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— Há alguma razão pela qual eu deveria estar ofendido? — Não, senhor, a menos que o meu zelo pela sua segurança e a minha relutância em permitir-lhe que parta desta terra sejam causa de ofensa.

— E quanto à traição? Ouvi dizer que você está ousando assumir o meu lugar como cabeça do nosso clã!

Sudara empalideceu. A Senhora Genjiko igualmente. — Nunca fiz isso, nem por palavras nem por atos. Nem qualquer membro da minha família ou alguém na minha presença.

— Isso é verdade, senhor — disse a Senhora Genjiko, com a mesma intensidade. Sudara era um homem orgulhoso, esbelto, com olhos frios e estreitos, e lábios frios que nunca sorriam. Tinha vinte e quatro anos, era um excelente general, e o segundo dos cinco filhos vivos de Toranaga. Adorava os próprios filhos, não tinha consortes e era devotado à esposa.

Genjiko era baixa, três anos mais velha que o marido, e rechonchuda devido aos quatro filhos que já lhe dera. Mas tinha as mesmas costas retas e todo o orgulho da irmã, Ochiba, uma inclemente preocupação com a proteção da própria prole, junto com a mesma ferocidade latente herdada do avô, Goroda.

— Quem quer que tenha acusado meu marido é mentiroso — disse ela.

— Mariko-san — disse Toranaga —, diga à Senhora Genjiko o que o seu marido lhe ordenou que dissesse!

— Meu Senhor Buntaro pediu-me, ordenou-me, que a convencesse de que chegou o momento de o Senhor Sudara assumir o poder, de que outros no conselho compartilham da opinião de meu marido, e que, se o nosso Senhor Toranaga não quisesse ceder o poder, deveria... deveria ser tomado à força.

— Nunca nenhum de nós nutriu esse pensamento, Pai — disse Sudara. — Somos leais e nunca cons...

— Se eu lhe desse o poder, o que você faria? — perguntou Toranaga.

Genjiko respondeu imediatamente: — Como pode o Senhor Sudara saber, quando jamais considerou essa pecaminosa possibilidade? Sinto muito, senhor, mas para ele é impossível responder, porque isso nunca lhe esteve na mente. Como poderia estar? E quanto a Buntaro-san, obviamente os kamis tomaram posse dele.

Buntaro alegou que outros compartilham da sua opinião. Quem? — perguntou Sudara, malignamente. — Diga-me quem e eles morrerão dentro de minutos.

— Diga-me você quem!

— Não conheço nenhum, senhor, ou lhe teria relatado. — Não os teria matado antes?

— A sua primeira lei é ter paciência, a segunda é ter paciência. Sempre segui suas ordens. Eu teria esperado e relatado. Se o ofendi, ordene que eu cometa seppuku. Não mereço a sua cólera, senhor; não cometi traição alguma. Não posso suportar a sua cólera.

A Senhora Genjiko acorreu. — Sim, senhor. Por favor, com licença, mas humildemente concordo com meu marido. Ele está inocente, assim como toda a nossa gente. Somos fiéis... tudo o que temos é seu, tudo o que somos foi o senhor que fez, tudo o que ordenar faremos.

— Ótimo! São vassalos leais, não são? Obedientes? Sempre obedecem a ordens?

— Sim, senhor.

— Bom. Então vá e mate os seus filhos. Já. Sudara desviou os olhos do pai e fitou a esposa.

A cabeça dela moveu-se levemente, em aquiescência. Sudara curvou-se para Toranaga. Sua mão apertou o punho da espada e ele se levantou. Fechou silenciosamente a porta atrás de si. Houve um grande silêncio no seu rastro. Genjiko olhou uma vez para Mariko, depois cravou os olhos no chão.

Sinos tocaram a metade da hora do Bode. O ar na sala parecia se adensar. A chuva parou brevemente, depois começou de novo, mais pesada do que antes.

Pouco depois de os sinos indicarem a hora seguinte, houve uma batida.

— Sim?

A porta se abriu. Naga disse: — Por favor, com licença, senhor, meu irmão ... o Senhor Sudara quer subir de novo.

— Deixe-o ... e volte ao seu posto.

Sudara entrou, ajoelhou-se e curvou-se. Estava ensopado, o cabelo emaranhado de chuva. Seus ombros tremiam levemente.

— Meus... meus filhos estão... O senhor já tomou meus filhos, senhor.

