— Claro, mas mais tarde, hein, Baccus? Não quero perder nada.
— Está bem.
O fino sorriso de Jan Roper estava se repuxando. — Espadas e quimanos... como um autêntico pagão! Talvez o senhor agora prefira os modos pagãos, piloto?
— A roupa é fresca, melhor do que a nossa — respondeu Blackthorne, embaraçado. — Eu tinha esquecido que estava vestido de modo diferente. Aconteceram muitas coisas. Esta roupa era a única que eu tinha, de modo que me acostumei a usá-la. Nunca pensei muito sobre ela. Certamente é mais confortável. — Essas espadas são de verdade?
— Sim, claro, por quê?
— Não temos permissão para usar armas. Quaisquer armas! — disse Jan Roper, carrancudo. — Por que o senhor tem? Exatamente como qualquer samurai pagão?
Blackthorne riu brevemente. — Você não mudou, Jan Roper, não é? Mais santarrão do que nunca? Bem, tudo a seu tempo com relação às minhas espadas, mas primeiro a melhor notícia de todas. Ouçam, dentro de um mês ou pouco mais estaremos ao mar de novo.
— Jesus, está falando sério, piloto? — disse Vinck. — Sim.
Houve uma grande explosão de alegria e outra enxurrada de perguntas e respostas. — Eu disse que nós iríamos embora — Eu disse que Deus estava do nosso lado! Deixem-no falar — deixem o piloto falar... — Finalmente Blackthorne levantou a mão.
Apontou para as mulheres, que continuavam de joelhos, imóveis, mais humildes agora, sob a atenção dele. — Quem são elas?
Sonk riu. — As nossas zinhas, piloto. Nossas prostitutas, e baratas, Jesus Cristo, mal custam um caracol por semana. Temos uma casa cheia delas na porta ao lado, e há muitas mais na aldeia.
— São agitadas como arminhos — intrometeu-se Croocq, e Sonk disse: — Ele tem razão, piloto. Claro que são atarracadas e arqueadas, mas têm muito vigor e não têm sífilis. Quer uma, piloto? Temos os nossos próprios beliches, não somos como os macacos, temos todos os nossos beliches e quartos ...
— Experimente a Mary Bunda Grande, piloto, é perfeita para o senhor — disse Croocq.
A voz de Jan Roper sobrepôs-se: — O piloto não quer nenhuma das nossas meretrizes. Ele tem as dele, hein, piloto?
Os rostos reluziram. — É verdade, piloto? Conseguiu mulheres? Ei, conte-nos, hein? Essas macacas são as melhores que jamais existiram, hein?
— Fale-nos das suas zinhas, piloto! — Sonk coçou os piolhos de novo.
— Há muito que contar — disse Blackthorne. — Mas devia ser em particular. Quanto menos ouvidos, melhor, neh? Mandem as mulheres embora, aí podemos conversar em particular.
Vinck brandiu um polegar para elas. — Dêem o fora, hai? As mulheres se curvaram, mastigaram agradecimentos e pedidos de desculpas e saíram apressadas, fechando a porta silenciosamente.
— Primeiro sobre o navio. É inacreditável. Quero lhes agradecer e cumprimentá-los, pelo trabalho todo. Quando chegarmos em casa, vou insistir para que vocês recebam partes triplicadas do prêmio em dinheiro por todo esse trabalho e vai haver um prêmio para além de... — Viu os homens se entreolharem embaraçados. — O que é que há?
Constrangido, Van Nekk disse: — Não fomos nós, piloto. Foram os homens do Rei Toranaga. Eles é que fizeram. Vinck lhes mostrou como, mas nós não fizemos nada.
— O quê?
— Não nos deixaram vez. Nenhum de nós esteve a bordo com exceção de Vinck, que vai até lá uma vez a cada dez dias mais ou menos. Não fizemos nada.
— Ele é o único — disse Sonk. — Johann lhes mostrou. — Mas como você conversa com eles, Johann?
— Um dos samurais fala português e conversamos nessa língua, o suficiente para que um compreenda o outro. Esse samurai, que se chama Sato-sama, ficou encarregado quando chegamos aqui. Perguntou quais de nós eram oficiais ou marinheiros. Dissemos que era Ginsel, mas ele é principalmente atirador, eu e Sonk que...
