauteloso. — De nada. Ajudar-me-ia a passar o tempo, e para lhe dizer a verdade, no momento me sinto entristecido com a vida e velho. Também, talvez, para me desculpar pelas minhas palavras ásperas.
— Não espero desculpas de sua parte. O senhor tem o seu jeito, eu o meu. Não podemos nunca nos encontrar.
— Talvez... mas durante a nossa viagem poderíamos compartilhar coisas, neh? Somos viajantes da mesma estrada. Gostaria de ajudá-lo.
— Por quê?
— O conhecimento pertence a Deus. Não a um homem. Gostaria de ajudá-lo com um presente... nada em troca.
— Obrigado, mas não confio no senhor.
— Então, se insiste, em troca fale-me sobre o seu mundo, sobre o que viu e onde esteve. Qualquer coisa que queira, mas apenas o que quiser. A verdade. Realmente, eu ficaria fascinado e seria uma troca justa. Vim para o Japão com treze ou catorze anos, e não vi nada do mundo. Poderíamos até combinar uma trégua para a viagem, se o senhor desejar.
— Mas sem religiões, política ou doutrinas papais? — Sou o que sou, piloto, mas tentarei.
Então começaram a trocar conhecimento cautelosamente. Para Blackthorne parecia uma troca injusta. A erudição de Alvito era enorme, ele era um professor exemplar, enquanto Blackthorne achava que relatava apenas coisas que qualquer piloto saberia. — Mas isso não é verdade — dissera Alvito. — O senhor é um piloto único, fez coisas inacreditáveis. Um entre meia dúzia na terra, neh?
Gradualmente uma trégua aconteceu de fato entre eles, e isso agradou a Mariko.
— Isso é amizade, Anjin-san, ou o começo dela — disse ela. — Não. Amizade, não. Desconfio dele tanto quanto sempre, assim como ele de mim. Somos inimigos perpétuos. Não esqueci nada, nem ele. Isto é uma trégua, temporária, provavelmente para uma finalidade especial que ele nunca revelaria se eu perguntasse. Eu o compreendo e não há mal nisso, desde que eu não descuide da minha guarda.
Enquanto ele passava o tempo com Alvito, Mariko cavalgava indolentemente com Kiku e Gyoko e conversava sobre "travesseiro" e sobre modos de agradar aos homens e sobre o Mundo do Salgueiro. Em troca falava-lhes sobre o mundo, compartilhando o que presenciara, participara ou aprendera sobre o ditador Goroda, o táicum e até o Senhor Toranaga, contando-lhes histórias criteriosas sobre os grandes que nenhum plebeu jamais conheceria.
Poucas léguas ao sul de Mishima, o rio se insinuava para oeste, para tombar placidamente na costa e no grande porto de Numazu, e eles abandonaram a região barrancosa e seguiram pelas férteis e chatas planícies onde se cultivava o arroz, ao longo da larga e movimentada estrada que rumava para o norte. Havia muitos riachos e afluentes a vadear. Alguns eram rasos. Outros profundos e muito largos, e eles tinham que atravessa-los em batelões impelidos a varas. Mas o mais comum era serem vadeados sobre os ombros de carregadores, dos muitos que estavam sempre posicionados por perto com essa finalidade específica, tagarelando e se oferecendo para esse privilégio.
Aquele era o sétimo dia desde Yokosé. A estrada se bifurcava e ali o Padre Alvito disse que tinha que deixa-los. Tomaria a direção oeste, para retornar ao seu navio por um dia ou pouco mais, mas os alcançaria e se juntaria a eles de novo na estrada de Mishima a Yedo, se isso fosse permitido. — Naturalmente são ambos bem-vindos, se quiserem vir comigo.