— Sinto muito que eles o tenham ofendido, senhor. Há mais alguma coisa? Com a sua perm...
— Sente-se. Ainda não terminei. — Toranaga tocou o sino de novo. A porta se abriu. — Mande Buntaro-san entrar. Buntaro avançou. De cara fechada, ajoelhou-se e curvou-se. Ela se curvou para ele estarrecida, pois ele não fizera menção de tê-la notado.
Pouco antes Buntaro encontrara o seu cortejo ao portão do castelo. Após uma breve saudação, dissera-lhe que devia se apresentar ao Senhor Toranaga imediatamente. O Anjin-san seria chamado mais tarde.
— Buntaro-san, pediu para me ver na presença de sua esposa o mais cedo possível?
— Sim, senhor. — O que deseja?
— Humildemente peço-lhe permissão para cortar a cabeça do Anjin-san — disse Buntaro.
— Por quê?
— Por favor, desculpe-me, mas eu... eu não gosto do modo como ele olha para a minha mulher. Eu queria... queria dizer isso diante dela, pela primeira vez, na sua frente. Além disso, ele me insultou em Anjiro e não posso mais viver com essa vergonha. Toranaga deu uma olhada em Mariko, que parecia ter congelado no tempo. — Acusa-a de encorajá-lo?
— Eu ... eu peço permissão para tirar-lhe a cabeça. — Acusa-a de encorajá-lo? Você a acusa? Responda à pergunta!
— Por favor, desculpe-me, senhor, mas se eu achasse isso, seria forçado pelo dever a tirar a cabeça dela imediatamente — respondeu Buntaro como uma pedra, de olhos nos tatamis. — O bárbaro é uma constante irritação à minha harmonia. Acredito que ele seja um aborrecimento ao senhor. Deixe-me tirar-lhe a cabeça, peço-lhe. — Levantou os olhos, as pesadas mandíbulas por barbear, os olhos profundamente ensombrecidos. — Ou deixe-me tomar minha esposa agora e esta noite iremos antes do senhor... para preparar o caminho.
— O que diz a isso, Mariko-san?
— Ele é meu marido. Qualquer coisa que decida é o que eu farei — a menos que o senhor decida em contrário. Esse é o meu dever.
Toranaga olhou do homem para a mulher. Depois sua voz se endureceu, e por um instante foi como o Toranaga de antigamente. — Mariko-san, você partirá dentro de três dias para Osaka. Vai preparar esse caminho para mim e me esperará lá. Buntaro-san, você me acompanhará como comandante da minha escolta quando eu partir. Depois de ter agido como meu auxiliar, você ou um dos seus homens pode fazer o mesmo com o Anjin-san — com ou sem a aprovação dele.
Buntaro pigarreou. — Senhor, por favor, ordene Céu...
— Cale-se! Não sabe se comportar? Já lhe disse não três vezes! Na próxima vez em que tiver a impertinência de oferecer um conselho indesejável, você rasgará o ventre num monturo de Yedo!
A cabeça de Buntaro tocou os tatamis. — Peço desculpas, senhor. Peço desculpas pela minha impertinência.
Mariko ficou igualmente estarrecida com a falta de educação de Toranaga, a vergonhosa explosão, e também se curvou profundamente para ocultar o próprio embaraço. Pouco depois Toranaga disse: — Por favor, desculpem-me o mau humor. Seu pedido está concedido, Buntaro-san, mas só depois de ter agido como meu assistente.
— Obrigado, senhor.
— Ordenei que vocês fizessem as pazes. Fizeram? Buntaro assentiu secamente. Mariko também.
— Bom. Mariko-san, você voltará à noite, à hora do Cão. Pode ir agora. Ela se curvou e saiu.
Toranaga encarou Buntaro. — Bem?
— É... é impensável que ela me traísse, senhor — respondeu Buntaro sombriamente.
— Concordo. — Toranaga afastou uma mosca com o leque, parecendo muito cansado. — Bem, você terá a cabeça do Anjin-san dentro em breve. Preciso que ela esteja sobre os ombros dele um pouco mais.
— Obrigado, senhor. Desculpe-me de novo por tê-lo irritado. — Estes tempos são irritantes. Tempos abomináveis. — Toranaga inclinou-se para a frente. — Ouça, quero que você vá a Mishima imediatamente para render seu pai por alguns dias. Ele pede permissão para vir aqui consultar-se comigo. Não sei o que... De qualquer modo, preciso ter alguém em Mishima em quem eu possa confiar. Parta por favor ao amanhecer, mas via Takato.
