Jesus Deus, eu adoraria um banho bem agora!
Contara suas aventuras à tripulação, mas não que era samurai e hatamoto; ou que era um dos protegidos de Toranaga, ou sobre Fujiko. Ou Mariko. E não lhes contara que iam aportar à força em Nagasaki e tomar o Navio Negro de assalto, ou que ele estaria à testa dos samurais. Isso pode vir mais tarde, pensou cansado. E o resto todo.
Eu poderia falar a eles sobre Mariko-san?
Seus tamancos de madeira soavam ruidosos contra os sarrafos de madeira da Primeira Ponte. Sentinelas samurais, também semidespidas, e indolentemente recostadas até o virem, curvaram-se polidamente enquanto ele passava, observando-o atentamente, porque aquele era o bárbaro incrível que, surpreendentemente, fora favorecido pelo Senhor Toranaga, a quem Toranaga, inacreditavelmente, concedera a honra, jamais concedida antes a um bárbaro, de hatamoto e samurai.
Ao portão principal sul do castelo, outro guia esperava por ele. Escoltaram-no aos seus aposentos, dentro da fortificação interna. Fora-lhe designado um quarto numa das casas de hóspedes, fortificadas mas atraentes, porém polidamente ele recusou dirigir-se imediatamente para lá. — Primeiro banho, por favor — disse aos samurais.
— Ah, compreendo. Isso é muito atencioso de sua parte. A casa de banho fica nesta direção, Anjin-san. Sim, a noite está quente, neh? E ouvi dizer que o senhor esteve lá embaixo, com os imundos. Os outros hóspedes da casa apreciarão a sua consideração. Agradeço-lhe em nome deles.
Blackthorne não compreendeu todas as palavras, mas captou o sentido. "Imundos." Isso descreve a minha gente e a mim — nós, não eles, pobres coitados.
— Boa noite, Anjin-san — disse o chefe dos criados de banho. Era um homem de meia-idade, imenso, com um vasto ventre e um grande bíceps. Uma criada acabara de despertá-lo para avisar que outro cliente retardatário estava chegando. Ele bateu palmas. Criadas de banho apareceram. Blackthorne seguiu-as para a sala onde elas o limparam, ensaboaram e esfregaram, e ele as fez repetir tudo uma segunda vez. Em seguida dirigiu-se para o banho de imersão, entrou na água escaldante e entregou-se ao abraço relaxante do calor.
Depois, mãos fortes o ajudaram a sair e lhe untaram a pele com óleo perfumado, descontraindo-lhe músculos e pescoço, depois levaram-no para uma sala de repouso e lhe deram um quimono de algodão, lavado e fresco. Com um longo e profundo suspiro de prazer, ele se deitou.
— Dozo gomen nasai, chá, Anjin-san? — Hai. Domo.
O chá chegou. Ele disse à criada que ficaria ali naquela noite, não iria para os seus aposentos. Depois, sozinho e em paz, tomou o chá, sentindo-o purificá-lo, "...ervas ‘char’ de aparência imunda...", pensou com desagrado.
— Tenha paciência, não deixe que isso lhe perturbe a harmonia — disse alto. — Eles são apenas pobres ignorantes imbecis, que não conhecem coisa melhor. Você já foi a mesma coisa um dia. Não tem importância, agora você pode mostrar a eles, neh? Tirou-os da cabeça e estendeu a mão para pegar o dicionário. Mas naquela noite, pela primeira vez desde que se vira na posse do livro, pousou-o descuidadamente ao lado e soprou a vela. Estou cansado demais, disse a si mesmo. Mas não cansado demais para responder a uma questão simples, disse a sua mente: eles são realmente imbecis ignorantes, ou é você que está se fazendo de tolo? Responderei a isso mais tarde, quando for o momento. Agora a resposta não tem importância. Agora só sei que não os quero perto de mim.
Virou-se, colocou o problema de lado, e adormeceu.
Despertou revigorado. Um quimono limpo, uma tanga e tabis estavam preparados para ele. As bainhas das suas espadas tinham sido polidas. Vestiu-se rapidamente. Fora da casa, os samurais esperavam, acocorados. Levantaram-se e se curvaram.
— Somos a sua guarda hoje, Anjin-san. — Obrigado. Ir navio agora?
— Sim. Aqui está o seu passe.
— Bom. Obrigado. Posso perguntar o seu nome, por favor? — Musashi Mitsutoki.
