— Sim, senhor. — Pálido, Naga fechou a porta atrás de si. Toranaga ouviu homens descendo as escadas com estrépito. Dirigiu-se para a porta e abriu-a. O corredor estava vazio. Bateu a porta e trancou-a. Pegou outro sino e tocou-o. Uma porta interna na outra extremidade do aposento se abriu. Era uma porta que mal se notava, tão inteligentemente se fundia ao revestimento de madeira da sala. Uma mulher de meia-idade, atarracada, surgiu por ali. Usava um hábito encapuzado de monja budista. — Sim, grande senhor?
— Chá, por favor, Chano-chan — disse ele. A porta se fechou. Os olhos de Toranaga voltaram para Mariko. — Então você acha que ele é leal?
— Eu sei disso, senhor. Por favor, perdoe-me, a culpa foi minha, não dele — disse ela, desesperada por agradar. — Eu o provoquei.
— Sim, provocou. Repugnante. Terrível. Imperdoável! — Toranaga pegou um lenço de papel e enxugou a fronte. — Mas oportuno.
— Senhor?
— Se você não o tivesse provocado, talvez eu nunca viesse a saber de qualquer traição. E se ele tivesse dito tudo isso sem provocação, teria havido apenas uma linha de ação. Sendo como é — continuou ele, você me dá uma alternativa.
— Senhor?
Ele não respondeu. Estava pensando. Gostaria que Hiromatsu estivesse aqui, então haveria pelo menos um homem em quem eu poderia confiar completamente. — E quanto a você? Quanto à sua lealdade?
— Por favor, senhor, deve saber que a tem.
Ele não respondeu. A expressão de seus olhos era inexorável. A porta interna se abriu e Chano, a monja, entrou confiantemente na sala sem bater, uma bandeja nas mãos. — Aqui está, grande senhor, estava pronto para o senhor. — Ajoelhou-se como uma camponesa, suas mãos ásperas como as de uma camponesa, mas sua autoconfiança era enorme e seu contentamento interior óbvio. — Que Buda o abençoe com a sua paz. — Depois se voltou para Mariko, curvou-se como uma camponesa se curvaria, e se sentou confortavelmente. — Talvez me honrasse servindo-me, senhora. A senhora o fará lindamente, sem derramar, neh? — Seus olhos cintilavam com um deleite particular.
— Com prazer, Oku-san — disse Mariko, dando-lhe o título religioso de "madre", dissimulando a própria surpresa. Nunca vira antes a mãe de Naga. Conhecia a maioria das outras damas oficiais de Toranaga, vira-as em cerimônias oficiais, mas dava-se apenas com Kiritsubo e a Senhora Sazuko.
— Chano-chan — disse Toranaga, esta é a Senhora Toda Mariko-noh-Buntaro.
— Ah, so desu, sinto muito, pensei que fosse uma das honradas damas do meu grande senhor. Por favor, desculpe-me, Senhora Toda, que as bênçãos de Buda estejam com a senhora.
— Obrigada — disse Mariko. Ofereceu a xícara a Toranaga. Ele aceitou e bebeu.
— Sirva Chano-chan e a si mesma — disse ele.
— Sinto muito, para mim não, grande senhor, com a sua permissão. Meus dentes de trás estão amolecidos de tanto chá e o balde fica longe demais destes velhos ossos.
— O exercício lhe faria bem — disse Toranaga, contente de tê-la mandado buscar quando retornara a Yedo.
— Sim, grande senhor. Tem razão, como sempre. — Chano voltou sua atenção cordial a Mariko. — Então a senhora é a filha do Senhor Akechi Jinsai?
A xícara de Mariko hesitou no ar. — Sim. Por favor, desculpe-me...
— Oh, não há nada de que se desculpar, criança. — Chano riu gentilmente, e seu estômago balançou para cima e para baixo. — Eu só a identifiquei pelo nome, por favor, desculpe-me, mas a última vez que a vi foi no seu casamento.
— Oh?
