Por um momento ele considerara a possibilidade de levá-la para bordo do Santa Filipa, mas imediatamente pusera de lado o pensamento, sabendo que seria perigoso para ela, para ele e para o navio. — Sinto muito, volto logo.
— Nós esperamos, Rod-san. Por favor, desculpe minha tristeza, sinto muito.
Sempre o português hesitante e com sotaque pesado que ela tentava tão arduamente falar, insistindo em ser chamada pelo nome de batismo, Gracia, e não por Nyan-nyan, de som tão agradável, que significava Gatinho e lhe assentava tão bem e de que ele gostava mais ainda.
Ele zarpara de Nagasaki, detestando partir, amaldiçoando todos os padres e capitães-mor, querendo que o verão terminasse e o outono chegasse, de modo que ele pudesse levantar ferros com o Navio Negro, os porões carregados, rumar para casa finalmente, rico e independente. Mas depois o quê? A perpétua pergunta o assoberbava. E ela — e a criança? Nossa Senhora, ajude-me a responder isso com paz.
— Uma excelente refeição, Rodrigues — disse Alvito, brincando com uma migalha de pão na toalha. — Obrigado.
— Bom. — Rodrigues estava sério agora. — Qual é o seu plano, padre? Devemos... — Ele parou no meio da frase e olhou para fora. Depois, descontente, levantou-se da mesa, coxeou doloridamente até uma vigia do lado da terra e perscrutou o exterior. — O que é, Rodrigues?
— Pensei ter sentido a maré mudar. Só quis verificar o nosso espaço de manobras. — Abriu mais a vigia e se inclinou para fora, mas ainda não conseguiu ver a âncora de proa. — Com licença um instante, padre.
Subiu ao convés. A água lambia a corrente da âncora que mergulhava angulosa na água lamacenta. Nenhum movimento. Então apareceu um fio de esteira e o navio começou a se mover em segurança, para tomar sua nova posição com a maré vazante. Ele examinou a posição, depois as vigias. Estava tudo perfeito, nenhum outro navio por perto. A tarde estava excelente, a neblina dissipada há muito tempo. Estavam a uma amarra mais ou menos da praia, afastados o suficiente para impedir uma abordagem súbita, e bem longe das rotas que levavam aos atraçadouros.
O navio era uma lorcha, um casco japonês adaptado às velas e cordames portugueses modernos: veloz, de dois mastros, e equipado como uma corveta. Tinha quatro canhões a meia-nau, dois pequenos morteiros de proa e dois de popa. Chamava-se Santa Filipa e carregava uma tripulação de trinta marujos.
Seus olhos foram para a cidade e para as colinas além. — Pesaro!
— Sim, senhor?
— Prepare a chalupa. Vamos a terra antes do crepúsculo. — Bom. Estará pronto. Quando volta?
— Ao amanhecer.
— Melhor ainda! Comandarei o grupo de desembarque — dez homens.
— Nada disso, Pesaro. É kinjiru! Minha Nossa Senhora, o seu cérebro está podre? — Rodrigues se escarranchou no tombadilho e se inclinou sobre a amurada.
— Não está certo que todos devam sofrer — disse o contramestre, Pesaro. — Comandarei o grupo e prometo que não haverá problema. Estamos engaiolados há duas semanas já.
— As autoridades do porto daqui disseram kinjiru, sinto muito, mas sempre é o maldito kinjiru! Lembra? Isto não é Nagasaki!
— Sim, pelo sangue de Jesus Cristo, e que ele tenha piedade! — O homem atarracado carregou o sobrolho. — Foi só um japona que foi retalhado.
— Um morto retalhado, dois esfaqueados gravemente, muitos feridos, e uma garota ferida antes que os samurais interrompessem a arruaça. Preveni vocês todos antes de descerem a terra: "Nimazu não é Nagasaki, portanto comportem-se!" Minha Nossa Senhora! Tivemos sorte em dar o fora com apenas um marujo morto. Eles estariam dentro da lei se quisessem picar vocês cinco em pedaços.
— Lei deles, piloto, não nossa. Malditos macacos! Foi só uma rixa de bordel.
— Sim, mas os seus homens começaram, as autoridades puseram o meu navio de quarentena, e vocês estão todos marcados. Você inclusive! — Rodrigues mudou a perna de posição para diminuir a dor. — Seja paciente, Pesaro. À hora que o padre voltar, zarparemos.
