— Não compreendo. Depressa demais, desculpe.
— Ah, sinto muito. Pernas estão bem. Não há problema — suplicou ela.
— Problema. Você é consorte, neh? Não vergonha. Mostre agora!
Obedientemente ela se levantou. Estava visivelmente desconfortável, mas assim que se pôs ereta começou a desatar as faixas do obi.
— Por favor, chame a criada — ordenou ele.
Ela obedeceu. Imediatamente a shoji se descerrou e uma mulher que ele não reconheceu se apressou para ajudá-la.
— Qual é o seu nome? — perguntou ele bruscamente, como devia fazer um samurai.
— Oh, por favor, desculpe-me, senhor, sinto muito. Meu nome é Hana-ichi.
Ele grunhiu um assentimento. Senhorita Primeiro Botão, finalmente um belo nome! Todas as criadas, por costume, chamavam-se Senhorita Escova ou Sifão ou Peixe ou Segunda Vassoura ou Quarta ou Estrela ou Árvore ou Ramo, e assim por diante. Hana-ichi era de meia-idade e estava muito preocupada. Aposto como é uma agregada de família, disse ele a si mesmo. Talvez uma vassala do falecido marido de Fujiko. Marido! Tinha esquecido dele também, e da criança que foi assassinada — assim como o marido foi assassinado pelo demônio Toranaga, que não é um demônio, mas um daimio, e um bom, talvez um grande líder. Sim. Provavelmente o marido mereceu a sorte que teve, se é verdade o que soubemos, neh? Mas não a criança, pensou ele. Não há desculpa para isso.
Fujiko deixou que o seu quimono verde estampado caísse de lado frouxamente. Seus dedos tremiam quando desatou o delgado sash de seda do quimono interno, amarelo, que também deixou cair. Sua pele era clara e a parte dos seios que ele conseguiu ver por entre as dobras de seda mostrava-os chatos e pequenos. Hanaichi ajoelhou-se e desamarrou os cordões da combinação que ia da cintura ao chão, para que a ama pudesse tirá-la.
— Iyé — ordenou ele. Aproximou-se e ergueu a barra. As queimaduras começavam na barriga das pernas. — Gomen nasai — disse ele.
Ela permaneceu imóvel. Uma lágrima de suor escorreu-lhe pelo rosto, manchando a maquilagem. Ele levantou mais a saia.
A pele estava queimada por toda a área da barriga das pernas, mas parecia estar cicatrizando perfeitamente. O tecido já se formara e não havia infecção, nem supuração, apenas um pouco de sangue limpo onde o tecido novo se rompera nas costas dos joelhos, quando ela se ajoelhara.
Ele moveu-lhe os quimonos para o lado e afrouxou a faixa de cintura da combinação. As queimaduras terminavam no alto da perna, contornavam-lhe as nádegas onde a trave a imobilizara e protegera, depois começavam de novo na base das costas. Uma bandagem de queimadura, com meio palmo de largura, rodeava-lhe a cintura. A cicatriz já estava se acomodando em rugas permanentes. De aparência feia, mas sarando perfeitamente.
— Médico muito bom. O melhor que já vi! — Ele deixou os quimonos dela caírem. — O melhor, Fujiko-san! As cicatrizes, que importância têm, neh? Nenhuma. Vi muitos ferimentos de fogo, compreende? Querer ver depois, certeza estar boa ou não boa. Médico muito bom. Buda vela Fujiko-san. — Pousou-lhe as mãos sobre os ombros e olhou-a nos olhos. — Não se preocupe agora. Shikata ga nai, neh? Compreende?
As lágrimas dela escorreram. -— Por favor, desculpe-me, Anjin-san. Estou tão embaraçada. Por favor, desculpe a minha estupidez por estar lá, apanhada como uma eta estúpida. Eu deveria estar com o senhor, guardando-o, não enfiada com os criados na casa. Não havia nada para mim na casa, nada, nenhuma razão para estar na cas...
Ele a deixou falar embora não compreendesse quase nada do que dizia, abraçando-a compadecido. Tenho que descobrir o que foi que o médico usou, pensou excitado. É a cura melhor e mais rápida que já vi. Cada mestre de cada um dos navios de Sua Majestade devia conhecer esse segredo — sim, e na verdade, cada capitão de cada navio da Europa. Espere um instante, cada mestre não pagaria guinéus de ouro por esse segredo? Você poderia fazer uma fortuna! Sim. Mas não desse modo, disse-se ele, nunca. Nunca com o sofrimento de um marinheiro.
