Выбрать главу

— Concordo — retrucou o General Kiyoshio, quebrando o silêncio. Serata Kiyoshio era o grisalho e rijo comandante do Sétimo Exército. — Nunca estive sem espadas em público antes.

Faz-me sentir como um mercador fedorento! Acho... iiiih, ordens são ordens, mas algumas não deviam ser dadas.

— Tem toda a razão — disse alguém. — O que o velho Punho de Aço teria feito se estivesse aqui?

— Teria rasgado o ventre antes de entregar as suas espadas! Teria feito isso esta noite, no adro! — disse um jovem. Era Serata Tomo, o filho mais velho do general, segundo em comando do Quarto Exército. — Gostaria de que Punho de Aço estivesse aqui! Poderia entender... teria aberto o ventre antes.

— Considerei isso. — O General Kiyoshio limpou a garganta asperamente. — Alguém tem que ser responsável... e cumprir o seu dever! Alguém tem que assinalar que ser suserano significa responsabilidade e dever!

— Sinto muito, mas é melhor o senhor ter cuidado com a língua — advertiu Yabu.

— Para que serve uma língua na boca de um samurai se ele é proibido de ser samurai?

— Para nada — resmungou Isamu, um velho conselheiro. — Concordo. Melhor estar morto.

— Sinto muito, Isamu-san, mas esse é o nosso futuro imediato de qualquer modo — disse o jovem Serata Tomo. — Somos pombos empalados para um certo falcão desonrado!

— Por favor, calem-se! — disse Yabu, dissimulando a própria satisfação. E acrescentou cuidadosamente: — Ele é o nosso suserano e, até que o Senhor Sudara ou o conselho assuma declaradamente a responsabilidade, continua sendo o suserano e deve ser obedecido. Neh?

O General Kiyoshio estudou-o, a mão inconscientemente tateando à procura do punho da espada. — O que foi que ouviu, Yabu-sama?

— Nada.

— Buntaro-san disse que... — começou o conselheiro.

O General Kiyoshio interrompeu: — Por favor, com licença, Isamu-san, mas o que o General Buntaro disse ou o que não disse não tem importância. O que Yabu-sama disse é verdade. Um suserano é um suserano. Ainda assim, um samurai tem direitos, um vassalo tem direitos. Mesmo daimios. Neh?

Yabu retribuiu-lhe o olhar, calculando a profundidade daquele convite. — Izu é província do Senhor Toranaga. Não sou mais daimio de Izu, apenas a governo por ele. — Correu os olhos pela sala enorme. — Estão todos aqui, neh?

— Menos o Senhor Noboru — disse um general, nomeando o filho mais velho de Toranaga, que contava com aversão generalizada.

— Sim. Mas dá na mesma e não tem importância, general, a doença chinesa logo dará cabo dele e estaremos livres para sempre de seu humor péssimo — disse alguém.

— E do mau cheiro. — Quando vai voltar?

— Quem sabe? Nem sabemos por que Toranaga-sama o mandou para o norte. É melhor que fique lá, neh?

— Se o senhor tivesse essa doença, seria tão mal-humorado quanto ele, neh?

— Sim, Yabu-san. Sim, seria. É uma pena que ele seja sifilítico, é um bom general ... melhor do que o Peixe Frio — acrescentou o General Kiyoshio, usando o apelido particular de Sudara.

— Iiiiih — assobiou o conselheiro. — Há demônios no ar esta noite para fazê-lo tão descuidado com a língua. Ou será que é o saquê?

— Talvez seja a doença chinesa Kiyoshio com uma risada amarga.

— Buda me proteja disso! — disse Yabu. — Se o Senhor Toranaga mudasse de idéia sobre Osaka! — Eu rasgaria o ventre se isso o convencesse — respondeu o General jovem.

— Sem ofensa, meu filho, mas você está nas nuvens. Ele nunca mudará.

— Sim, Pai. Mas simplesmente não o compreendo.

— Vamos todos com ele? No mesmo... contingente? — perguntou Yabu um instante depois.

Isamu, o velho conselheiro, disse: — Sim. Devemos ir como escolta. Com dois mil homens com equipamento cerimonial completo e toda a pompa. Vamos levar trinta dias para chegar lá. Só nos restam seis.

