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— Senhor?

— Nem ao meu filho, nem ao nosso amo. Podemos esmagar quaisquer exércitos que Ishido lance em campo. E quanto à decisão de se submeter...

Ela brincou com o leque, observando o céu noturno, estrelado e agradável.

Hiromatsu estudou-a. — Você está com ótima aparência, Mariko-san, mais jovem do que nunca. Qual é o seu segredo? — Não tenho segredo algum, senhor — respondeu ela, sua garganta repentinamente seca. Pensou que sua fala se fragmentaria, mas o momento passou e o velho desviou novamente os olhos astutos para a cidade lá embaixo.

— Agora conte-me o que aconteceu desde que você saiu de Osaka. Tudo o que você viu, ouviu, ou de que participou — disse ele.

A noite ia alta quando ela concluiu. Relatou tudo claramente, exceto a extensão da sua intimidade com o Anjin-san. Mesmo nisso foi cuidadosa em não ocultar a estima que sentia por ele, o respeito pela sua inteligência e bravura. Ou a admiração de Toranaga pelo seu valor.

Por algum tempo Hiromatsu continuou a andar de um lado para o outro, o movimento abrandando-lhe a dor. Tudo se encaixava com o relatório de Yoshinaka e o de Omi — até a tirada de Zataki antes de esse daimio abalar para Shinano. Agora ele compreendia muitas coisas que não estavam claras, e tinha informação suficiente para tomar uma decisão calculada. Parte do que ela relatou desgostou-o. Parte fê-lo odiar ainda mais o filho; conseguia entender-lhe os motivos, mas isso não fazia diferença. O resto do que ela disse forçou-o a ressentir-se com o bárbaro e algumas vezes a admirá-lo. — Você o viu puxar o nosso senhor para a segurança?

— Sim. O Senhor Toranaga estaria morto agora, senhor, não fosse ele. Tenho absoluta certeza. Ele salvou o nosso amo três vezes: escapando do Castelo de Osaka, a bordo da galera, na enseada de Osaka, e absolutamente no terremoto. Vi as espadas que Omi-san tirou da escavação. Estavam retorcidas como massa de talharim e inutilizadas.

— Acha que o Anjin-san realmente pretendia cometer seppuku?

— Sim. Pelo Senhor Deus dos cristãos, acredito que ele assumiu esse compromisso. Apenas Omi-san o impediu. E, senhor, acredito totalmente que ele seja digno de ser samurai, digno de ser hatamoto.

— Não pedi essa opinião.

— Por favor, desculpe-me, senhor, na verdade não pediu. Mas o senhor estava com a pergunta na ponta da língua.

— Tornou-se leitora de pensamento, assim como treinadora de bárbaro?

— Oh, não, por favor, desculpe-me, senhor, claro que não — disse ela, na sua voz mais delicada. — Meramente respondi ao líder do meu clã com o melhor da minha paupérrima habilidade. Os interesses do nosso amo estão em primeiro lugar na minha cabeça. Os seus vêm em segundo apenas em relação aos dele. — Vêm?

— Por favor, desculpe-me, mas não deveria ser necessário perguntar. Ordene-me, senhor. E eu obedecerei.

— Por que tão orgulhosa, Mariko-san? — perguntou ele, irritadiço. — E tão segura? Hein?

— Por favor, desculpe-me, senhor. Fui rude. Não mereço essa...

— Eu sei! Nenhuma mulher merece! — Hiromatsu riu. — Mas ainda assim há vezes em que necessitamos da sabedoria de uma mulher, a sabedoria fria, cruel, malévola, astuciosa e prática. Elas são muitíssimo mais espertas do que nós, neh?

— Oh, não, senhor — disse ela, perguntando-se o que ele realmente tinha em mente.

— É ótimo que estejamos sozinhos. Se isso fosse repetido em público, diriam que o velho Punho de Aço está caduco, que é tempo de ele aposentar a espada, raspar a cabeça, e começar a dizer preces a Buda pelas almas dos homens que mandou para o Vazio. E teriam razão.

— Não, senhor. É como o senhor seu filho disse. Até que o destino do nosso amo esteja determinado, o senhor não pode se retirar. Nem o senhor, nem o senhor meu marido. Nem eu.

— Sim. Ainda assim eu ficaria muito satisfeito em pousar a minha espada e procurar a paz de Buda para mim e para aqueles que matei.