Ela tem sorte de que tenha sido só na barriga das pernas e nas costas, e não na face. Olhou-lhe o rosto. Continuava tão quadrado e chato como sempre, os dentes exatamente tão pontudos, mas o calor que lhe emanava dos olhos compensava a feiúra. Deu-lhe outro abraço. — Agora. Não chore. Ordem!
Mandou a criada ir buscar chá e saquê e muitas almofadas e ajudou-a a se reclinar sobre elas, por mais embaraçada que ela, no começo, se sentisse em obedecer. — Como posso lhe agradecer? — disse ela.
— Não agradecimentos. Retribuo — Blackthorne pensou um instante, mas não conseguiu se lembrar das palavras japonesas para "favor" ou "lembrar", então pegou o dicionário e procurou-as ali. — "Favor: o-negai"... "lembrar: omoi dasu". Hai, fnondoso o-negai! Omi desu ka? Retribuir favor. Lembra-se? — Levantou os punhos, imitando pistolas e apontando-as. — Omi-san, lembra-se?
— Oh, claro — exclamou ela. Depois, maravilhada, pediu para olhar o livro. Nunca vira escrita romana antes, e a coluna de palavras japonesas passadas para o latim e o português e vice-versa não tinham significado para ela, mas logo captou a finalidade daquilo. — É um livro com todas as nossas... desculpe. Livro de palavras, neh?
— Hai.
— "Hombun"? — perguntou ela.
Ele lhe mostrou como encontrar a palavra em latim e em português. — "Hombun: dever." — E acrescentou em japonês: — Compreendo dever. Dever de samurai, neh?
— Hai. — Ela bateu palmas como se lhe tivessem mostrado um brinquedo mágico. Mas é mágica, não é? pensou ele, um presente de Deus. Isto desvenda a mente dela e a de Toranaga, e logo estarei falando perfeitamente.
Ela lhe deu outras palavras e ele as disse em inglês ou em latim ou em português, sempre compreendendo as palavras que ela escolhia e sempre as encontrando. O dicionário não falhava nunca.
Ele olhou uma palavra. — Majutsu desu, neh? É mágica, não é?
— Sim, Anjin-san. O livro é mágica. — Ela tomou um gole de chá. — Agora posso conversar com o senhor. Realmente conversar.
— Um pouco. Só devagar, compreende?
— Sim. Por favor, tenha paciência comigo. Por favor, desculpe-me.
O imenso sino do torreão tocou a hora do Bode e os templos em Yedo ecoaram a mudança da hora.
— Eu vou agora. Vou Senhor Toranaga. — Colocou o livro na manga.
— Esperarei aqui, por favor, se puder. — Onde está alojada?
Ela apontou. — Oh, ali, meu quarto fica ao lado. Por favor, desculpe a minha indelicadeza.
— Devagar. Fale devagar. Fale com simplicidade!
Ela repetiu devagar, com mais desculpas. — Bom — disse ele. — Bom. Vejo-a mais tarde.
Ela começou a se levantar, mas ele meneou a cabeça e saiu para o pátio. O dia estava nublado agora, o ar sufocante. Guardas o esperavam. Logo se encontrou no adro do torreão. Mariko estava lá, mais delgada do que nunca, mais etérea, o rosto de alabastro sob o guarda-sol amarelo-ouro. Usava um quimono marrom-escuro, barrado de verde.
— Ohayo, Anjin-san. Ikaga desu ka? — perguntou ela, curvando-se formalmente.
Ele lhe disse que estava ótimo, mantendo alegremente o hábito dos dois de falar em japonês o mais que pudessem, passando para o português só quando ele se cansava ou quando desejavam ser mais reservados.
— Você... — disse ele cautelosamente, em latim, enquanto subiam as escadas do torreão.
— Você — ecoou Mariko, e passou imediatamente para o português com a mesma gravidade da noite anterior. — Sinto muito, por favor, nada de latim hoje, Anjin-san, hoje o latim não assenta bem. Não pode servir à finalidade para a qual foi feito, neh?
— Quando posso lhe falar?
— Isso é muito difícil, sinto muito. Tenho deveres... — Não há nada de errado, há?
— Oh, não — replicou ela. — Por favor, desculpe-me, o que poderia estar errado? Nada está errado.
Subiram outro lanço em silêncio. No andar seguinte, os passes foram examinados como sempre, guardas à frente e atrás deles. A chuva começou a cair pesadamente e isso diminuiu a umidade.