Alvito freou e se voltou momentaneamente. Viu-a em pé sobre a leve elevação, o piloto conversando com Yoshinaka, a velha madama e a prostituta pintada reclinadas no palanquim. Estava atormentado pelo zelo fanático que sentia manar de dentro de si. Pela primeira vez ousou perguntar, ainda que a si mesmo: você se prostituiu com o piloto, Mariko-san? O herege danou a sua alma por toda a eternidade? Você, que foi escolhida em vida para ser uma freira e provavelmente a nossa primeira abadessa nativa? Está vivendo em pecado hediondo, inconfesso, profanada, ocultando o seu sacrilégio do seu confessor, e assim conspurcada diante de Deus? Viu-a acenar. Desta vez ele não retribuiu e deu as costas, cravou as esporas nos flancos do cavalo, e disparou.
Naquela noite o sono deles foi perturbado. — O que é, meu amor?
— Nada, Mariko-chan. Durma de novo.
Mas ela não dormiu. Nem ele. Muito antes de ter que fazer isso, ela deslizou de volta ao seu quarto, e ele se levantou e sentou no pátio, estudando no dicionário à luz de velas até o amanhecer. Quando o sol surgiu e o dia esquentou, suas preocupações noturnas se dissiparam e eles continuaram a jornada pacificamente. Logo atingiram a grande via principal, a Tokaido, a leste de Mishima, e os viajantes se tornaram mais numerosos. A grande maioria estava, como sempre, a pé, os pertences às costas. Havia alguns cavalos de carga na estrada e nenhuma carruagem.
— Oh, carruagem... uma coisa com rodas, neh? Não são utilizadas no Japão, Anjin-san. Nossas estradas são íngremes demais e sempre entrecortadas por rios e riachos. As rodas também estragariam a superfície das estradas, por isso são proibidas para todo mundo, exceto o imperador, e ele viaja apenas algumas ris cerimoniais em Kyoto, sobre uma estrada especial. Não necessitamos de rodas. Como se pode atravessar um rio ou um riacho com veículos? — e há muitos, muitíssimos a vadear. Há, talvez, sessenta riachos para cruzar entre este ponto e Yedo, Anjin-san. Quantos já tivemos que atravessar? Dúzias, neh? Não, todos nós andamos ou cavalgamos. Claro que cavalos e palanquins, particularmente, são permitidos apenas para pessoas importantes, daimios e samurais, e ainda assim nem para todos os samurais.
— O quê? Mesmo se se tem dinheiro não se pode alugar um? — Não, a menos que se seja da classe correta, Anjin-san. Isso é muito sábio, não acha? Os médicos e os muito velhos podem viajar a cavalo ou de palanquim, ou os muito doentes, se tiverem permissão escrita concedida pelo seu suserano. Palanquins ou cavalos não seriam certos para camponeses e plebeus, Anjin-san. Isso poderia ensinar-lhes hábitos preguiçosos, neh? É muito mais saudável, para eles, caminhar.
— Além disso, conserva-os no seu lugar. Neh?
— Oh, sim. Mas isso tudo contribui para a paz, a ordem e a wa. Apenas mercadores têm dinheiro para desperdiçar, e o que são eles senão parasitas que não criam nada, não cultivam nada, não fazem nada senão se nutrir do trabalho alheio? Definitivamente eles todos devem caminhar, neh? Nisso somos muito sábios. — Nunca tinha visto tanta gente em movimento — disse Blackthorne.
— Oh, isso não é nada. Espere até que cheguemos perto de Yedo. Adoramos viajar, Anjin-san, mas raramente sozinhos. Gostamos de viajar em grupos.
Mas as multidões não lhes impediam o avanço. O emblema de Toranaga que seus estandartes exibiam, a posição pessoal de Toda Mariko, e a brusca eficiência de Akira Yoshinaka e os batedores que mandara à frente para anunciar quem os seguia, garantiam os melhores aposentos particulares a cada noite, em cada hospedaria, e uma passagem ininterrupta. Todos os outros viajantes e samurais rapidamente se punham de lado e se curvavam profundamente, esperando até que tivessem passado.
— Eles todos têm que parar e se ajoelhar assim para todo mundo?