Genjiko oscilou e quase caiu para a frente. Mas dominou a fraqueza e encarou o marido. — O senhor... o senhor não os matou?

Sudara meneou a cabeça e Toranaga disse com severidade: — Os seus filhos estão nos meus aposentos, no andar abaixo. Ordenei a Chano-san que fosse buscá-los depois que vocês recebessem a ordem de vir aqui. Preciso ter certeza sobre vocês dois. Tempos infames exigem testes infames. — Tocou o sino.

— O senhor... o senhor retira a sua or... a sua ordem, senhor? — perguntou Genjiko, desesperadamente tentando manter uma fria dignidade.

— Sim. Minha ordem está retirada. Desta vez. Foi necessária para conhecer você. E o meu herdeiro.

— Obrigado, obrigado, senhor. — Sudara baixou a cabeça humildemente.

A porta interna se abriu. — Chano-san, traga meus netos aqui um instante — disse Toranaga.

Logo três mães adotivas em trajes escuros e a ama de leite trouxeram as crianças. As meninas tinham quatro, três e dois anos, e o filho recém-nascido, com algumas semanas, estava adormecido nos braços da ama. Todas as meninas usavam quimonos escarlates com fitas escarlates no cabelo. As mães adotivas ajoelharam-se e curvaram-se para Toranaga; suas pupilas imitaram-nas com ar de importância e encostaram a cabeça aos tatamis — exceto a mais nova, cuja cabeça necessitou de uma ajuda gentil, embora firme.

Toranaga retribuiu a mesura gravemente. Depois, cumprido o dever, as crianças correram ao seu abraço — menos o menorzinho, que foi para os braços da mãe.

À meia-noite, Yabu atravessou empertigado o adro do torreão iluminado de archotes. O corpo de elite da guarda pessoal de Toranaga se encontrava por toda parte. A lua estava indistinta e nebulosa, e as estrelas quase invisíveis.

— Ah, Naga-san, qual é a razão disto tudo?

— Não sei, senhor, mas a ordem é que todos se dirijam à câmara de conferência. Por favor, com licença, mas deve deixar suas espadas comigo.

Yabu corou ante a inaudita quebra de etiqueta. — Você está... — Mudou de idéia, sentindo a tensão enregelante do jovem e o agitado nervosismo dos guardas próximos. — Por ordem de quem, por favor, Naga-san?

— De meu pai, senhor. Sinto muito, o senhor pode não comparecer à reunião, se quiser, mas tenho que preveni-lo de que a ordem é para o senhor se apresentar sem espadas e, sinto muito, é assim que vai ser. Por favor, desculpe-me, mas não tenho escolha.

Yabu viu a pilha de espadas já ao abrigo da guarita ao lado do imenso portão principal. Ponderou os riscos de uma recusa e achou-os descomunais. Relutantemente, entregou suas armas. Naga curvou-se polidamente, igualmente embaraçado ao aceita-las. Yabu entrou. A sala imensa tinha seteira, chão de pedras e traves de madeira.

Logo estavam reunidos os cinqüenta generais mais velhos, vinte e três conselheiros, e sete daimios amistosos de províncias menores do norte. Estavam todos excitados e desconfortavelmente impacientes.

— O que é isto tudo, afinal? — perguntou Yabu, carrancudo, enquanto tomava o seu lugar.

Um general deu de ombros. — Provavelmente é por causa da viagem para Osaka.

Outro olhou em torno esperançosamente: — Talvez seja uma mudança de plano, neh? Ele vai ordenar Céu...

— Sinto muito, mas o senhor está com a cabeça nas nuvens. Ele está decidido. Nosso senhor está decidido... É Osaka e nada mais! Ei, Yabu-sama, quando chegou aqui?

— Ontem. Fiquei enfiado numa imunda aldeiazinha de pesca chamada Yokohama durante mais de duas semanas, ao sul daqui, com as minhas tropas. O porto é ótimo, mas os percevejos! Mosquitos fedorentos e percevejos... nunca foram tão ruins em Izu. — Está a par de todas as novidades?

— Quer dizer, de todas as más novidades? O deslocamento ainda será dentro de seis dias, neh?

— Sim, terrível. Vergonhoso!

— É verdade, mas esta noite é pior — disse outro general, severamente. — Nunca estive sem espadas antes. Nunca.

— É um insulto — disse Yabu deliberadamente. Todos os que lhe estavam próximos o olharam.