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— Conte-lhe sobre o médico, hein, e sobre o ...

— Os samurais mandam um médico de vez em quando, piloto, e temos que tirar a roupa e ele nos examina...

— Sim. Ter um bastardo macaco e pagão olhando para a gente, nu assim, é o suficiente para fazer um homem cagar.

— Com exceção disso, piloto, eles não nos incomodam, a não ser...

— Ei, não se esqueça de que o médico nos deu umas ervas imundas em pó, um "char", que devíamos pôr de infusão em água quente, mas jogamos tudo fora. Quando adoecemos, o bom Johann nos faz uma sangria e ficamos curados.

— Sim — disse Sonk. — Jogamos o "char" fora. — A não ser isso, com exceção do...

— Afora isso temos sorte aqui, piloto, não é como no começo.

— Ele tem razão. No começo...

— Conte-lhe sobre as inspeções, Baccus!

— Eu estava chegando a isso, pelo amor de Deus, tenham paciência, dêem uma chance a alguém. Como posso contar alguma coisa com vocês todos tagarelando? Sirvam-me um drinque! — disse Van Nekk, e continuou: — A cada dez dias alguns samurais vêm aqui, nós nos alinhamos lá fora e eles nos contam. Depois nos dão sacos de arroz e dinheiro, dinheiro de cobre. É o suficiente para tudo, piloto. Trocamos arroz por carne e outras coisas — frutas ou seja o que for. Há de tudo e as mulheres fazem tudo o que queremos. Primeiro nós...

— Mas não foi assim no começo. Conte-lhe sobre isso, Baccus!

Van Nekk sentou-se no chão. — Deus me dê forças!

— Está se sentindo mal, pobre rapaz? — perguntou Sonk, solicitamente. — É melhor não beber mais ou vai ficar com os demônios de novo, hein? Ele fica com os demônios, piloto, uma vez por semana. Nós todos também.

— Você vai ficar quieto enquanto eu falo com o piloto?

— Quem, eu? Eu não disse nada. Não o estou interrompendo. Tome, tome o seu drinque!

— Obrigado, Sonk. Bem, piloto, primeiro eles nos colocaram numa casa a oeste da cidade...

— Ficava lá embaixo, perto dos campos.

— Maldição, então conte você a história, Johann!

— Está bem. Cristo, piloto, foi terrível. Nada de bóia ou bebida e essas malditas casas de papel, é como morar num campo — um homem não pode dar uma mijada ou enfiar o dedo no nariz, nada sem que alguém esteja olhando, hein? Sim, e o barulho mais leve faz os vizinhos caírem em cima da gente, e samurais na varanda, e quem quer esses bastardos por perto, hein? Ficavam brandindo as malditas espadas contra a gente, gritando e chamando, dizendo-nos que ficássemos quietos. Bem, uma noite alguém derrubou uma vela e os macacos caíram todos em cima da gente! Jesus Deus, o senhor devia tê-los ouvido. Vieram fervilhando com baldes de água, doidos, sibilando e curvando-se e praguejando... Foi só uma parede sifilítica que se queimou... Centenas deles se lançaram sobre a casa como baratas. Bastardos! O senhor...

— Acabe logo com isso! — Você quer contar?

— Continue, Johann, não preste atenção nele. É só um cozinheiro cheio de merda.

— O quê?

— Oh, cale a boca! Pelo amor de Deus! — Van Nekk retomou a narrativa mais uma vez. — No dia seguinte, piloto, tocaram-nos de lá e nos puseram em outra casa da área do embarcadouro. Era igualmente ruim. Depois, algumas semanas mais tarde, Johann topou com este lugar. Era o único de nós, naquela época, que tinha autorização para sair, por causa do navio. Iam buscá-lo diariamente e levavam-no de volta ao pôr-do-sol. Ele estava pescando — estamos a apenas algumas centenas de jardas do... é melhor que você conte, Johann.

Blackthorne sentiu uma coceira na perna nua e esfregou-a sem pensar. A irritação piorou. Então viu a protuberância sarapintada de uma picada de pulga, enquanto Vinck continuava orgulhosamente. — É como Baccus disse, piloto. Perguntei a Sato-sama se podíamos nos mudar e ele disse sim, por que não. Eles geralmente me deixavam pescar com um dos pequenos botes deles, para passar o tempo. Foi o meu nariz que me trouxe aqui, piloto. O velho nariz conduziu-me: sangue!