— Que é o pior cozinheiro de bosta que... — Cale essa boca maldita, Croocq!
— Merda, você não sabe cozinhar em terra, que dirá a bordo, por Deus!
— Por favor, façam silêncio, vocês dois! — disse Blackthorne. — Continue, Johann.
Vinck continuou: — Sato-sama me perguntou o que havia de errado no navio e eu lhe disse que ele precisava ser querenado, raspado e todo consertado. Bem, eu lhe contei tudo o que sabia e eles puseram mãos à obra. Eles o querenaram perfeitamente e limparam os porões, esfregando-os como se fossem a privada de um príncipe — os chefes eram samurais e outros macacos trabalhavam como demônios, centenas de sodomitas. Merda, piloto, o senhor nunca viu trabalhadores como eles!
— Isso é verdade — disse Sonk. — Como demônios!
— Fiz tudo do melhor modo que pude e... Jesus, piloto, acha mesmo que podemos dar o fora?
— Sim, se formos pacientes e se... — Se Deus quiser, piloto. Só então.
— Sim. Talvez você tenha razão — respondeu Blackthorne, pensando: e daí que Roper seja um fanático? Preciso dele... de todos eles. E da ajuda de Deus. — Sim. Precisamos da ajuda de Deus — disse, e voltou-se para Vinck: — Como está a quilha? — Limpa e firme, piloto. Eles a deixaram melhor do que eu imaginei. Esses bastardos são tão espertos quanto quaisquer carpinteiros, construtores navais e cordoeiros da Holanda toda. O cordame está perfeito... tudo.
— Velas?
— Eles fizeram um conjunto de seda, dura como lona. Com um jogo sobressalente. Tiraram as nossas e as copiaram exatamente, piloto. Os canhões estão tão perfeitos quanto possível — todos de volta a bordo, e há pólvora e munição em quantidade. O navio está pronto para zarpar, esta noite, se for necessário. Claro que ele não esteve no mar, por isso não sabemos sobre as velas até enfrentarmos um vendaval, mas eu apostaria a minha vida como as costuras estão tão apertadas quanto quando ele foi lançado ao Zuider Zee pela primeira vez — melhor até, porque os costados já estão experimentados agora, graças a Deus! — Vinck fez uma pausa para tomar fôlego. — Quando zarpamos? — Dentro de um mês. Mais ou menos.
Eles se cutucaram sorrindo de júbilo, e brindaram sonoramente ao piloto e ao navio.
— E quanto à navegação inimiga? Há alguma por aqui? E presas, piloto? — perguntou Ginsel.
— Muitas... para além dos seus sonhos. Estamos todos ricos.
Outro grito de alegria. — Já era tempo.
— Ricos, hein? Vou comprar um castelo para mim.
— Senhor Deus todo-poderoso, quando eu chegar a casa... — Ricos! Urra para o piloto!
— Muitos papistas para matar? Bom — disse Jan Roper brandamente. — Muito bom.
— Qual é o plano, piloto? — perguntou Van Nekk, e todos pararam de falar.
— Falo disso num minuto. Vocês têm guardas? Podem circular livremente, quando têm vontade? Com que freqüência... — Podemos ir a qualquer lugar na área da aldeia — disse Vinck calmamente, talvez numa distância de meia légua ao redor. Mas não podemos ir a Yedo e não...
— Não podemos atravessar a ponte — interrompeu Sonk. — Conte-lhe sobre a ponte, Johann!
— Oh, pelo amor de Deus, eu já estava chegando à ponte, Sonk. Pelo amor de Deus, pare de interromper. Piloto, há uma ponte a cerca de meia légua a sudoeste. Há muitos avisos nela. Só podemos ir até lá. Não podemos ir além. "Kiniiru", por Deus, dizem os samurais. Compreende "kiniiru", piloto?
Blackthorne assentiu e não disse nada.
— À parte isso, podemos ir aonde quisermos. Mas só até as paliçadas. Há paliçadas em toda a volta, a uma meia légua de distância. Senhor Deus... vocês conseguem acreditar, voltar para casa em breve!