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— Algumas vezes. Algumas pessoas usam. É um método infame.

— Sim, mas muito eficaz. Aqui também acontece.

— Terrível, não, não se poder confiar em ninguém?

— Oh, não, Anjin-san, sinto muito — respondeu ela. — Essa é apenas uma das regras mais importantes da vida — nada mais, nada menos.

LIVRO QUATRO

CAPÍTULO 47

O Erasmus resplendia ao sol alto do meio-dia, ao lado do ancoradouro de Yedo.

— Jesus Deus no paraíso, Mariko, olhe só! Já viu alguma coisa como ele? Olhe que linhas!

O navio estava além das paliçadas fechadas, circundantes, a uns cem passos de distância, atracado ao cais com cordas novas. A área toda estava pesadamente guardada, havia mais samurais no convés, e os sinais por toda parte diziam que a área era proibida, exceto com a permissão do Senhor Toranaga.

O Erasmus fora recentemente pintado e pichado, os conveses estavam imaculados, o casco calafetado e o cordame reparado. Até o mastro de proa, que fora arrebatado pela tempestade, fora substituído pelo último dos sobressalentes que o navio carregava no porão, e colocado num ângulo perfeito. Todas as cordas estavam caprichosamente enroladas, todos os canhões brilhando sob uma camada protetora de óleo, por trás das portinholas. E o esfarrapado Leão da Inglaterra tremulava orgulhosamente acima de tudo.

— Ó de bordo! — gritou ele alegremente de fora das barreiras, mas não houve resposta. Uma das sentinelas lhe disse que não havia bárbaros a bordo hoje.

— Shikata ga nai — disse Blackthorne. — Domo. — Sofreou a impaciência crescente por ir a bordo imediatamente e sorriu para Mariko. — É como se ele tivesse acabado de sair de uma reforma no estaleiro de Portsmouth, Mariko-san. Olhe os canhões — os rapazes devem ter trabalhado como cães. É lindo, neh? Não posso esperar para ver Baccus e Vinck e os outros. Nunca pensei que o encontraria desse jeito. Jesus Cristo, parece tão bonito, neh?

Mariko observava a ele e não ao navio. Sabia que agora fora esquecida. E substituída.

Não importa, disse a si mesma. Nossa viagem terminou. Naquela manhã haviam chegado ao último dos postos de controle nos arredores de Yedo. Mais uma vez seus papéis de viagem foram examinados. Mais uma vez foram polidamente autorizados a passar, mas dessa vez uma nova guarda de honra os esperava.

— Vão nos levar até o castelo, Anjin-san. O senhor ficará lá, e esta noite devemos nos encontrar com o Senhor Toranaga. — Bom, então há muito tempo. Olhe, Mariko-san, o cais não está a mais de uma milha da praia, neh? Meu navio está lá em algum lugar. Quer perguntar ao Capitão Yoshinaka se podemos ir lá, por favor?

— Ele diz que sente muito mas não tem instruções para fazer isso, Anjin-san. Tem que nos levar ao castelo.

— Por favor, diga-lhe... talvez seja melhor que eu tente. Taicho-san! Okashira, sukoshi no aida watakushi wa ikitai no desu. Watakushi no funega asoko ni arimasu. Capitão, quero ir até lá um instante. Meu navio está lá.

— Iyé, Anjin-san, gomen nasai. Ima...

Mariko ouvira aprovadora e divertida enquanto Blackthorne discutia cortesmente e insistia com firmeza, e depois, relutante, Yoshinaka os permitira fazer um desvio, mas só por um momento, neh? e só porque o Anjin-san alegou o status de hatamoto, o que lhe dava certos direitos inalienáveis, e assinalara que um exame rápido era importante para o Senhor Toranaga, que isso certamente pouparia ao senhor deles um tempo imensamente valioso e era vital para o seu encontro à noite. Sim, o Anjin-san pode olhar um instante, mas, sinto muito, naturalmente é proibido subir ao navio sem papéis assinados pessoalmente pelo Senhor Toranaga, e deve ser apenas por um momento porque somos esperados, sinto muito.

