— Sim, senhor, sinto mui...
— Como Anjin-san é hatamoto, não estou zangado. Considerarei, compreende?
— Sim, acho que sim. Obrigado. Por favor, desculpe o meu mal japonês, sinto muito.
— Não fale a ela, Anjin-san, sobre divórcio. Mariko-san nem Buntaro-san. Kinjiru, wakarimasu?
— Sim, senhor. Compreendo. Apenas segredo senhor e eu. Segredo. Obrigado. Por favor desculpe minha rudeza e obrigado pela sua paciência. — Blackthorne curvou-se perfeitamente e, quase como num sonho, saiu. A porta fechou-se atrás dele. No corredor todos o olhavam de modo esquisito.
Quis compartilhar a sua vitória com Mariko. Mas ficou inibido pela serenidade distraída dela e a presença dos guardas. — Desculpe tê-la feito esperar — foi tudo o que disse.
— O prazer foi meu — respondeu ela, de modo igualmente inócuo.
Começaram a descer a escada. Depois, após um lance de degraus, ela disse: — O seu modo simples de falar é estranho, mas absolutamente compreensível, Anjin-san.
— Fiquei perdido muitas vezes. Saber que a senhora estava lá ajudou-me tremendamente.
— Eu não fiz nada.
Continuaram em silêncio, Mariko ligeiramente atrás dele, conforme o costume correto. A cada andar passavam por um cordão de samurais, depois, contornando uma espiral na escada, a cauda do quimono dela prendeu-se nas grades e ela pisou em falso. Ele a segurou, ajudando-a a se firmar, e o súbito toque íntimo agradou aos dois. — Obrigada — disse ela, aturdida, enquanto ele a soltava. Seguiram em frente, muito mais próximos do que já tinham estado aquela noite.
Fora, no adro iluminado de archotes, havia samurais por toda parte. Mais uma vez seus passes foram examinados e depois foram escoltados pelos carregadores de tochas através do portão principal do torreão, ao longo de uma passagem que se enroscava em labirinto, por entre altos muros de pedra com ameias, até o portão seguinte que levava ao fosso e à ponte de madeira. Ao todo havia sete anéis de fossos dentro do conjunto do castelo. Alguns artificiais, alguns adaptados dos riachos e rios que abundavam. Enquanto rumavam para o portão principal, o portão sul, Mariko disse a ele que, quando a fortaleza estivesse concluída, dentro de dois anos, abrigaria cem mil samurais e vinte mil cavalos, com todas as provisões necessárias para um ano.
— Então será a maior do mundo — disse Blackthorne.
— Esse era o plano do Senhor Toranaga. — A voz dela estava grave. — Shikata ga nai, neh? — Finalmente atingiram a última ponte. — Daqui, Anjin-san, pode ver que o castelo é o centro de Yedo, neh? O centro de um entrelaçamento de ruas que se dispõem em ângulos para formar a cidade. Há dez anos havia apenas uma pequena aldeia de pescadores aqui. Agora, quem sabe. Trezentos mil? Duzentos? Quatrocentos? O Senhor Toranaga ainda não contou a sua gente. Mas estão todos aqui apenas com uma finalidade: servir o castelo que protege o porto e as planícies que alimentam os exércitos.
— Nada mais? — perguntou ele.
— Nada.
Não há necessidade de se preocupar, Mariko, nem de parecer tão solene, pensou ele alegremente. Resolvi tudo isso. Toranaga me concederá todas as minhas solicitações.
Do outro lado da Ichi-bashi iluminada por archotes — a Primeira Ponte, que levava à cidade propriamente dita, ela parou. — Devo deixá-lo agora, Anjin-san.
— Quando posso vê-Ia?
— Amanhã. À hora do Bode. Esperarei no adro. — Não posso vê-Ia esta noite? Se eu voltar cedo?
— Não, sinto muito, por favor, desculpe-me. Esta noite não. — Depois se curvou formalmente: — Konbanwa, Anjin-san. Ele se curvou. Como um samurai. Observou-a voltando pela ponte, alguns dos carregadores de archotes indo com ela, insetos esvoaçando em torno dos archotes enfiados em recipientes presos a postes. Logo ela foi engolida pela multidão e pela noite. Então, sentindo crescer a própria animação, deu as costas ao castelo e se pôs em marcha atrás do guia.
