Nenhuma estrela cadente apareceu para mostrar que os deuses haviam tomado conhecimento da mensagem. Nenhum vento surgiu, nenhuma nuvem súbita obscureceu a lua crescente. Mesmo que tivesse havido um sinal celeste, ele o teria ignorado como coincidência.
Seja paciente. Considere apenas os fatos. Sente-se e pense, disse a si mesmo.
Sabia que o esforço estava começando a agir sobre ele, mas era vital que nenhum dos seus íntimos ou vassalos — portanto nenhum da legião de imbecis de língua frouxa ou espiões em Yedo — suspeitasse um instante que ele estava apenas fingindo capitulação e representando o papel de um homem derrotado. Em Yokosé ele percebera de imediato que aceitar o segundo pergaminho do irmão era o seu dobre de morte. Resolvera que a sua única e minúscula chance de sobrevivência era convencer a todo mundo, até a si mesmo, que aceitara totalmente a derrota, embora na realidade isso fosse uma dissimulação para ganhar tempo, continuando o esquema que usara a vida toda, de negociação, adiamento, e aparente retirada, sempre esperando pacientemente até que uma fenda na armadura aparecesse acima de uma jugular, depois cravando a faca violentamente, sem hesitação.
Desde Yokosé ele esperava, ao longo de dias e noites de vigília solitária, cada dia mais difícil de suportar. Nada de caça ou riso, nada de conspiração, planejamento, natação, gracejos, dança ou canto nas peças nó que o encantaram a vida toda. Apenas o mesmo papel solitário, o mais difícil da sua vida: melancolia, rendição, indecisão, aparente desamparo, com semi-inanição auto-imposta.
Para ajudar a passar o tempo, continuara a burilar o Legado. Tratava-se de uma série de instruções secretas particulares aos seus sucessores, que ele vinha formulando ao longo dos anos, sobre o melhor modo de governar depois dele. Sudara já havia jurado conformar-se ao Legado, assim como cada herdeiro seria solicitado a fazer. Desse modo o futuro do clã estaria garantido — pode ser garantido, lembrou-se Toranaga enquanto trocava uma palavra ou acrescentava uma frase ou eliminava um parágrafo, desde que eu escape desta armadilha atual.
O Legado começava assim: "O dever do senhor de uma província é dar paz e segurança ao povo e não consiste em fazer resplandecer os seus ancestrais ou trabalhar para a prosperidade dos seus descendentes..."
Uma das máximas era: "Lembre-se de que a fortuna e o infortúnio devem ser deixados ao céu e à lei natural. Não devem ser comprados por oração ou qualquer ardil astucioso a ser pensado por qualquer homem ou santo por atribuição própria". Toranaga eliminou "... ou santo por atribuição própria" e mudou a frase de modo a terminar em "...por qualquer homem que seja".
Normalmente ele apreciaria esforçar a mente para escrever clara e sucintamente, mas durante os longos dias e noites fora-lhe necessária toda a autodisciplina para continuar a desempenhar esse papel tão estranho.
O fato de ter tido êxito lhe agradava, mas como as pessoas podiam ser tão ingênuas?
Agradeça aos deuses por elas o serem — respondeu a si mesmo pela milionésima vez. Aceitando a "derrota" você evitou a guerra duas vezes. Ainda está encurralado, mas agora, finalmen te, a sua paciência trouxe a recompensa e você tem uma nova chance.
Talvez você tenha uma chance, corrigiu-se ele. A menos que os segredos sejam falsos e dados por um inimigo para emaranhar você ainda mais, desanimava.
O peito começou a doer, ele se sentiu fraco e com vertigem, então sentou e respirou fundo, conforme seus professores zen lhe haviam ensinado anos atrás. "Dez fundos, dez lentos, dez fundos, dez lentos, envie a mente para o Vazio. Não há passado nem frio, dor nem alegria — do nada, para o futuro, calor nada..."
