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— O quê? — Van Nekk deu meia-volta abruptamente e olhou para os archotes, desesperadamente tentando enxergar com clareza. — Piloto? — disse, a voz estrangulada. — É o senhor, piloto? Deus amaldiçoe os meus olhos, não consigo enxergar. Piloto, pelo amor de Deus, é o senhor?

Blackthorne riu. O velho amigo parecia tão despido ali, tão imbecil, o pênis pendurado para fora. — Sim, sou eu! — Depois, para os samurais que observavam com desdém mal dissimulado: — Matte kurasai. Esperem por mim, por favor.

— Hai, Anjin-san.

Blackthorne avançou e agora, à luz, pôde ver o lixo espalhado por toda parte no jardim. Com repugnância, tirou os tamancos e subiu correndo os degraus. — Alô; Baccus, está mais gordo do que quando partimos de Rotterdam, neh? — Bateu-lhe cordialmente nos ombros.

— Senhor Jesus Cristo, é o senhor mesmo? — Sim, claro que sou eu.

— Nós o tínhamos dado por morto há muito tempo. — Van Nekk estendeu a mão e tocou Blackthorne para se certificar de que não estava sonhando. — Senhor Jesus, minhas preces foram atendidas. Piloto, o que lhe aconteceu, de onde está vindo? É um milagre! É o senhor mesmo?

— Sim. Agora, por favor, ponha o cod no lugar e vamos entrar — disse Blackthorne, consciente dos seus samurais.

— O quê? Oh! Desculpe, eu... — Van Nekk obedeceu às pressas e lágrimas começaram a lhe escorrer pelas faces. — Oh, Jesus, piloto ... pensei que os demônios do gim estivessem me pregando uma peça de novo. Vamos entrar, mas deixe-me anunciá-lo, hein?

Tomou a dianteira, oscilando um pouco, muito da sua embriaguez já evaporada com a alegria. Blackthorne o seguiu. Van Nekk segurou a porta para que ele passasse, depois gritou por sobre a cantoria roufenha: — Rapazes! Olhem o que o Papai Noel nos trouxe! — Bateu a porta atrás de Blackthorne, para aumentar o efeito.

O silêncio foi instantâneo.

Foi preciso um momento para que os olhos de Blackthorne se acomodassem à luz. O ar fétido quase o sufocou. Viu todos eles a olhá-lo embasbacados como se ele fosse um espectro maligno. Então o encanto se rompeu e houve gritos de boas-vindas e alegria e todo mundo se pôs a abraçá-lo e esmurrá-lo nas costas, todos falando ao mesmo tempo. — Piloto, de onde veio — Tome um drinque — Cristo, é possível — Mijo no meu chapéu, é ótimo vê-lo — Já o tínhamos dado por morto — Não, estamos bem, pelo menos razoavelmente bem — Levante-se da cadeira, sua prostituta, o piloto-sama deve se sentar na melhor cadeira — Ei, grogue, neh, depressa, maldição, depressa! Deus amaldiçoe os meus olhos, saia do meu caminho, quero apertar a mão dele...

Finalmente Vinck gritou: — Um de cada vez, rapazes! Dêem-lhe uma chance! Dêem a cadeira ao piloto e um drinque, pelo amor de Deus! Sim, pensei que ele fosse samurai também...

Alguém empurrou um copo de madeira para a mão de Blackthorne. Ele se sentou na raquítica cadeira e todos ergueram os copos e a enxurrada de perguntas começou de novo.

Blackthorne olhou em torno. A sala estava mobiliada com bancos, algumas cadeiras toscas e mesas, e iluminada por velas e lâmpadas a óleo. No chão imundo, um imenso barril de saquê.

Uma das mesas estava coberta de pratos sujos, com um pernil parcialmente assado e cheio de moscas.

Seis mulheres em andrajos encolhiam-se de joelhos, curvando-se para ele, encostadas à parede.

Seus homens, todos sorridentes, esperavam que ele começasse: Sonk, o cozinheiro; Johann Vinck, imediato de contramestre e atirador-chefe; Salamon, o mudo; Croocq, o menino; Ginsel, o veleiro; Baccus van Nekk, mercador-chefe e tesoureiro, e finalmente Jan Roper, o outro mercador, que estava sentado longe dos outros, com o mesmo sorriso sombrio no rosto magro e tenso. — Onde está o capitão-mor? — perguntou Blackthorne.

— Morreu, piloto, morreu... — responderam seis vozes, uma sobrepondo-se à outra, confundindo o relato até que Blackthorne levantasse a mão. — Baccus?

— Ele morreu, piloto. Não chegou a sair do buraco. Lembra-se de que ele estava doente, hein? Depois que levaram o senhor embora, bem, naquela noite nós o ouvimos sufocando na escuridão. Não foi, rapazes?

