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— Que declaração?

— Senhor, acredito que não haja e que não haverá mais traição aqui.

— Não compartilho a sua opinião. — Por favor, com licença, senhor, sabe que lhe obedecerei. Todos obedeceremos. Visamos apenas ao melhor para o senhor... — O melhor é a minha decisão. O que eu decido é melhor. Desamparado, Sudara curvou-se em aquiescência e ficou em silêncio. Toranaga não desviou os olhos dele. O olhar era impiedoso. — Você não é mais o meu herdeiro.

Sudara empalideceu. Então Toranaga esfacelou a sala: — Eu sou o suserano aqui.

Esperou um momento, depois, luto, levantou-se e arrogantemente em meio a um silêncio absomarchou para fora da sala.

A porta fechou-se atrás dele. Um grande suspiro percorreu a sala. Mãos buscaram punhos de espadas impotentemente. Mas ninguém deixou o seu lugar.

— Esta... esta manhã ouvi... ouvi do nosso comandante chefe — começou Sudara finalmente — que o Senhor Hiromatsu estará aqui dentro de poucos dias. Eu ... conversarei com ele. Fiquem em silêncio, tenham paciência, sejam leais ao nosso suserano. Vamos agora, e prestemos nossos respeitos ao General Serata Kiyoshio...

Toranaga estava subindo as escadas, uma grande solidão sobre ele, seus passos ecoando no vazio da torre. Perto do topo, parou e se apoiou momentaneamente na parede, a respiração pesada. A dor estava agarrando-lhe o peito de novo e ele tentou abrandá-la esfregando. — É só falta de exercício — murmurou. — É só isso, falta de exercício.

Continuou. Sabia que estava em grande perigo. Traição e medo eram coisas perigosas, e ambas tinham que ser cauterizadas sem piedade no momento em que aparecessem. Ainda assim, nunca se podia ter certeza de que estavam erradicadas. O combate em que estava empenhado não era um jogo de criança. O fraco tinha que ser alimento do forte, o forte títere do muito forte. Se Sudara publicamente lhe reivindicasse o lugar, ele estaria impotente para impedir. Até que Zataki respondesse, tinha que esperar.

Toranaga fechou e trancou sua porta e caminhou para uma janela. Embaixo, podia ver seus generais e conselheiros silenciosamente escoando para suas casas, fora dos muros do torreão.

Além dos muros do castelo, a cidade numa escuridão quase total. Acima, a lua estava pálida e enevoada. Fazia uma noite tristonha, sombria. E, parecia-lhe, a desgraça corria os céus.

CAPÍTULO 50

Blackthorne estava sentado sozinho ao sol da manhã, num canto do jardim, fora da casa de hóspedes, devaneando, o dicionário na mão. Fazia um dia ótimo, sem nuvens — o primeiro em muitas semanas —, e era o quinto dia desde a última vez que vira Toranaga. Todo esse tempo estivera confinado ao castelo, incapaz de ver Mariko, visitar seu navio ou sua tripulação, explorar a cidade, ou caçar ou cavalgar. Uma vez por dia ia nadar num dos fossos com outros samurais, e para passar o tempo ensinou alguns a nadar e a mergulhar. Mas isso não tornava a espera mais fácil.

— Sinto muito, Anjin-san, mas é a mesma coisa para todo mundo — dissera Mariko na véspera, quando a encontrara por acaso na sua seção do castelo. — Até o Senhor Hiromatsu está sendo mantido à espera. Faz dois dias que ele chegou e ainda não viu o Senhor Toranaga. Ninguém viu.

— Mas isso é importante, Mariko-san. Pensei que ele tivesse compreendido que cada dia é vital. Não há algum modo de eu lhe enviar uma mensagem?

— Oh, sim, Anjin-san. Isso é simples. Simplesmente escreva. Se me disser o que quer dizer, escreverei para o senhor. Todo mundo tem que escrever para uma entrevista, são essas as ordens atuais. Por favor, seja paciente, é tudo o que podemos fazer.

— Então, por favor, peça uma entrevista. Eu agradeceria... — Isso não é problema, o prazer é meu.

— Onde a senhora esteve? Faz quatro dias que não a vejo. — Por favor, desculpe-me, mas tive que fazer muitas coisas. É ... é um pouco difícil para mim, tantos preparativos...