Logo começou a pensar com clareza, guio-se para a sua mesa e começou a escrever. Uma carta que agisse como intermediária entre ele e o meio irmão, e apresentasse uma oferta para o futuro do clã. Primeiro solicitava ao irmão que considerasse um casamento com a Senhora Ochiba: ... claro que seria impensável que eu fizesse isso, irmão. Muitos daimios ficariam enfurecidos com a minha ‘ambição exagerada'. Mas tal ligação com você consolidaria a paz do reino, e confirmaria a sucessão de Yaemon — ninguém duvida da sua lealdade, embora alguns, erroneamente, duvidem da minha. Você certamente poderia encontrar uma esposa mais conveniente, mas ela dificilmente conseguiria encontrar um marido melhor. Uma vez que os traidores de Sua Alteza Imperial sejam eliminados, e eu reassuma o meu legítimo lugar de presidente do conselho de regentes, convidarei o Filho do Céu a exigir o casamento, se você concordar em assumir tal encargo. Sinceramente penso que esse sacrifício é o único meio de podermos ambos assegurar a sucessão e cumprir o juramento que fizemos ao táicum. Em segundo lugar, ficam-lhe oferecidos todos os domínios dos traidores cristãos Kiyama e Onoshi, que atualmente conspiram, com os padres bárbaros, uma guerra traiçoeira contra todos os daimios não-cristãos, apoiados por uma invasão de bárbaros armados com mosquetes, como fizeram antes contra o nosso suserano, o taícurn. Depois, ficam-lhe oferecidas todas as terras de quaisquer outros cristãos de Kyushu que se alinhem ao lado do traidor Ishido contra mim na batalha final. (Você soube que esse camponês arrivista teve a impertinência de fazer saber que, assim que eu estiver morto e ele governar os regentes, planeja dissolver o conselho e se casar com a mãe do herdeiro?)
"Em troca do citado acima, apenas isto, irmão: um tratado de aliança secreto agora, passagem garantida para os meus exércitos através das montanhas de Shinano, um ataque conjunto sob o meu comando a Ishido no momento e do modo que eu escolher. Por último, como medida da minha confiança, mandarei imediatamente o meu filho Sudara, sua esposa, a Senhora Genjiko, e os filhos deles, inclusive o meu único neto, a você em Takato... "
Isto não é obra de um homem derrotado, disse-se Toranaga ao lacrar o pergaminho. Zataki notará imediatamente. Sim, mas agora a armadilha está montada. Shinano está atravessada no meu único caminho, e Zataki é a chave inicial aos planos de Osaka. Será verdade que Zataki deseja Ochiba? Arrisco tanto sobre os supostos sussurros de uma criada de pernas arreganhadas e um homem grunhindo. Gyoko poderia estar mentindo em vantagem própria, aquela sanguessuga impertinente! Samurai? Então essa é a verdadeira chave para lhe destrancar todos os segredos.
Ela deve ter prova de Mariko com o Anjin-san. Porque outro motivo Mariko me faria uma solicitação assim? Toda-Mariko e o bárbaro! O bárbaro e Buntaro! Iiiiih, a vida é estranha.
Outra pontada no coração alquebrou-o. Após um momento, escreveu a mensagem para o pombo-correio e subiu com dificuldade os degraus até o pombal. Cuidadosamente selecionou um pombo de Takato num dos muitos cestos e introduziu o minúsculo cilindro. Depois pôs o pombo sobre o poleiro na caixa aberta que permitiria à ave levantar vôo à primeira luz.
A mensagem pedia à mãe que solicitasse passagem em segurança para Buntaro, que levava um importante despacho para ela e para Zataki. E assinou-a, como à oferta, "Yoshi Toranaga noh-Minowara", ostentando o título pela primeira vez na vida. — Voe no rumo correto, avezinha — disse ele, acariciando-a com uma pena quebrada. — Você carrega uma herança de dez mil anos.
Mais uma vez seus olhos foram para a cidade lá embaixo. Uma ínfima faixa de luz aparecia no horizonte a oeste. Junto aos embarcadouros, viu os minúsculos archotes que rodeavam o navio bárbaro.
Lá está outra chave, pensou ele, e começou a repensar os três segredos. Sabia que alguma coisa lhe escapara.
— Gostaria que Kiri estivesse aqui — disse à noite.
Mariko estava ajoelhada diante do seu espelho de metal polido. Desviou o olhar do rosto. Nas suas mãos estava a adaga, captando a luz bruxuleante. — Eu deveria usá-la — disse, cheia de pesar. Seus olhos buscaram Nossa Senhora e a Criança no nicho ao lado do belo ramo de flores.