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— Obrigada, senhora. Eu igualmente gostaria de vê-Ia segura e feliz e prosperando do modo como a senhora quisesse. Com todos os brinquedos e honras de que necessitasse.

— Brinquedos? — repetiu Mariko, perigosa agora.

Gyoko era como um cão de faro treinado. — Sou apenas uma camponesa, senhora, por isso não saberia que honras a senhora desejaria, que brinquedos a agradariam. Nem ao seu filho.

Sem que nenhuma das duas notasse, o delgado cabo de madeira do leque de Mariko quebrou-se entre os seus dedos. A brisa morrera. Agora o ar quente e úmido pairava sobre o jardim que dava para um mar sem ondas. Moscas enxamearam e pousaram e enxamearam de novo.

— De que... que honras ou brinquedos a senhora gostaria? Para si mesma? — Mariko encarou-a com uma fascinação malévola, claramente consciente agora de que precisava destruí-Ia ou seu filho pereceria.

— Nada para mim mesma. O Senhor Toranaga concedeu-me honras e riquezas para além dos meus sonhos. Mas para o meu filho? Ah, sim, ele poderia ter uma mão que o auxiliasse. — Que ajuda?

— Duas espadas. — Impossível.

— Eu sei, senhora. Sinto muito. Tão fácil de conceder e no entanto tão impossível. A guerra se aproxima. Muitos serão necessários para combater.

— Não haverá guerra agora. O Senhor Toranaga irá a Osaka.

— Duas espadas. Não é pedir demais.

— Isso é impossível. Sinto muito, não cabe a mim dar isso.

— Sinto muito, mas não pedi que a senhora concedesse coisa alguma. Mas essa é a única coisa que me agradaria. Sim. Nada mais. — Um fio de suor escorreu do rosto ao colo de Gyoko. — Eu gostaria de oferecer ao Senhor Toranaga quinhentos kokus do preço do contrato, como símbolo da minha estima nestes tempos difíceis. Os outros quinhentos irão para o meu filho. Um samurai necessita de um legado, neh?

— Está condenando seu filho à morte. Todos os samurais Toranaga morrerão ou se tornarão ronins muito em breve.

— Karma. Meu filho já tem filhos, senhora. Eles contarão aos próprios filhos que um dia fomos samurais. Isso é tudo o que importa, neh?

— Não cabe a mim dar isso.

— É verdade. Sinto muito. Mas isso é tudo o que me satisfaria.

Irritado, Toranaga meneou a cabeça. — A informação dela é interessante, talvez, mas não vale que eu lhe faça o filho samurai.

— Ela parece ser uma vassala leal, senhor — replicou Mariko. — Disse que ficaria honrada se o senhor deduzisse mais quinhentos kokus do preço do contrato para alguns samurais necessitados.

— Isso não é generosidade. Não, em absoluto. É meramente culpa pelo preço extorsivo que pediu originalmente.

— Talvez valha a pena considerar, senhor. A idéia dela sobre a corporação, sobre as gueixas e as novas classes de cortesãs terá efeitos de longo alcance, neh? Talvez não houvesse mal algum.

— Não concordo. Não. Por que deveria ela ser recompensada? Não há razão para conceder-lhe essa honra. Ridículo! Ela certamente não lhe pediu isso, pediu?

— Teria sido mais que um pouco impertinente da parte dela fazer isso, senhor. Fiz a sugestão porque acredito que ela poderia lhe ser muito valiosa.

— É melhor que ela seja mais valiosa. Os segredos provavelmente também são mentiras. Atualmente ela não tem nada além de mentiras. — Toranaga tocou um sininho e um escudeiro apareceu imediatamente à porta oposta.

— Senhor?

— Onde está a cortesã Kiku?

— Nos seus aposentos, senhor.

— A mulher Gyoko está com ela? — Sim, senhor.

— Ponha as duas para fora do castelo. Imediatamente! Mande-as de volta para... Não, aloje-as numa hospedaria, numa hospedaria de terceira classe, e diga-lhes que esperem lá até que eu mande chamá-las. — Quando o homem sumiu, Toranaga disse irritado: — Nojento! Alcoviteiros querendo ser samurais? Camponeses imundos, não conhecem mais o seu lugar?