— Domo, Taicho-san — dissera Blackthorne expansivamente, muito satisfeito com a sua compreensão aumentada dos meios corretos de persuadir e com o seu domínio crescente da língua.

A noite e grande parte do dia anterior eles haviam passado numa hospedaria a mais ou menos duas ris ao sul, Yoshinaka permitindo-lhes perder tempo como antes.

Oh, foi uma noite tão adorável, pensou ela.

Houvera tantos dias e noites adoráveis. Tudo perfeito, exceto o primeiro dia depois de partirem de Mishima, quando o Padre Tsukku-san os alcançara de novo e a precária trégua entre os dois homens se rompera furiosamente. A discussão fora repentina, violenta, alimentada pelo incidente com Rodrigues e por excesso de conhaque. Ameaças, contra-ameaças e imprecações e depois o Padre Alvito disparara para Yedo na frente, deixando desastre no seu rastro, a alegria da viagem arruinada.

— Não devemos deixar que isso aconteça, Anjin-san. — Mas aquele homem não tinha o direito...

— Oh, sim, concordo. E naturalmente você tem razão. Mas, por favor, se deixar esse incidente destruir a sua harmonia, estará perdido, e eu também. Por favor, imploro-lhe que seja japonês. Afaste esse incidente — isso é tudo o que ele é, um incidente entre dez mil. Não deve permitir que ele destroce a sua harmonia. Afaste-o para um compartimento.

— Como? Como posso fazer isso? Olhe as minhas mãos. Estou tão furioso que não posso impedi-Ias de tremer!

— Olhe para esta rocha, Anjin-san. Ouça-a crescendo. — O quê?

— Ouça a rocha crescer, Anjin-san. Concentre a mente nisso, na harmonia da rocha. Ouça o kami da rocha. Ouça o meu amor, pela salvação da sua vida. E da minha.

Ele tentara e conseguira um pouco, e no dia seguinte, amigos de novo, amantes de novo, em paz novamente, ela continuou a ensinar, tentando moldá-lo — sem que ele soubesse que estava sendo moldado — à Cerca Octupla, construindo paredes interiores e defesas que eram o único caminho que o levaria à harmonia. E à sobrevivência.

— Estou contente de que o padre tenha ido embora e não vá voltar, Anjin-san.

— Sim.

— Teria sido melhor se não tivesse havido discussão alguma. Tenho medo por você.

— Nada está diferente. Ele sempre foi meu inimigo, sempre será. Karma é karma. Mas não se esqueça de que não existe nada além de nós. Ainda não. Nem ele nem ninguém. Não até Yedo. Neh?

— Sim. Você é muito sábio. E tem razão de novo. Estou muito feliz de estar com você...

A estrada de Mishima deixou as terras planas rapidamente e se retorceu montanha acima até o passo de Hakoné. Descansaram ali durante dois dias no alto das montanhas, alegres e contentes, o monte Fuji glorioso ao nascer do sol e ao crepúsculo, o cume obscurecido por uma grinalda de nuvens.

— A montanha é sempre assim?

— Sim, Anjin-san, quase sempre encoberta. Mas isso faz a vista de Fuji-san, clara e limpa, tão mais admirável, neh? Pode-se subir até o topo, se se quiser.

— Vamos fazer isso agora!

— Não agora, Anjin-san. Um dia. Temos que deixar alguma coisa para o futuro, neh? Escalaremos o Fuji-san no outono... Houve sempre hospedarias bonitas e privadas ao longo das planícies do Kwanto. E sempre rios e riachos e regatos para cruzar, o mar à direita agora. Sua expedição coleara em direção norte ao longo da movimentada e alvoroçada Tokaido, através da maior tigela de arroz do império. As lisas planícies de aluvião eram ricas em água, cada polegada cultivada. O ar era quente e úmido agora, denso com o cheiro de esterco humano que os fazendeiros regavam com água e punham a conchadas sobre as plantas com todo o amor e carinho.

— O arroz nos dá alimento para comer, Anjin-san, tatamis para dormir, sandálias com que andar, roupas para nos proteger da chuva e do frio, sapé para manter as nossas casas aquecidas, papel para escrever. Sem arroz não podemos existir.

— Mas o mau cheiro, Mariko-san!