— Obrigado, Musashi-san. Ir agora?
Desceram para os embarcadouros. O Erasmus estava firmemente atracado a três braças sobre um leito arenoso. Os porões tinham um cheiro agradável. Ele mergulhou e nadou por sob a quilha. A alga grudada era mínima e havia muito pouca craca. O leme estava intacto. No paiol, que estava seco e impecável, encontrou uma pederneira e ateou uma fagulha a um minúsculo monte de pólvora. Ardeu instantaneamente, em perfeitas condições.
Subindo ao topo do mastro de proa, procurou vestígios de rachas. Não havia nenhum, ali ou na subida ou ao redor de qualquer um dos mastros que examinou. Muitas das curdas, adriças e ovéns estavam atados incorretamente, mas para mudar isso bastaria meio turno apenas.
Mais uma vez no tombadilho, permitiu-se um grande sorriso. — Você está tão perfeito quanto... quanto o quê? — Não conseguiu pensar num "quê" suficientemente grande, por isso apenas riu e desceu novamente. Na sua cabina, sentiu-se estranho. E muito só. Suas espadas estavam sobre o beliche. Tocou-as, depois tirou a Vendedor de óleo da bainha. O acabamento era perfeito e a ponta perfeita. Olhar para a espada deu-lhe prazer, pois era realmente uma obra de arte. Mas uma obra de arte mortífera, pensou como sempre, virando-a à luz.
Quantas mortes você causou na sua vida de duzentos anos? Quantas mais causará, antes que você mesmo morra? Será que algumas espadas têm vida própria mesmo, conforme diz Mariko? Mariko. O que será dela?
Então viu no aço o reflexo do seu baú e isso tirou-o da sua súbita melancolia.
Embainhou a Vendedor de óleo, evitando cuidadosamente tocar a lâmina, pois o costume dizia que até um simples toque podia empanar tal perfeição.
Encostando-se ao beliche, seus olhos deram com o baú vazio. — E os portulanos? E os instrumentos de navegação? — perguntou à sua imagem na lâmpada de cobre que fora escrupulosamente polida, como tudo mais. Ele se viu responder: — Você compra tudo em Nagasaki, junto com a sua tripulação. E pega Rodrigues. Sim. Você o pega antes do ataque. Neh?
Observou o próprio sorriso alargar-se. — Você tem muita certeza de que Toranaga o deixará ir, não tem?
— Sim — respondeu com total confiança. — Vá ele ou não a Osaka, conseguirei o que quero. E conseguirei Mariko também. Satisfeito, enfiou as espadas no sash, subiu de volta ao convés e esperou até que as portas fossem lacradas de novo.
Quando retornou ao castelo, ainda não era meio-dia, então se dirigiu para os seus aposentos para comer. Comeu arroz e dois pratos de peixe que tinham sido grelhados na brasa com soja, pelo seu próprio cozinheiro, conforme ele ensinara ao homem. Um pequeno frasco de saquê, depois chá.
— Anjin-san? — Hai?
A shoji se abriu. Fujiko sorriu timidamente e curvou-se.
CAPÍTULO 49
— Eu tinha esquecido de você — disse ele em inglês. — Fiquei com medo que tivesse morrido.
— Dozo goziemashita, Anjin-san, nan desu ka?
— Nani mo, Fujiko-san — disse ele, envergonhado consigo mesmo. — Gomen nasai. Hai. Gomen nasai. Ma-suware odoroita ponto ni mata aete ureshi. Por favor, desculpe-me... uma surpresa, neh? Bom vê-Ia. Por favor, sente-se...
— Domo arigato goziemashita — disse ela, e falou-lhe, na sua voz fina e alta, de como estava contente em vê-lo, de como o japonês dele melhorara, de como ele estava com boa aparência, e de como ela estava felicíssima de se encontrar ali.
Ele a observou ajoelhar-se desajeitadamente sobre a almofada em frente a ele. — Pernas... — Procurou a palavra "queimadura", mas não conseguiu se lembrar, então disse: — Pernas fogo machucou. Mal?
— Não. Sinto muito. Mas ainda dói um pouco para sentar — disse Fujiko, concentrando-se, observando-lhe os lábios. — Pernas doem, sinto muito.
— Por favor, mostre-me.
— Sinto muito, por favor, Anjin-san. Não quero perturbá-lo. O senhor tem outros problemas. Eu...