Contemplou a noite algum tempo, sentindo a própria idade, depois olhou para ela. Ela era agradável de se ver, mais do que qualquer outra mulher que ele jamais conhecera.

— Senhor?

— Nada, Mariko-san. Só estava me lembrando da primeira vez em que a vi.

Isso fora quando Hiromatsu secretamente empenhara a própria alma a Goroda para obter aquela garota frágil para o filho, o mesmo filho que havia massacrado a própria mãe, a única mulher que Hiromatsu realmente adorara. Por que consegui Mariko para ele? Porque eu queria magoar o táicum, que também a desejava. Para magoar um rival, mais nada.

Minha consorte foi realmente infiel? perguntou-se o velho, reabrindo a chaga perpétua. Ó deuses, quando os olhar no rosto, pedirei uma resposta para essa pergunta. Quero um sim ou não!

Exijo essa verdade. Acho que é uma mentira, mas Buntaro disse que ela estava sozinha com aquele homem no quarto, o cabelo em desalinho, o quimono solto, e foi meses antes de eu voltar. Poderia ser uma mentira, neh? Ou a verdade, neh? Deve ser a verdade — com certeza filho algum decapitaria a própria mãe sem ter certeza, não?

Mariko estava observando os sulcos no rosto de Hiromatsu, a pele repuxada e esfoliada pela idade, e a vetusta força muscular dos seus braços e ombros. No que estará pensando? perguntou a si mesma, gostando dele. Já terá visto através de mim? Sabe sobre mim e o Anjin-san agora? Sabe que tremo de amor por ele? Que quando eu tiver que escolher entre ele, o senhor e Toranaga, escolherei a ele?

Hiromatsu erguia-se junto da seteira, olhando para a cidade, os dedos apertando a bainha e o punho da espada, esquecido dela. Estava meditando sobre Toranaga e o que Zataki dissera há alguns dias, em amargo desgosto, desgosto que ele compartilhara. — Sim, é claro que quero conquistar o Kwanto e plantar o meu estandarte nos muros do castelo de Yedo agora e torná-lo meu. Nunca quis isso antes, mas agora quero. Mas assim? Não há honra! Não há honra para o meu irmão nem para mim! Ou para qualquer pessoa! Exceto Ishido, e aquele camponês não entende nada de nada.

— Então apóie Toran...

— Para quê? Para aniquilar o herdeiro?

— Ele disse uma centena de vezes que apóia o herdeiro. Acredito nele. E se tivéssemos um Minowara para nos comandar, não um camponês arrivista e a bruxa da Ochiba, neh? Esses incompetentes terão oito anos de governo até que Yaemon atinja a idade, se o Senhor Toranaga morrer. Por que não dar ao Senhor Toranaga os oito anos? Ele é Minowara! Disse mil vezes que entregará o poder a Yaemon. Está com o cérebro no traseiro? Toranaga não é inimigo de Yaemon nem seu!

— Nenhum Minowara se ajoelharia diante daquele camponês! Ele mijou na própria honra e na de todos nós. Na sua e na minha!

Discutiram e se xingaram e, em particular, quase chegaram às vias de fato. — Vamos — escarnecera ele, insultando Zataki — saque a espada, traidor! Você é traidor do seu irmão, que é o cabeça do seu clã!

— Sou cabeça do meu próprio clã. Temos a mesma mãe, mas não o mesmo pai. O pai de Toranaga mandou minha mãe embora em desgraça. Não ajudarei Toranaga — mas se ele abdicar e rasgar o ventre, apoiarei Sudara...

Não há necessidade de fazer isso, disse Hiromatsu para a noite, ainda enraivecido. Não há necessidade de fazer isso enquanto eu estiver vivo, nem de se submeter humilhado. Sou general-chefe. É meu dever proteger a honra e a casa do meu amo, até dele mesmo. Portanto agora decido eu:

Ouça, senhor, por favor, desculpe-me, mas desta vez desobedeço. Com orgulho. Desta vez eu o traio. Agora vou cooptar o seu filho e herdeiro, o Senhor Sudara, e a esposa dele, a Senhora Genjiko, e juntos ordenaremos Céu Carmesim quando as chuvas cessarem, e então a guerra começará. E até que morra o último homem no Kwanto, enfrentando o inimigo, vou mantê-lo em segurança no castelo de Yedo, diga o senhor o que disser, custe o que custar.