Um coro de "sins" e Van Nekk acrescentou: — Eu estava sentado ao lado dele, piloto. Ele estava tentando chegar até a água, mas não havia água, e ele tinha falta de ar e gemia. Não tenho muita certeza sobre a hora, estávamos todos com medo da morte, mas ele acabou se asfixiando e depois, bem... ouvimos o estertor da morte. Foi péssimo, piloto.

— Foi terrível, sim — acrescentou Jan Roper. — Mas foi castigo de Deus.

Blackthorne olhou de um a um. — Alguém o acertou? Para dar-lhe sossego?

— Não... não, oh, não — respondeu Van Nekk. — Ele simplesmente rebentou. Foi deixado no poço com o outro, o japona, lembra-se dele, o que tentou se afogar no balde de mijo? Depois o Senhor Omi mandou tirarem o corpo de Spillbergen de lá e eles o queimaram. Mas aquele outro pobre sodomita foi deixado lá embaixo. O Senhor Omi simplesmente lhe deu uma faca, ele rasgou a barriga e taparam o poço. Lembra-se dele, piloto?

— Sim. E Maetsukker?

— É melhor que você conte isso, Vinck.

— O pequeno Cara de Rato apodreceu, piloto — começou Vinck, e os outros começaram a gritar detalhes e contar a história até que Vinck berrou: — Baccus pediu a mim, por Cristo! Vocês todos terão a sua vez!

As vozes morreram e Sonk disse, solícito: — Conte, Johann. — Piloto, foi o braço dele que começou a apodrecer. Ele se cortou na luta, lembra-se da luta em que o senhor ficou sem sentidos? Jesus Cristo, parece que foi há tanto tempo! De qualquer modo, o braço dele supurou. Sangrei-o no dia seguinte, no outro, aí ele começou a ficar preto. Eu lhe disse que seria melhor que eu o lancetasse ou o braço todo teria que ser tirado, disse-lhe dúzias de vezes, todos nós dissemos, mas ele não concordou. No quinto dia o ferimento estava cheirando mal. Nós o seguramos e eu amputei a maior parte da gangrena mas não adiantou nada. Eu sabia que não ia adiantar, mas alguns de nós achamos que valia a pena tentar. Esse médico amarelo bastardo veio algumas vezes, mas também não pôde fazer nada. Cara de Rato durou um dia ou dois, mas a gangrena estava profunda demais e ele delirou um bocado. Tivemos que amarrá-lo perto do fim.

— Foi isso mesmo, piloto — disse Sonk, coçando-se confortavelmente. — Tivemos que amarrá-lo.

— O que aconteceu ao corpo dele? — perguntou Blackthorne.

— Levaram-no para o alto da colina e queimaram-no, também. Queríamos dar a ele e ao capitão-mor um funeral cristão apropriado, mas não nos deixaram. Simplesmente os queimaram.

Um silêncio invadiu a sala. — O senhor não tocou no seu drinque, piloto!

Blackthorne levou-o aos lábios e provou. O copo estava imundo e ele quase vomitou. A bebida pura queimou-lhe a garganta. O mau cheiro de corpos sem banho e rançosos e de roupa não lavada quase o derrubava.

— Que tal o grogue, piloto? — perguntou Van Nekk. — ótimo, ótimo.

— Conte-lhe, Baccus, vamos!

— Ei! Fiz um alambique, piloto. — Van Nekk estava muito orgulhoso e os outros também sorriam. — Fazemos bebidas aos barris, agora. Arroz, frutas e água, deixamos fermentar, esperamos uma semana mais ou menos, depois, com a ajuda de uma pequena mágica... — O homem redondo riu e se coçou, feliz. — Claro que seria melhor conservá-lo um ano ou mais para amadurecer, mas nós o tomamos mais depressa... — Suas palavras se arrastaram. — Não está gostando?

— Oh, desculpe, está ótimo... ótimo. — Blackthorne viu piolhos no ralo cabelo de Van Nekk.

— E o senhor, piloto? — disse Jan Roper desafiador. — Está ótimo, não está? O que conta?

Outra enxurrada de perguntas, que morreu quando Vinck gritou: — Dêem-lhe uma chance! — Então o homem com rosto coriáceo exclamou: — Cristo, quando o vi em pé à porta, pensei que fosse um dos macacos, verdade... verdade! — Outro coro de anuência e Van Nekk interrompeu: — Ele tem razão. Malditos quimonos imbecis... está parecendo uma mulher, piloto, ou um desses meios homens! Frescos malditos, hein? Muitos japonas são frescos, por Deus! Um andou dando em cima de Croocq... — Houve muita gritaria e troça obscena, depois Van Nekk continuou: — O senhor vai querer suas roupas adequadas, piloto. Ouça, trouxemos a sua roupa para cá. Viemos para Yedo no Erasinus. Rebocaram-no para cá e pudemos trazer nossas roupas para terra, e mais ainda. Trouxemos a sua, deixaram-nos fazer isso, guardá-la para o senhor. Trouxemos uma mala, toda sua roupa de mar. Sonk, vá buscar, hein?