— Isso não muito tempo. É, Yabu-sama? — disse o General Kiyoshio.

Yabu não respondeu. Não havia necessidade. O general solicitava uma resposta. Mergulharam todos nos próprios pensamentos.

Uma porta lateral se abriu. Toranaga entrou. Sudara seguiu-o. Todos se curvaram rigidamente. Toranaga retribuiu e se sentou à frente deles, Sudara, na qualidade de herdeiro presuntivo, ligeiramente à sua frente, também encarando os demais. Naga entrou pela porta principal e fechou-a.

Apenas Toranaga usava espadas.

— Foi relatado que alguns dos senhores falam em traição, pensam em traição e planejam traição — disse friamente. Ninguém respondeu ou se moveu. Lentamente, implacavelmente, Toranaga olhou rosto a rosto.

Ainda nenhum movimento. Então o General Kiyoshio falou: — Posso respeitosamente perguntar, senhor, o que quer dizer com "traição"?

— Todo questionamento de uma ordem, de uma decisão, de uma posição de um suserano, em qualquer momento, é traição — revidou Toranaga com violência.

As costas do general se enrijeceram. — Então sou culpado de traição.

— Então saia e cometa seppuku imediatamente.

— Farei isso, senhor — disse o soldado orgulhosamente —, mas antes reivindicarei o direito de livre expressão diante dos seus leais vassalos, oficiais e tons...

— O senhor perdeu todos os seus direitos!

— Muito bem. Então reivindico-o como desejo de morte, na qualidade de hatamoto, e em troca de vinte e oito anos de serviço leal!

— Exponha-o rapidamente.

— Farei isso, senhor — respondeu gelidamente o General Kiyoshio. — Peço para dizer, primeiro: ir a Osaka e curvar-se ao camponês Ishido é traição contra a sua honra, a honra do seu clã, a honra dos seus fiéis vassalos, sua herança especial, e totalmente contra o bushido. Segundo: eu o acuso dessa traição e digo que em conseqüência o senhor perdeu o seu direito de ser nosso suserano. Terceiro: solicito que o senhor imediatamente abdique em favor do Senhor Sudara e honrosamente parta desta vida... ou raspe a cabeça e se retire para um mosteiro, o que preferir.

O general curvou-se rigidamente, depois sentou-se de cócoras. Todo mundo esperava, quase não respirando, agora que o inacreditável se tornara uma realidade.

Abruptamente Toranaga sibilou: — O que está esperando? O General Kiyoshio sustentou-lhe o olhar. — Nada, senhor. Por favor, com licença. — O filho dele começou a se levantar. — Não. Ordeno-lhe que fique aqui! — disse ele.

O general curvou-se uma última vez para Toranaga, levantou-se e saiu com imensa dignidade. Alguns se mexeram nervosamente e um burburinho percorreu a sala, mas a aspereza de Toranaga dominou de novo: — Há mais alguém que admita traição? Mais alguém que ouse quebrar o bushido, mais alguém que ouse acusar seu suserano de traição?

— Por favor, com licença, senhor — disse calmamente Isamu, o velho conselheiro. — Mas lamento dizer que se o senhor for a Osaka, será traição contra a sua herança.

— No dia em que eu for a Osaka você partirá desta terra. O homem grisalho curvou-se polidamente. — Sim, senhor. Toranaga os examinou. Sem piedade. Alguém mudou de posição, apreensivo, e seus olhos saltaram para cima dele. O samurai, um guerreiro que anos antes perdera a vontade de combater e raspara a cabeça para se tornar monge budista e agora era membro da administração civil de Toranaga, não disse nada, quase definhando com o medo evidente que tentava desesperadamente ocultar.

-— Do que está com medo, Numata-san?

— De nada, senhor — disse o homem, de olhos — Bom. Então vá e cometa seppuku, porque é roso e o seu medo é um mau cheiro infeccioso.

O homem choramingou e saiu aos tropeções. O pavor dominava-os a todos agora. Toranaga observava. E esperava.

O ar tornou-se opressivo, o leve crepitar das chamas archotes parecia estranhamente alto. Então, sabendo que era seu responsabilidade, Sudara voltou-se e curvou-se.

— Por favor, senhor, posso respeitosamente fazer uma declaração?