CAPÍTULO 48
— Os bárbaros moram ali, Anjin-san — disse o samurai, apontando à frente.
Pouco à vontade, Blackthorne semicerrou os olhos na escuridão, o ar irrespirável e sufocante. — Onde? Aquela casa? Ali? — Sim. Está certo, sinto muito. O senhor está vendo? Havia outra série de cabanas e vielas a cem passos à frente, além da faixa nua de terreno pantanoso e, dominando-as, uma casa grande, vagamente delineada contra o céu de azeviche. Blackthorne olhou em torno um momento para tomar posições aproximadas, usando o leque contra os insetos noturnos. Logo depois de terem passado a Primeira Ponte ele se vira perdido no labirinto.
O caminho levava através de inúmeras ruas e ruelas, inicialmente em direção à praia, seguindo para leste algum tempo, sobre pontes maiores e menores, depois novamente para o norte, acompanhando a margem de outro regato que serpeava através dos arredores da cidade. À medida que se distanciavam do castelo, mais sórdidas se tornavam as ruas, mais pobres as construções. As pessoas eram mais obsequiosas e menos reflexos de luz vinham de trás das shojis. Yedo era uma massa que se espraiava horizontalmente e parecia a Blackthorne ter sido construída de vilas separadas meramente por ruas e riachos.
Ali na extremidade sul-oriental da cidade, o terreno era totalmente pantanoso e o caminho se desmanchava em podridão sob os pés. Durante algum tempo o mau cheiro fora se adensando perceptivelmente, um miasma de algas marinhas, fezes e lama estagnada, e pairando sobre isso um odor agridoce que ele não conseguia identificar, mas que parecia familiar.
— Fede como Billingsgate em maré baixa — resmungou ele, matando outro inseto que lhe pousara no rosto. Sentia o corpo todo pegajoso de suor.
Então ouviu um débil trechinho de um alegre canto marítimo em holandês e todo o seu desconforto foi esquecido. — Será que é Vinck?
Exultante, acelerou o passo na direção do som, com carregadores a lhe iluminar cuidadosamente o caminho e samurais seguindo-o.
Agora, mais próximo, viu que a construção de um andar era parte japonesa, parte européia. Erguia-se sobre pilares e era rodeada de uma alta e tosca cerca de bambu, aparentemente prestes a ruir, muito mais nova do que as cabanas que se amontoavam por perto. Não havia portão na cerca, apenas um buraco. O telhado era de sapé, a porta da frente sólida, as paredes de madeira rústica, e as janelas cobertas com venezianas em estilo holandês. Aqui e ali havia salpicos de luz vinda das fendas. O canto e a troça aumentaram, mas ele ainda não conseguia reconhecer as vozes. As lajes por trás da cerca levavam direto aos degraus da varanda, através de um jardim maltratado. Amarrado com cordas ao portão, um curto mastro de bandeira. Ele parou e o contemplou. Do mastro pendia indiferentemente uma bandeira holandesa, mole e provisória, e o pulso dele se acelerou ao vê-Ia.
A porta da frente estava escancarada. Um raio de luz jorrava para a varanda. Baccus van Nekk, bêbado, cambaleou até a borda do terraço, olhos semicerrados, puxou o codpiece para o lado, e urinou num jato alto e curvo.
— Ahhhhh — murmurou ele, num êxtase suspiroso. — Nada como uma mijada.
— Não é mesmo? — disse Blackthorne, do portão. — Por que você não usa um balde?
— Hein? — Van Nekk piscou, míope, para a escuridão, na direção de Blackthorne, que se erguia com os samurais sob os archotes. — Jesus Deus do paraíso! — Ele segurou as partes com um grunhido e se curvou desajeitadamente só da cintura para cima. — Gomen nasai, samurai-sama. Ichiban gomen nasal a todos os macacos-samas. — Ele se endireitou, forçou um sorriso, e murmurou meio consigo mesmo: — Estou mais bêbado do que imaginei. Pensei que o bastardo filho de uma puta estivesse falando holandês! Gomen nasal, neh? — disse de novo, voltando vacilante para dentro da casa, coçando-se e ajeitando o codpiece às apalpadelas.
— Ei, Baccus, não sabe fazer coisa melhor do que emporcalhar o próprio ninho?