— Senhor? — Buntaro viu que Toranaga conservava a calma apenas com um enorme esforço, e apesar da própria vontade a voz tremia.
— Tenho uma mensagem particular para minha mãe em Takato. Você não deve dizer a ninguém que irá lá. Mas assim que estiver longe da cidade, rume para o norte.
— Compreendo.
— O Senhor Zataki pode impedi-lo de entregar a mensagem, pode tentar impedir. Você deve entregá-la apenas nas mãos dela. Compreendeu? Apenas a ela. Pegue vinte homens e parta a galope. Mandarei um pombo-correio para pedir um salvo-conduto a ele.
— Sua mensagem será oral ou escrita, senhor? — Escrita.
— E se eu não conseguir entregá-la?
— Tem que entregá-la, claro que tem. É por isso que estou escolhendo você! Mas... se for traído como eu fui... se for traído, destrua-a antes de se suicidar. No momento em que eu receber essa má notícia, a cabeça do Anjin-san lhe rolará dos ombros. E se ... e Mariko-san? E a sua esposa, se alguma coisa der errado?
— Por favor, mate-a, senhor, antes de morrer. Eu ficaria honrado se... Ela merece um assistente digno.
— Ela não morrerá desonrosamente, você tem a minha promessa. Providenciarei isso. Pessoalmente. Agora, por favor, volte ao amanhecer para levar a mensagem. Não me falhe. Apenas nas mãos de minha mãe.
Buntaro agradeceu-lhe de novo e saiu, envergonhado pela demonstração de medo de Toranaga.
Sozinho agora, Toranaga puxou um lenço e enxugou o suor do rosto. Seus dedos tremiam. Tentou controlá-los, mas não conseguiu. Exigira-lhe toda a força continuar se comportando como o simplório estúpido, esconder a desmedida excitação com os segredos, os quais, fantasticamente, prometiam a longamente ansiada prorrogação.
— Uma prorrogação possível, apenas possível... se for verdade — disse ele alto, quase incapaz de pensar, a surpreendentemente bem-vinda informação de Gyoko que Mariko trouxera ainda a lhe guinchar no cérebro.
Ochiba, exultava ele... então essa hárpia é a isca para trazer o meu irmão aos trambolhões do seu ninho na montanha. Meu irmão quer Ochiba. Mas agora é igualmente óbvio que ele quer mais do que ela, e mais do que apenas o Kwanto. Quer o reino. Ele detesta Ishido, tem aversão aos cristãos, e agora está doente de ciúme devido à notória luxúria de Ishido por Ochiba. Por isso ele vai se desavir com Ishido, Kiyama e Onoshi. Porque o que o meu traiçoeiro irmão realmente deseja é tornar-se xógum. É Minowara, com toda a linhagem necessária, toda a ambição, mas não o mandato. Nem o Kwanto. Primeiro tem que conseguir o Kwanto, para depois conseguir o resto.
Toranaga esfregou as mãos de alegria ante as maravilhosas possibilidades novas que esse conhecimento recente lhe dava contra o irmão.
E Onoshi, o leproso! Uma gota de mel no ouvido de Kiyama no momento exato, pensou ele, o teor da traição do renegado alterado um pouco, melhorado modestamente, e Kiyama poderia reunir suas legiões e imediatamente cair a ferro e fogo em cima de Onoshi. "Gyoko tem toda a certeza, senhor. O Irmão José disse que o Senhor Onoshi sussurrou no confessionário que havia feito um acordo secreto com Ishido contra um daimio cristão amigo, e queria absolvição. O acordo solenemente combinava que, em troca de apoio agora, Ishido prometia que, no dia em que o senhor estiver morto, esse cristão amigo seria impedido por traição e convidado a partir para o Vazio; no mesmo dia, à força se necessário, o filho e herdeiro de Onoshi herdaria todas as terras. O nome do cristão não foi pronunciado, senhor."
Kiyama ou Harima de Nagasaki? perguntou-se Toranaga. Não tem importância. Para mim deve ser Kiyama.
Levantou-se trêmulo, apesar do seu júbilo, dirigiu-se a uma das janelas e apoiou-se pesadamente ao peitoril de madeira. Esquadrinhou a lua e o céu além. As estrelas estavam baças. Nuvens de chuva se formavam.
— Buda, todos os deuses, quaisquer deuses, deixem meu irmão morder a isca — e façam os cochichos daquela mulher serem verdadeiros!