— O que está acontecendo? Este castelo todo está como uma colméia prestes a levantar vôo há quase uma semana.

— Oh, sinto muito. Está tudo ótimo, Anjin-san.

— Está? Sinto muito, um general e um administrador cometem seppuku no adro do torreão. Isso é normal? O Senhor Toranaga se tranca na torre de marfim, mantendo as pessoas à espera sem razão aparente... isso também é normal? E o Senhor Hiromatsu?

— O Senhor Toranaga é o nosso senhor. Tudo o que ele faz é certo.

— E a senhora, Mariko-san? Por que não a tenho visto? — Por favor, desculpe-me, sinto muito, mas o Senhor Toranaga ordenou que eu o deixasse com os seus estudos. Estou visitando a sua consorte agora, Anjin-san. Não o senhor.

— Por que ele objetaria a isso?

— Meramente, suponho, para que o senhor seja obrigado a falar a nossa língua. Foram só alguns dias, neh?

— Quando parte para Osaka?

— Não sei. Esperava partir há três dias, mas o Senhor Toranaga ainda não assinou o meu passe. Arranjei tudo, carregadores e cavalos, e diariamente apresento os meus papéis de viagem ao secretário deie, para que sejam assinados, mas são sempre devolvidos. "Apresente-os amanhã."

— Pensei que ia levá-la a Osaka por mar. Ele não disse que eu devia levá-la por mar?

— Sim. Sim, disse, mas... bem, Anjin-san, nunca se sabe com o nosso suserano. Ele muda os planos.

— Ele sempre foi assim?

— Sim e não. Desde Yokosé ele tem estado cheio de... como dizer... melancolia, neh? ... sim, melancolia, e muito diferente. Ele... sim, está diferente agora.

— Desde a Primeira Ponte a senhora está cheia de melancolia e muito diferente. Sim, está diferente agora.

-— A Primeira Ponte foi um fim e um começo, Anjin-san, e a nossa promessa. Neh?

— Sim. Por favor, desculpe-me.

Ela se curvara tristemente e partira, e depois, a uma distância segura, sem se voltar, sussurrara em latim: — Você... — A palavra pairou no corredor com o seu perfume.

À refeição noturna ele tentara interrogar Fujiko. Mas ela também não sabia nada de importante, ou não podia explicar o que havia de errado no castelo.

— Dozo gomen nasai, Anjin-san.

Ele foi para a cama perturbado. Perturbado pela frustração com os adiamentos e as noites sem Mariko. Era sempre ruim saber que ela estava tão perto, que Buntaro estava fora da cidade, e agora, por causa do "Você...", que o desejo dela continuava tão intenso quanto o seu. Alguns dias atrás ele fora à casa dela, sob o pretexto de que precisava de auxílio com o japonês. Os guardas samurais lhe disseram: "Sinto muito, ela não está". Ele lhes agradecera, depois caminhara à toa até o portão principal sul. Dali podia enxergar o oceano. Como a terra era muito plana, não conseguia ver nada além dos embarcadouros e dos cais, embora pensasse poder distinguir os altos mastros do seu navio à distância.

O oceano o chamava. Era o horizonte mais que o mar, a necessidade de um vento calmo soprando contra ele, olhos semicerrados contra a sua força, a língua sentindo-lhe o sal, o convés adernando, e no topo dos mastros o cordame, as adriças estalando e gemendo sob a pressão das velas que, de vez em quando, dariam estalidos de alegria quando a brisa forte mudasse um ponto ou dois.

E era a liberdade mais que o horizonte. A liberdade de ir em qualquer direção, com qualquer tempo, conforme o capricho.

Erguer-se no seu tombadilho e ser árbitro, assim como, ali, Toranaga sozinho era árbitro.

Blackthorne levantou os olhos para a parte mais elevada do torreão. O sol cintilava nas suas curvas simetricamente cobertas de telhas. Ele nunca vira movimento ali, embora soubesse que cada janela abaixo do último andar era guardada.

Gongos soaram a mudança da hora. Pela primeira vez sua mente lhe disse que aquilo era a metade da hora do Cavalo, e não oito badaladas do turno — pleno meio-dia.

Colocou o dicionário na manga, contente de ser a hora da primeira refeição de verdade.

Naquele dia foi arroz, camarões grandes grelhados, sopa de peixe e vegetais em conserva.