— Esse é um preço pequeno a pagar por tanta generosidade, neh? Faça apenas o que fazemos, abra os olhos, os ouvidos e a mente. Ouça o vento e a chuva, os insetos e os pássaros, escute as plantas crescendo, e, mentalmente, veja as suas gerações seguindo até o fim dos tempos. Se fizer isso, Anjin-san, logo estará aspirando apenas o encanto da vida. Exige prática... mas o senhor se torna muito japonês, neh?
— Ah, obrigado, senhora! Mas devo confessar que estou começando a gostar de arroz. Sim. Certamente prefiro arroz e batatas e, quer saber de outra coisa? Não sinto falta de carne como sentia. Isso não é estranho? Não sinto tanta fome quanto antes.
— Eu sinto mais fome do que nunca. — Ah, eu estava falando de comida. — Ah, eu também ...
A três dias do passo de Hakoné, o período mensal dela começara e ela pedira a ele que tomasse uma das criadas da hospedaria. — Seria prudente, Anjin-san.
— Prefiro não fazer isso, sinto muito.
— Por favor, eu lhe peço. É uma salvaguarda. Uma discrição.
— Já que você me pede, então sim. Mas amanhã, não esta noite. Esta noite vamos dormir em paz.
Sim, pensou Mariko, naquela noite dormimos pacificamente e o amanhecer seguinte foi tão fascinante, que eu me sentei na varanda com Chimmoko e assisti ao nascimento de mais um dia.
— Ah, bom dia, Senhora Toda — dissera Gyoko, curvandose, à sua espera na entrada do jardim. — Um deslumbrante amanhecer, neh?
— Sim, lindo.
— Por favor, posso interrompê-la? Poderia lhe falar em particular... a sós? Sobre um assunto de negócios.
— Naturalmente. — Mariko deixara a varanda, não desejando perturbar o sono do Anjin-san. Mandara Chimmoko buscar chá e ordenara que se colocassem mantas sobre o gramado, perto da pequena queda d'água.
Quando foi correto começar e elas ficaram sozinhas, Gyoko disse: — Estive considerando de que modo eu poderia ser de mais valia para Toranaga-sama.
— Os mil kokus seriam mais que generosos. — Três segredos poderiam ser mais.
— Um, talvez, Gyoko-san, se fosse o segredo correto.
— O Anjin-san é um bom homem, neh? O futuro dele deve ser ajudado também, neh?
— O Anjin-san tem o seu próprio karma — replicara ela, sabendo que chegara o momento de negociar, perguntando-se o que devia conceder, se é que ousaria conceder alguma coisa. — Estávamos falando sobre o Senhor Toranaga, neh? Ou um dos segredos é sobre o Anjin-san?
— Oh, não, senhora. É como a senhora diz. O Anjin-san tem o seu próprio karma, assim como estou certa de que ele tem seus próprios segredos. Só me ocorreu que o Anjin-san é um dos vassalos favoritos do Senhor Toranaga, portanto qualquer proteção que o nosso senhor tenha em certo sentido ajuda a seus vassalos, neh?
— Concordo. Naturalmente é dever dos vassalos transmitir qualquer informação que pudesse ajudar o seu senhor.
— É verdade, senhora, muito verdade. Ah, é uma honra tão grande para mim servi-Ia. Honto. Posso dizer-lhe de como fiquei honrada em ser autorizada a viajar com a senhora, conversar com a senhora, comer e rir com a senhora, e ocasionalmente agir como uma modesta conselheira, por menos à altura que eu seja, pelo que peço desculpas. E finalmente dizer que a sua sabedoria é tão grande quanto a sua beleza, e a sua bravura tão vasta quanto a sua posição.
— Ah, Gyoko-san, por favor, desculpe-me, a senhora é muito gentil, muito atenciosa. Sou apenas a esposa de um dos generais do meu senhor. Estava dizendo? Quatro segredos?
— Três, senhora. Eu estava me perguntando se a senhora intercederia junto ao Senhor Toranaga por mim. Seria impensável que eu sussurrasse diretamente a ele o que sei ser verdadeiro. Seria muita falta de educação, porque eu não saberia as palavras certas a escolher, ou como colocar a informação diante dele, e em qualquer caso, num assunto de qualquer importância, o nosso costume de usar um intermediário é tão melhor, neh?
— Kiku-san não seria melhor escolha? Não tenho como saber quando serei chamada ou dentro de quanto tempo terei uma audiência com ele, ou mesmo se ele estaria interessado em ouvir qualquer coisa que eu pudesse ter para lhe dizer.
