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— Vai chover durante horas — disse ele.

— Sim. Mas sem as chuvas não há arroz. Logo cessarão, dentro de duas ou três semanas, então ficará quente e úmido até o outono. — Ela olhou pelas janelas para o aguaceiro cerrado. — Vai gostar do outono, Anjin-san.

— Sim. — Ele observava o Erasinus, muito distante, lá embaixo ao lado do embarcadouro. Então a chuva obscureceu o navio e ele subiu mais um trecho.

— Depois de falarmos com o Senhor Toranaga, teremos que esperar até que essa chuva passe. Talvez houvesse um lugar onde pudéssemos conversar?

— Isso poderia ser difícil — disse ela vagamente, coisa que ele estranhou. Normalmente ela era decisiva e executava as polidas "sugestões" dele como ordens que normalmente seriam consideradas. — Por favor, desculpe-me, Anjin-san, mas as coisas são difíceis para mim no momento, e tenho muito o que fazer. — Parou momentaneamente e passou o guarda-sol para a outra mão, segurando a barra da saia. — Como foi a noite passada? Como estavam os seus amigos, a sua tripulação?

— Ótimos. Esteve tudo ótimo — disse ele. — Mas não "ótimo"? — perguntou ela.

— Ótimo... mas muito estranho. — Ele a encarou. — A senhora percebe tudo, não?

— Não, Anjin-san. Mas o senhor não os mencionou e vem pensando enormemente neles nesta última semana. Não sou mágica. Sinto muito.

Após uma pausa, ele disse: — Tem certeza de que está bem? Não há problema com Buntaro-san, há?

Ele nunca falara de Buntaro com ela ou sequer lhe mencionara o nome desde Yokosé. Por acordo, aquele espectro nunca era invocado por nenhum deles desde o primeiro momento. — É o meu único pedido, Anjin-san — sussurrara ela na primeira noite. — Aconteça o que acontecer durante a nossa viagem, para Mishima ou, se Nossa Senhora quiser, para Yedo, isto não tem nada a ver com mais ninguém além de nós, neh? Entre nós, nada do que realmente é deve ser mencionado. Neh? Nada. Por favor? — Concordo. Juro.

— E eu faço o mesmo. Afinal, a nossa viagem termina na Primeira Ponte de Yedo.

— Não.

— Tem que haver um término, meu amor. Na Primeira Ponte a nossa viagem acaba. Por favor, ou morrerei de aflição com o medo pelo senhor e o perigo em que o coloquei ...

Na manhã anterior, ele parara ao limiar da Primeira Ponte, um peso súbito no espírito, apesar da sua alegria com o Erasmus. — Devemos atravessar a ponte agora, Anjin-san — dissera ela.

— Sim. Mas é só uma ponte. Uma dentre muitas. Venha, Mariko-san. Caminhe ao meu lado através desta ponte. Ao meu lado, por favor. Vamos caminhar juntos — depois, em latim: — e imagine que está sendo carregada e que vamos de mãos dadas para um começo.

Ela descera do palanquim e andara ao lado dele até atingirem o outro lado. Ali subira de novo à liteira acortinada e os dois seguiram pela leve elevação. Buntaro esperava ao portão do castelo.

Blackthorne lembrou-se de como orara para que um relâmpago caísse do céu.

— Não há problema com ele, há? — perguntou de novo, quando atingiram o último patamar.

Ela meneou a cabeça.

— Navio muito rápido, Anjin-san? — disse Toranaga. — Não engano?

— Não engano, senhor. Navio perfeito.

— Quantos homens extras... quantos homens mais quer para o navio... — Toranaga relanceou o olhar para Mariko. — Por favor, pergunte-lhe de quantos homens mais ele necessitará para navegar adequadamente. Quero ter certeza absoluta de que ele compreende o que quero saber.

— O Anjin-san diz que precisaria de um mínimo de trinta marujos e vinte atiradores. Sua tripulação original era de cento e sete homens, incluindo cozinheiros e mercadores. Para navegar e combater nestas águas, o complemento de duzentos samurais seria suficiente.

— E ele acredita que os outros homens de que necessita poderiam ser contratados em Nagasaki?

— Sim, senhor.

— Eu certamente não confiaria em mercenários — disse Toranaga com desagrado.

— Por favor, desculpe-me, senhor, quer que eu traduza isso? — O quê? Oh, não, isso não tem importância.