— Oh, sim, eu a vi no seu casamento, mas a senhora não me viu. Eu espiei por detrás de uma divisória. Sim, a senhora e todos os grandes, o ditador, e Nakamura, o futuro táicum, e todos os nobres. Oh, eu era tímida demais para me misturar àquela companhia. Mas aquele foi um bom tempo para mim. O melhor da minha vida. Foi o segundo ano em que o meu grande senhor me favoreceu e eu estava pesada, com criança, embora continuasse sendo a camponesa que sempre fui. — Seus olhos se enrugaram e ela acrescentou: — A senhora mudou muito pouco, desde aqueles dias, continua sendo uma das escolhidas de Buda. — Ah, gostaria que isso fosse verdade, Oku-san.
— É verdade. Sabia que foi uma das escolhidas de Buda? — Não fui, Oku-san, por mais que gostasse de ser.
-— Ela é cristã — disse Toranaga.
— Ah, cristã... o que importa para uma mulher, ser cristã ou budista, grande senhor? Não muito às vezes, embora algum deus seja necessário para uma mulher. — Chano soltou uma risadinha alegre. — Nós, mulheres, precisamos de um deus, grande senhor, para nos ajudar a lidar com os homens, neh?
— E nós, homens, precisamos de paciência, de uma paciência divina, para lidar com as mulheres, neh?
A mulher riu, e isso aqueceu a sala inteira e, por um instante, abrandou parte dos pressentimentos de Mariko. — Sim, grande senhor — continuou Chano, e tudo por causa de um Pavilhão Celestial que não tem futuro, tem pouco calor e uma capacidade do inferno.
Toranaga grunhiu: — O que diz a isso, Mariko-san?
— A sabedoria da Senhora Chano excede a sua juventude — disse Mariko.
— Ah, senhora, diz belas coisas a uma velha tola — disse a monja. — Lembro-me tão bem da senhora. O seu quimono era azul com as garças estampadas mais adoráveis que já vi. Prateadas. — Seus olhos voltaram-se para Toranaga. — Bem, grande senhor, só quis me sentar um instante. Por favor, com licença agora.
— Ainda há tempo. Fique onde está.
— Sim, grande senhor — disse Chano, pesadamente pondo-se em pé —, eu obedeceria como sempre, mas a natureza chama. Por isso, por favor, seja gentil com uma velha camponesa, eu odiaria envergonhá-lo. É tempo de ir. Está tudo pronto, há comida e saquê para quando desejar, grande senhor.
— Obrigado.
A porta fechou-se sem ruído atrás dela. Mariko esperou até que a xícara de Toranaga se esvaziasse, e encheu-a de novo.
-— No que está pensando? — Estava esperando, senhor. — O quê, Mariko-san?
— Senhor, sou hatamoto. Nunca lhe pedi um favor antes. Gostaria de lhe pedir um favor como hata...
— Não quero que você peça favor algum como hatamoto — disse Toranaga.
— Então um desejo de vida.
— Não sou um marido para conceder isso.
— Às vezes um vassalo pode pedir ao susera...
— Sim, às vezes, mas não agora! Agora você vai calar a boca sobre qualquer desejo de vida ou favor ou solicitação ou seja o que for. — Um desejo de vida era um favor que, por costume antigo, uma esposa podia pedir ao marido, um filho ao pai — e ocasionalmente um marido à esposa —, sem perda de dignidade, sob a condição de que, se o desejo fosse concedido, a pessoa concordava em nunca mais pedir outro favor na vida. Por costume, não se podiam fazer quaisquer perguntas sobre o favor, nem ele devia ser mencionado novamente.
Houve uma batida polida à porta. — Destranque-a — disse Toranaga.
Ela obedeceu. Sudara entrou, seguido da esposa, a Senhora Genjiko, e Naga.
— Naga-san, desça ao segundo pavimento abaixo deste e impeça qualquer pessoa de vir aqui sem as minhas ordens. Naga saiu com grande gravidade e arrogância.
— Mariko-san, feche a porta e sente-se ali. — Toranaga apontou um lugar ligeiramente diante dele, encarando os outros. — Ordenei que viessem ambos aqui porque há assuntos de família particulares e urgentes a discutir.
Os olhos de Sudara involuntariamente se dirigiram para Mariko, depois voltaram a fitar o pai. Os da Senhora Genjiko não piscaram.
Toranaga disse asperamente: — Ela está aqui, meu filho, por duas razões: a primeira é porque quero que esteja aqui e a segunda é porque quero que esteja aqui!
— Sim, Pai — respondeu Sudara, envergonhado com a descortesia do pai a todos eles. — Posso, por favor, perguntar-lhe por que o ofendi?