— Por favor, desculpe-me, senhora, mas a senhora seria extraordinariamente melhor. Poderia julgar o valor da informação, ela não. A senhora possui o ouvido, ela, outras coisas.
— Não sou conselheira, Gyoko-san. Nem avaliadora. — Eu diria que eles valem mil kokus.
— So desu ka?
Gyoko certificou-se perfeitamente de que ninguém estava ouvindo, depois contou a Mariko o que o padre cristão renegado murmurara que o Senhor Onoshi lhe havia sussurrado ao confessionário, e que ele relatara ao tio, o Senhor Harima; depois o que o segundo cozinheiro de Omi ouvira da conspiração de Omi e sua mãe contra Yabu; e por último, tudo o que sabia sobre Zataki, sua aparente luxúria pela Senhora Ochiba, e sobre Ishido e a Senhora Ochiba.
Mariko ouvira atentamente sem fazer comentário — embora romper o sigilo do confessionário a chocasse grandemente —, a mente dançando ante o enxame de possibilidades que aquelas informações desvendavam. Depois interrogou mais uma vez Gyoko com cuidado, para ter certeza de que entendera claramente o que lhe estava sendo dito e gravá-lo completamente na própria memória.
Quando ficou satisfeita, achando que sabia tudo o que Gyoko estava preparada para divulgar no momento — pois, obviamente, uma negociante tão astuta sempre conservaria muito de reserva —, mandou buscar chá.
Serviu pessoalmente a xícara de Gyoko, e tomaram o chá com gravidade afetada. Ambas cautelosas, ambas confiantes.
— Não tenho meio de saber quão valiosa é essa informação, Gyoko-san.
— Naturalmente, Mariko-sama.
— Imagino que essa informação — e os mil kokus — agradariam grandemente ao Senhor Toranaga.
Gyoko engoliu a obscenidade que lhe relampejou por trás dos lábios. Esperara uma redução substancial no lance inicial. — Desculpe, mas o dinheiro não tem significado para tal daimio, embora seja uma herança para uma camponesa como eu — mil kokus me tornam uma ancestral, neh? Sempre se deve saber o que se é, Senhora Toda. Neh? — Seu tom de voz tinha farpas.
— Sim. É bom saber o que a senhora é, e quem é, Gyokosan. Esse é um dos raros dons que a mulher tem sobre o homem. Uma mulher sempre sabe. Felizmente eu sei o que sou. Oh, sim, muito. Por favor, vá ao ponto.
Gyoko não vacilou sob a ameaça, mas revidou o ataque com uma concisão descortês correspondente. — O ponto é que ambas conhecemos a vida e compreendemos a morte, e ambas acreditamos que o tratamento no inferno e em qualquer outro lugar depende de dinheiro.
— Acreditamos?
— Sim. Sinto muito, acho que mil kokus é demais. — A morte é preferível?
— Já escrevi o meu poema de morte, senhora: "Quando eu morrer, não me queimem, não me enterrem, simplesmente atirem meu corpo num campo para cevar algum cão de barriga vazia".
— Isso poderia ser providenciado. Facilmente.
— Sim. Mas tenho ouvidos aguçados e uma língua segura, o que poderia ser mais importante.
Mariko serviu mais chá. Para si mesma. — Desculpe, tem mesmo?
— Oh, sim, muito. Por favor, desculpe-me, mas não é ostentação dizer que fui bem treinada, senhora, nisso e em muitas outras coisas. Não tenho medo de morrer. Escrevi o meu testamento, e detalhei instruções aos meus parentes para o caso de uma morte repentina. Fiz as pazes com os deuses há muito tempo, e quarenta dias depois de morrer sei que renascerei. Se não renascer — a mulher deu de ombros —, então serei um kami. — O leque dela estava parado. — Portanto posso me permitir aspirar à lua, neh? Por favor, desculpe-me por mencionar isto, mas sou como a senhora: não temo nada. Mas, ao contrário da senhora nesta vida, não tenho nada a perder.
— Tanta conversa sobre coisas más, Gyoko-san, numa manhã tão agradável. Está agradável, neh? — Mariko preparou-se para cravar as presas. — Eu preferiria muitíssimo vê-Ia viva, vivendo até uma velhice honrada, um dos sustentáculos da sua nova corporação. Ah, essa foi uma idéia de muita sensibilidade. Muito boa, Gyoko-san.