— Oh, não, Anjin-san. Apenas para daimios e pessoas importantes. E para a maioria dos samurais... sim, isso seria uma prática muito sábia para qualquer plebeu. É polido agir assim, Anjin-san, e necessário, neh? A menos que as pessoas comuns respeitem os samurais e a si mesmas, como pode a lei ser preservada e o reino ser governado? Depois, vale o mesmo para todos. Nós paramos e nos curvamos e cedemos passagem ao mensageiro imperial, não? Todo mundo deve ser polido, neh? Daimios menos importantes têm que desmontar e se curvar para daimios mais importantes. O ritual governa a nossa vida, mas o reino é obediente. — Digamos que dois daimios iguais se encontrem?
— Então ambos desmontariam e se curvariam igualmente, e seguiriam seus caminhos.
— Digamos que o Senhor Toranaga e o General lshido se encontrassem?
Mariko passou delicadamente para o latim. — Quem são eles, Anjin-san? Esses nomes eu não conheço, não entre mim e você. — Tem razão. Por favor, desculpe-me.
— Ouça, meu amor, vamos fazer a promessa de que, se Nossa Senhora nos sorrir e escaparmos de Mishima, apenas em Yedo, na Primeira Ponte, apenas quando formos completamente obrigados a isso, deixaremos o nosso mundo particular. Por favor?
— Que perigo especial existe em Mishima?
— Lá o nosso capitão deve apresentar um relatório ao Senhor Hiromatsu. Lá eu devo vê-lo, também. Ele é um homem sábio, muito vigilante. Seria fácil nós nos trairmos.
— Temos sido cautelosos. Vamos pedir a Deus que os seus temores sejam infundados.
— Por mim mesma não me preocupo, apenas por você. — E eu por você.
— Então prometemos, um ao outro, continuar dentro do nosso mundo particular?
— Sim. Vamos fingir que é o mundo real... o nosso próprio mundo.
— Lá está Mishima, Anjin-san. — Mariko apontou para o outro lado do último riacho.
A espraiada cidade-castelo que abrigava perto de sessenta mil pessoas estava em grande parte obscurecida pela neblina baixa da manhã. Apenas o topo de algumas casas e o castelo de pedra eram distinguíveis. Além havia montanhas que desciam para o mar ocidental. Longe, a noroeste, estava a glória do monte Fuji. A norte e a leste, a cordilheira invadia o céu. — E agora?
— Agora Yoshinaka foi tentar encontrar a hospedaria mais habitável dentro de dez ris. Ficaremos lá dois dias. Levarei no mínimo isso para concluir o meu negócio. Gyoko e Kiku-san nos deixarão depois.
— E depois?
— Depois continuamos. O que o seu sentido de tempo lhe diz sobre Mishima?
— Que é amistosa e segura — replicou ele. — Depois de Mishima, será o quê?
Ela apontou para nordeste, não convencida. — Então iremos naquela direção. Há um caminho que vai caracolando através das montanhas até Hakoné. É a parte mais exaustiva de toda a estrada Tokaido. Depois a estrada desce até a cidade de Odawara, que é muito maior do que Mishima, Anjin-san. Fica no litoral. De lá até Yedo é só uma questão de tempo.
— Quanto tempo? — Não o bastante amor, sinto muito — disse ele. — Há está errada, meu todo o tempo do mundo.
CAPÍTULO 46
O General Toda Hiromatsu aceitou o despacho particular que Mariko lhe estendeu. Quebrou os selos de Toranaga. O pergaminho relatava brevemente o que acontecera em Yokosé, confirmava a decisão de Toranaga de se submeter, ordenava a Hiromatsu que defendesse a fronteira e as passagens para o Kwanto contra qualquer intruso até que ele chegasse (mas para despachar qualquer mensageiro de Ishido ou proveniente de leste), e continha instruções sobre o cristão renegado e sobre o Anjin-san. Com ar cansado o velho soldado leu a mensagem uma segunda vez. — Agora conte-me tudo que viu em Yokosé, ou ouviu, que se relacione ao Senhor Toranaga.
Mariko obedeceu.
— Agora conte-me o que você pensa que aconteceu. Novamente ela obedeceu.
— O que ocorreu na cha-no-yu entre você e meu filho? Ela lhe contou tudo exatamente como acontecera.
— Meu filho disse que o nosso amo perderia? Antes do segundo encontro com o Senhor Zataki?
— Sim, senhor. — Tem certeza? — Oh, sim, senhor.
Houve um longo silêncio na sala que ficava bem alta no torreão do castelo, que dominava a cidade. Hiromatsu pôs-se de pé e dirigiu-se para a seteira na espessa parede de pedra, as costas e os joelhos doendo, a espada frouxa nas mãos. — Não entendo.