— Ao amanhecer? Isso é uma ordem?
— Não, ainda não. Só prepare a chalupa. Gomez virá comigo.
— Deixe-me ir também, hein? Por favor, piloto. Estou doente de morte de estar enfiado neste maldito balde.
— Não. E é melhor não ir a terra esta noite. Nem você, nem qualquer outro.
— E se o senhor não voltar ao amanhecer? — A você não parece claro?
A carranca do contramestre aprofundou-se. Ele recuou. — Sim, sim, está claro, por Deus.
— Bom. — Rodrigues desceu.
Alvito estava adormecido, mas despertou no momento que o piloto abriu a porta da cabina. — Ah, está tudo bem? — perguntou, satisfeito agora, de mente e corpo.
— Sim. Foi só o turno. — Rodrigues tomou uns goles de vinho, para tirar o gosto horrível da boca. Era sempre assim depois de um quase-motim. Se Pesaro não tivesse cedido imediatamente, mais uma vez Rodrigues teria tido que estourar a cara de um. Então hesitou, de enfrentar o homem ou colocá-lo a ferros ou ordenar cinqüenta chicotadas ou mergulhar o homem abaixo da quilha, ou pôr em prática qualquer uma da centena de obscenidades essenciais, pela lei do mar, para se manter a disciplina. Sem disciplina qualquer navio estaria perdido. — Qual é o plano agora, padre? Zarpamos ao amanhecer? — Como estão os pombos-correio?
— Em boa saúde. Ainda temos seis: quatro Nagasaki, dois Osaka.
O padre verificou o ângulo do sol. Quatro ou cinco horas até o crepúsculo. Muito tempo para soltar as aves com a primeira mensagem codificada que ele planejara há muito tempo: "Toranaga rende-se às ordens dos regentes. Vou primeiro a Yedo, depois a Osaka. Acompanharei Toranaga a Osaka. Ele diz que ainda podemos construir a catedral em Yedo. Despachos pormenorizados com Rodrigues".
— Quer dizer ao tratador, por favor, para preparar dois Nagasaki e um Osaka imediatamente? — disse Alvito. — Depois conversaremos. Não vou voltar com você. Estou indo para Yedo por terra. Vai me tomar a maior parte da noite e do dia de amanhã escrever um despacho detalhado, que você levará ao padre-inspetor, entregando às mãos dele apenas. Você zarpará assim que eu tiver terminado?
— Está bem. Se for muito perto do crepúsculo, esperarei até o amanhecer. Há bancos de areia e areias movediças por dez léguas.
Alvito assentiu. As doze horas extras não fariam diferença. Sabia que teria sido muitíssimo melhor se ele tivesse podido mandar as notícias de Yokosé, Deus amaldiçoe o demônio pagão que destruiu os meus pombos lá! Tenha paciência, disse a si mesmo. Para que a pressa? Isso não é uma regra vital da nossa ordem? Paciência. Quem espera sempre alcança. Quem espera e quem trabalha. O que importam doze horas, ou mesmo oito dias? Não mudarão o curso da história. Os dados foram lançados em Yokosé.
— Vai viajar com o Inglês? — estava perguntando Rodrigues. — Como antes?
— Sim. De Yedo voltarei para Osaka. Acompanharei Toranaga. Gostaria de que você parasse em Osaka com uma cópia do meu despacho, para o caso de o padre-inspetor estar lá ou ter partido de Nagasaki antes que você chegue lá e esteja a caminho. Você pode entregá-lo ao Padre Soldi, secretário dele... apenas a ele.
— Está bem. Ficarei contente em partir. Somos odiados aqui.
— Com a mercê de Deus, podemos mudar tudo isso, Rodrigues. Com a boa graça de Deus, converteremos todos os pagãos aqui.
— Amém a isso. Sim. — O homem alto moveu a perna, o latejamento momentaneamente abrandado. Olhou fixamente pela janela. Depois se levantou, impaciente. — Vou eu mesmo buscar os pombos. Escreva a sua mensagem, depois conversaremos. Sobre o Inglês. — Subiu ao convés e selecionou as aves nos cestos. Quando retornou, o padre já usara a pena especial, aguçada com uma agulha, e a tinta para inscrever a mesma mensagem em código nas minúsculas tiras de papel. Alvito encheu os minúsculos cilindros, lacrou-os, e soltou os pássaros. Os três fizeram um círculo no ar, depois rumaram para oeste, ao sol da tarde.