Mariko observou-o sentado sobre a almofada, o leque agitando-se irregularmente. Estava chocada com a mudança nele. Abatimento, irritação e rabugice onde antes houvera sempre uma animada confiança. Ouvira os segredos com interesse, mas não com a animação que ela esperara. Pobre homem, pensou ela com pena, desistiu. De que lhe serve qualquer informação? Talvez ele seja sábio em pôr de lado as coisas do mundo e se preparar para o desconhecido. Seria melhor que você também fizesse isso, pensou ela, morrendo internamente um pouquinho mais. Sim, mas você não pode, ainda não, de algum modo você tem que proteger o seu filho.

Estavam no sexto andar do alto torreão fortificado e as janelas davam para a cidade inteira, abrangendo três pontos cardeais. O pôr-do-sol estava escuro aquela noite, um filete de lua baixo no horizonte, o ar úmido e sufocante, embora ali, quase cem pés acima das muralhas do castelo, o aposento apanhasse cada sopro de vento. A sala era baixa e fortificada, e tomava metade do andar inteiro, com outras salas adiante.

Toranaga pegou o despacho que Hiromatsu lhe enviara por Mariko e leu-o de novo. Ela notou que a mão dele tremia. — Para que ele quer vir a Yedo? — Com impaciência, Toranaga atirou o pergaminho para um lado.

— Não sei, senhor, sinto muito. Só me pediu que lhe entregasse esse despacho.

— Você conversou com o renegado cristão?

— Não, senhor. Yoshinaka-san disse que o senhor tinha dado ordens para que ninguém fizesse isso.

— Como esteve Yoshinaka durante a viagem?

— Muito capaz, senhor — disse ela, pacientemente respondendo à pergunta pela segunda vez. — Muito eficiente. Protegeu-nos muito bem e trouxe-nos exatamente no prazo.

— Por que o Padre Tsukku-san não voltou com vocês o caminho todo?

— Na estrada de Mishima, senhor, ele e o Anjin-san discutiram — disse-lhe Mariko, não sabendo o que o Padre Alvito já poderia ter contado a Toranaga, se, de fato, Toranaga já tivesse mandado chamá-lo. — O padre resolveu continuar a viagem sozinho.

— Sobre o que foi a discussão?

— Parcialmente sobre mim, minha alma, senhor. Na maior parte por causa da inimizade religiosa deles e por causa da guerra entre seus governantes.

— Quem começou?

— Os dois são igualmente responsáveis. Começou por causa de um frasco de bebida. — Mariko contou-lhe o que se passara com Rodrigues, depois continuou: — O Tsukku-san havia trazido uma segunda garrafa consigo, desejando, conforme disse, interceder por Rodrigues-san, mas o Anjin-san disse, chocante e abruptamente, que não queria nenhuma "bebida papista", preferia saquê, e que não confiava em padres. O... o santo padre enfureceu-se, foi abrupto de modo igualmente chocante, dizendo que nunca lidara com veneno, nunca o faria, e nunca poderia desculpar uma coisa dessas.

— Ah, veneno? Eles usam veneno como arma?

— O Anjin-san me disse que alguns deles sim, senhor. Isso levou à palavras mais violentas e depois se puseram a se agredir mutuamente sobre religião, a minha alma, católicos e protestantes... Saí para procurar Yoshinaka-san tão rápido quanto pude, e ele interrompeu a discussão.

— Os bárbaros só causam problemas. Os cristãos só problemas. Neh?

Ela não lhe respondeu. A petulância dele a perturbava. Não era nada do seu feitio e parecia não haver razão para tal colapso do seu lendário autocontrole. Talvez o choque de ser derrotado seja demais para ele, pensou ela. Sem ele estamos todos liquidados, meu filho está liquidado, e o Kwanto logo estará em outras mãos. A melancolia de Toranaga a estava contagiando. Ela notara nas ruas e no castelo a mortalha que parecia pairar sobre a cidade inteira — uma cidade que era famosa pela sua alegria, impudente bom humor e encanto com a vida.

— Nasci no ano em que os primeiros cristãos chegaram e desde então eles não pararam de atormentar o país — disse Toranaga. — Durante cinqüenta e oito anos, causam nada além de problemas. Neh?