Toranaga levantou-se, ainda fingindo rabugice, e olhou a chuva pelas janelas. A cidade inteira estava obscurecida pelo aguaceiro. Que chova durante meses, pensou ele. Que todos os deuses façam a chuva durar até o Ano Novo. Quando Buntaro encontrará meu irmão? — Diga ao Anjin-sam que lhe darei seus vassalos amanhã. Hoje está terrível. Essa chuva vai continuar o dia todo. Não faz sentido se ensopar.

— Sim, senhor — ouviu-a dizer, e sorriu ironicamente consigo mesmo. Nunca, em toda a sua vida, o tempo o impedira de fazer coisa alguma. Isso certamente deve convencê-la, e a quaisquer outros céticos, de que mudei definitivamente para pior, pensou ele, sabendo que ainda não podia se desviar do rumo escoIhido. — Amanhã ou depois de amanhã, que diferença faz? Diga-lhe que, quando eu estiver pronto, mandarei chamá-lo. Até lá, ele deve ficar dentro do castelo.

Ouviu-a passar as ordens para o Anjin-san.

— Sim, Senhor Toranaga, compreendo — respondeu Blackthorne por si mesmo. — Mas posso respeitosamente perguntar: é possível ir a Nagasaki depressa? Penso é importante. Sinto muito.

— Decidirei isso mais tarde — disse Toranaga bruscamente, sem simplificar para ele. Fez-lhe sinal que saísse. — Até logo, Anjin-san. Decidirei o seu futuro em breve. — Viu que o homem queria insistir, mas polidamente não o fez. Bom, pensou, pelo menos está aprendendo boas maneiras! — Diga ao Anjin-san que ele não precisa esperá-la, Mariko-san. Até logo, Anjin-san.

Mariko fez conforme o ordenado. Toranaga voltou-se para contemplar a cidade e o temporal. Ouviu o som da chuva. A porta fechou-se atrás do Anjin-san. — Sobre o que foi a discussão? — perguntou Toranaga, sem olhar para ela.

— Senhor?

Os ouvidos dele, cuidadosamente aguçados, captaram o débil tremor na voz dela.

— Claro que entre Buntaro e você, ou você teve alguma outra discussão que me interesse? — acrescentou ele com um sarcasmo mordaz, precisando precipitar o assunto. — Com o Anjin-san, talvez, ou com os meus inimigos cristãos, ou com o Tsukku-san?

— Não, senhor. Por favor, desculpe-me. Começou como sempre, como a maioria das discussões, senhor, entre marido e mulher. Realmente por causa de nada. Então, de repente, como sempre, o passado todo vem à tona e infecta o homem e a mulher se... se eles estiverem mal-humorados.

— E você estava mal-humorada?

— Sim. Por favor, desculpe-me. Provoquei meu marido impiedosamente. A culpa foi inteiramente minha. Lamento, senhor, que nestes tempos ruins, sinto muito, as pessoas digam coisas irrefletidas.

— Vamos, depressa, que coisas irrefletidas?

Ela estava como uma corça encurralada. Seu rosto estava branco como giz. Sabia que os espiões já lhe deviam ter cochichado o que fora gritado no silêncio da casa deles.

Contou-lhe tudo o que fora dito da melhor maneira que conseguiu se lembrar. E acrescentou: — Acredito que as palavras do meu marido tenham sido ditas devido à cólera desenfreada que provoquei. Ele é leal, sei que é. Se alguém deve ser punido sou eu, senhor. Realmente provoquei a loucura.

Toranaga sentou-se de novo sobre a almofada, as costas rijas, o rosto granítico. — O que disse a Senhora Genjiko?

— Não falei com ela, senhor.

— Mas pretende fazer isso, neh? Ou pretendia?

— Não, senhor. Com a sua permissão, pretendo partir imediatamente para Osaka.

— Você partirá quando eu disser e não antes disso, e traição é uma besta abominável onde quer que seja descoberta!

Ela se curvou ante o açoite da língua dele. — Sim, senhor. Por favor, perdoe-me. A culpa é minha.

Ele tocou um sininho. A porta se abriu. Naga apareceu. — Sim, senhor?

— Ordene que o Senhor Sudara venha aqui imediatamente, com a Senhora Genjiko.

— Sim, senhor. — Naga voltou-se.

— Espere! Depois convoque o meu conselho, Yabu e todos... e todos os generais mais velhos. Devem estar aqui à meia-noite. E esvazie este andar. Todos os guardas! Você volta com Sudara!