E quanto à agonia do padre tonsurado, virgem, que, nu e de joelhos, primeiro rezou ao seu intolerante Deus cristão, implorando perdão pelo pecado que estava prestes a cometer com a garota, e o outro pecado, um pecado de verdade, que ele cometera em Osaka — estranhas coisas secretas do "confessionário", que lhe foram sussurradas por um leproso, depois traiçoeiramente passadas por ele ao Senhor Harima. O que Toranaga faria com isso? Interminavelmente pondo para fora o que fora sussurrado, passado adiante, e depois a oração com os olhos bem fechados — antes que o pobre imbecil se esparramasse em cima da garota sem habilidade alguma e, depois, saísse correndo como uma abominável criatura da noite. Tanto ódio, sofrimento e vergonha entrelaçados.
E quanto ao segundo cozinheiro de Omi, o qual cochichara a uma criada a qual cochichara ao amante o qual cochichara a Akiko que tinha ouvido às ocultas sobre Omi e a mãe tramando a morte de Kasigi Yabu, seu suserano? Ah! Se isso viesse a público, seria como lançar um gato entre todos os pombos Kasigi! Assim como o oferecimento secreto de Omi e Yabu a Zataki, se soprado aos ouvidos de Toranaga — ou as palavras que Zataki resmungou no sono que a sua parceira de "travesseiro" memorizou e me vendeu no dia seguinte por um chogin de prata inteiro, palavras que sugeriam que o General Ishido e a Senhora Ochiba comem juntos, dormem juntos, e que o próprio Zataki ouvira-os grunhindo e gemendo e gritando enquanto Yang atravessava Yin. Gyoko sorriu consigo mesma, satisfeita. Chocante, neh, pessoas em posições tão elevadas!
E o outro fato estranho de que, no momento das Nuvens e Chuva, e alguns momentos antes, o Senhor Zataki inconscientemente chamara a parceira de "Ochiba". Curioso, neh?
Será que o oh-tão-necessário-de-ambos-os-lados Zataki mudaria a canção se Toranaga lhe oferecesse Ochiba como isca? Gyoko casquinou consigo mesma, animada com todos os adoráveis segredos, todos muito valiosos nos ouvidos certos, que homens haviam derramado junto com o Sumo do Prazer. — Ele mudaria — murmurou confiante. — Oh, sim.
— O quê?
— Nada, nada, Inari-chan. Dormiu bem?
— O quê?
Ela sorriu e deixou-o mergulhar no sono de novo. Depois, quando ele estava pronto, tocou-o com a mão e os lábios para o prazer dele. E para o seu.
— Onde está o Inglês agora, padre?
— Não sei exatamente, Rodrigues. Ainda. Deve estar numa das hospedarias ao sul de Mishima. Deixei um criado para descobrir qual. — Alvito juntou o resto do molho com uma casca de pão fresco.
— Quando saberá?
— Amanhã, sem falta.
— Que vá, eu gostaria de vê-lo de novo. Ele está bem? — perguntou Rodrigues.
— Sim. — O sino do navio soou seis vezes. Três da tarde. — Ele contou ao senhor o que lhe aconteceu desde que partiu de Osaka?
— Sei de alguns trechos. Por ele e por outros. É uma longa história e há muito a contar. Primeiro lidarei com os meus despachos, depois conversaremos.
Rodrigues encostou-se na cadeira, na pequena cabina de popa. — Bom. Isso seria muito bom. — Viu os traços agudos do jesuíta, os penetrantes olhos castanhos salpicados de amarelo. Olhos de gato. — Ouça, padre — disse ele —, o Inglês salvou o meu navio e a minha vida. Claro que é inimigo, claro que é herege, mas é um piloto, um dos melhores que já existiram. Não é errado respeitar um inimigo, ou mesmo gostar dele.
— Jesus perdoou a seus inimigos, mas eles ainda o crucificaram. — Calmamente Alvito retribuiu o olhar fixo do piloto. — Mas eu também gosto dele. Pelo menos, compreendo-o melhor. Vamos deixá-lo por enquanto.
Rodrigues assentiu, concordando. Notou que o prato do padre estava vazio, então esticou-se por sobre a mesa e colocou-lhe a travessa mais perto. — Pronto, padre, coma mais um pouco de frango. Pão?