— Um matadouro! — disse Blackthorne. — Um matadouro e um curtume! Isto é... — Ele parou e empalideceu.

— O que foi? O que há?

— Isto é uma aldeia eta? Jesus Cristo, essa gente é eta?

— O que há de errado com os "eters"? — perguntou Van Nekk. — Claro que são "eters".

Blackthorne afastou os mosquitos que infestavam o ar, a pele arrepiando-se. — Malditos insetos... são detestáveis, não são? Há um curtume aqui, não há?

— Sim. Algumas ruas acima, por quê? — Nada. Não reconheci o cheiro, só isso. — O que há com os "eters"?

— Eu... eu não percebi, que estúpido fui. Se tivesse visto um dos homens, eu o teria reconhecido pelo cabelo curto. Com as mulheres nunca se sabe. Desculpem. Continue a história, Vinck. — Bem, então eles disseram...

Jan Roper interrompeu: — Espere um minuto, Vinck! O que há de errado, piloto? O que há com os "eters"?

— É só que os japoneses acham que eles são diferentes. São os executores, trabalham com peles e lidam com cadáveres. — Sentiu os olhos deles, de Jan Roper em particular. — Os etas trabalham as peles — disse ele, tentando conservar a voz indiferente, e matam todos os cavalos velhos e bois e lidam com corpos mortos.

— Mas o que há de errado nisso, piloto? O senhor pessoalmente enterrou uma dúzia, amortalhou-os, lavou-os — todos nós fizemos isso, hein? Nós abatemos os animais que comemos, sempre fizemos isso. Ginsel foi carrasco... O que há de errado nisso tudo?

— Nada — disse Blackthorne, sabendo que era verdade, embora se sentisse embaraçado ainda assim.

Vinck bufou. — Os "eters" são os melhores pagãos que vimos aqui. Mais parecidos conosco do que os outros bastardos. Temos muita sorte de estar aqui, piloto, carne fresca não é problema, nem sebo — eles não nos causam problema.

— É isso mesmo. Se o senhor tivesse morado com "eters", piloto...

— Jesus Cristo, o piloto teve que morar com os outros bastardos o tempo todo! Ele não conheceu nada melhor. Que tal irmos buscar a Mary Bunda Grande, Sonk?

— Ou a Rabo Rápido?

— Merda, ela não, não essa prostituta velha. O piloto vai querer uma especial. Vamos pedir à Mama-san...

— Aposto como ele está morto de fome, com vontade de comer uma bóia de verdade! Ei, Sonk, corte um pedaço de carne para ele.

— Tome mais um pouco de grogue...

Em meio ao tumulto feliz, Van Nekk deu uns tapinhas nos ombros de Blackthorne. — Está em casa, amigo velho. Agora que voltou, nossas preces foram atendidas e está tudo bem no mundo. Está em casa, amigo velho. Ouça, fique com o meu beliche. Insisto...

Alegremente Blackthorne acenou uma última vez. Houve um grito de resposta vindo da escuridão do outro lado da pontezinha. Então virou as costas, a forçada amabilidade evaporada, e dobrou a esquina, a guarda samurai de dez homens a rodeá-lo.

No caminho de volta ao castelo, sua mente esteve num turbilhão. Não havia nada de errado com os etas, e havia tudo de errado com eles, aqueles lá são a minha tripulação, minha própria gente, e os etas são pagãos e estrangeiros e inimigos...

Ruas e vielas e pontes passaram como um borrão. Então ele notou que estava com a mão por dentro do quimono, coçando-se, e parou.

— Aqueles malditos imundos... — Desenrolou o sashh, arrancou o quimono encharcado e, como se ele estivesse contaminado, atirou-o numa vala.

— Dozo, nan desu ka, Anjin-san? — perguntou um dos samurais.

— Nani mo! Nada, por Deus! — Blackthorne continuou a caminhar, carregando as espadas.

— Ah! Eta! Wakarimasu! Gomen nasai! — Os samurais tagarelaram entre si, mas ele não lhes prestou atenção.

Assim é melhor, pensou ele com um alívio imenso, sem perceber que estava quase nu, sentindo apenas que a pele parara de coçar agora que tirara o quimono infestado de pulgas.