— Obrigado. Sim, estava faminto. — O padre agradecidamente arrancou outra perna, comerei. Não tinha percebido como estava com fome e pegou mais salva, cebola e pão, depois cobriu tudo com o fim do espesso molho.
— Vinho?
— Sim, obrigado.
— Onde está o resto da sua gente, padre?
— Deixei-os numa hospedaria perto do ancoradouro. Rodrigues olhou pelas vigias que davam para Nimazu, os ancoradouros e o porto, bem a estibordo, a embocadura do Kano, onde a água era mais escura do que o resto do mar. Muitos barcos de pesca iam e vinham. — Esse criado que deixou lá, padre... pode confiar nele? Tem certeza de que os encontrará? — Oh, sim. Eles certamente não vão sair de lá por dois dias no mínimo. — Alvito já decidira não mencionar o que ele, ou mais corretamente, lembrou-se, o que o Irmão Miguel suspeitava, por isso apenas acrescentou: — Não se esqueça de que eles estão viajando formalmente. Com a posição de Toda Mariko e as bandeiras de Toranaga, viajam com toda a formalidade. Todo mundo, em quatro léguas, saberia sobre eles e onde estão hospedados. Rodrigues riu. — O Inglês viajando formalmente? Quem teria acreditado nisso? Como um daimio sifilítico?
— Isso não é nem a metade, piloto. Toranaga tornou-o samurai e hatamoto.
— O quê?
— Agora o Piloto-Mor Blackthorne usa as duas espadas. Com as pistolas. E é confidente de Toranaga, em certa medida, e seu protegido.
— O Inglês?
— Sim. — Alvito deixou o silêncio pairar na cabina e voltou a comer.
— Sabe o porquê disso? — perguntou Rodrigues. — Sim, em parte. Tudo a seu tempo, piloto.
— Conte-me apenas o porquê. Rapidamente. Os detalhes mais tarde, por favor.
— O Anjin-san salvou a vida de Toranaga pela terceira vez. Duas durante a fuga de Osaka, a última em Izu, durante um terremoto. — Alvito atacou vigorosamente a carne da coxa. Um filete de sumo correu-lhe pela barba negra.
Rodrigues esperou, mas o padre não disse mais nada. Pensativamente seus olhos caíram no cálice que segurava entre as mãos. A superfície do vinho vermelho-escuro refletiu a luz. Após uma longa pausa, disse: — Não seria bom para nós aquele Inglês incrível perto de Toranaga. Não em absoluto. Não ele. Hein?
— Concordo.
— Ainda assim, gostaria de vê-lo. — O padre não disse nada. Rodrigues deixou-o limpar o prato em silêncio, depois ofereceu mais, agora já não sentindo alegria alguma. O resto da carcaça e a última asa foram aceitos, e outro cálice de vinho. Depois, para terminar, um pouco de excelente conhaque francês, que o padre pegou num armário.
— Rodrigues, gostaria de tomar um copo?
— Obrigado. — O marujo observou Alvito verter o líquido amarronzado no copo de cristal. Todo o vinho e o conhaque tinham vindo do estoque particular do padre-inspetor, como um presente de despedida ao seu amigo jesuíta.
— Naturalmente, Rodrigues, você ficará à vontade para compartilhá-lo com o padre — dissera Dell'Aqua. — Vá com Deus, que ele vele por você e o leve com segurança a bom porto e para casa de novo.
— Obrigado, Eminência.
Sim, obrigado, Eminência, mas nada de malditos agradecimentos, disse-lhe Rodrigues causticamente, nada de agradecimentos por conseguir que o meu capitão-mor me mandasse vir para bordo deste barco de porcos sob o comando deste jesuíta e longe dos braços da minha Gracia, pobre querida. Nossa Senhora, a vida é tão curta, curta demais e traiçoeira demais para desperdiçá-la sendo acompanhante de padres fedorentos, até de Alvito, que é mais homem do que qualquer outro e, por causa disso, mais perigoso. Nossa Senhora, ajude-me!
— Oh! Você já vai, Rod-san? Vai tão cedo? Oh, que pena... — Volto logo, minha querida.
— Oh, que pena... sentimos falta, o pequenino e eu.