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Se dependesse apenas de mim, eu não partiria, ainda não. Mas há outros envolvidos e eles não são "eters" e eu assinei como piloto: "Pelo Senhor Deus, prometo partir com a frota e, com a graça de Deus, trazê-la para casa de novo". Quero Mariko. Quero ver a terra que Toranaga me deu e preciso ficar aqui, para gozar o fruto da minha grande sorte só mais um pouquinho. Sim. Mas também há dever envolvido e isso transcende a tudo, neh?

Com o amanhecer, Blackthorne soube que, embora fingisse ter adiado a decisão novamente, na realidade se decidira. Irrevogavelmente.

Que Deus me ajude, primeiro e último sou piloto.

Toranaga desenrolou a minúscula tira de papel que chegou duas horas após o amanhecer. A mensagem de sua mãe dizia simplesmente: "Seu irmão concorda, meu filho. A carta de confirmação dele partirá hoje, por mensageiro. A visita de cerimônia do Senhor Sudara e família deve começar dentro de dez dias". Toranaga sentou-se, fraco. Os pombos esvoaçaram nos poleiros, depois pousaram de novo. O sol da manhã filtrava-se no pombal de modo agradável, embora nuvens de chuva estivessem se formando. Reunindo as forças, ele desceu às pressas os degraus para os aposentos abaixo, para começar.

— Naga-san! — Sim, Pai? — Mande Hiromatsu aqui. Depois dele, o meu secretário! — Sim, Pai.

O velho general veio calmamente. Suas juntas rangiam devido à subida e ele se curvou profundamente, a espada frouxa nas mãos como sempre, o rosto mais feroz do que nunca, mais velho do que nunca, e ainda mais resoluto.

— Seja bem-vindo, velho amigo.

— Obrigado, senhor. — Hiromatsu levantou os olhos. — Entristece-me ver as preocupações do mundo no seu rosto. — E entristece a mim ver e ouvir tanta traição.

— Sim. Traição é uma coisa terrível.

Toranaga viu os firmes olhos velhos medindo-o. — Pode falar à vontade.

— Alguma vez não fiz isso, senhor? — O velho estava grave. — Por favor, desculpe por tê-lo feito esperar.

— Por favor, desculpe-me por perturbá-lo. Qual é o seu desejo, senhor? Por favor, dê-me a sua decisão sobre o futuro da sua casa. É Osaka afinal... curvar-se àquele monte de esterco?

— Alguma vez você já me viu tomar alguma decisão final sobre qualquer coisa?

Hiromatsu franziu o cenho, depois pensativamente endireitou as costas para abrandar a dor nos ombros. — É por isso que não consigo compreendê-lo agora. Não é próprio do senhor desistir.

— O reino não é mais importante do que o meu futuro? — Não.

— Ishido e os outros regentes ainda são governantes legais, de acordo com o testemunho do táicum.

— Sou vassalo de Yoshi Toranaga-noh-Minowara e não reconheço outro senhor.

— Bom. Depois de amanhã é o dia que escolhi para partir para Osaka.

— Sim. Ouvi sobre isso.

— Você estará no comando da escolta, Buntaro será o segundo em comando.

O velho general suspirou. — Também sei disso, senhor. Mas desde que voltei, senhor, conversei com seus conselheiros mais velhos e gene...

— Sim. Eu sei. E qual é a opinião deles?

— Que o senhor não devia deixar Yedo. Que as suas ordens deviam ser temporariamente anuladas.

— Por quem?

— Por mim. Por ordens minhas.

— É isso o que eles desejam? Ou é o que você decidiu? Hiromatsu pousou a espada no chão, mais perto de Toranaga, e agora, indefeso, olhou diretamente para ele. — Por favor, desculpe-me, senhor, gostaria de lhe perguntar o que devo fazer. Meu dever parece dizer-me que eu deveria tomar o comando e impedi-lo de partir. Isso forçará Ishido a vir imediatamente contra nós. Sim, claro que perderemos, mas esse parece ser o único caminho honroso.

— Mas estúpido, neh?

As sobrancelhas grisalhas do general se franziram. — Não. Morremos em batalha, com honra. Recuperamos a wa. O Kwanto torna-se um espólio de guerra, mas não veremos o novo amo nesta vida. Shikata ga nai.

— Jamais gostei de gastar homens desnecessariamente. Nunca perdi uma batalha e não vejo razão para começar agora.

— Perder uma batalha não é desonra, senhor. A rendição é honrosa?

— Estão todos de acordo quanto a essa traição?

— Senhor, por favor, desculpe-me, apenas pedi a alguns indivíduos uma opinião militar. Não há traição ou conspiração. — Ainda assim você deu ouvidos à traição.

— Por favor, desculpe-me, mas se eu concordar, na qualidade de seu comandante-chefe, então não se tornará traição, mas política legal de Estado.

— Tomar decisões longe do suserano é traição.

— Senhor, há muitos precedentes de deposição de um suserano. O senhor fez isso, Goroda fez, o táicum — todos fizemos isso e pior. Um vencedor nunca comete traição.

— Você resolveu me depor?

— Peço a sua ajuda para essa decisão.

— Você é a única pessoa em quem eu pensei que pudesse confiar!

— Por todos os deuses, só desejo ser o seu vassalo mais devotado. Sou apenas um soldado. Quero cumprir o meu dever para com o senhor. Penso apenas no senhor. Mereço a sua confiança. Se isso ajuda, tire-me a cabeça. Se vai convencê-lo a lutar, de bom grado lhe entrego a minha vida, o sangue do meu clã, hoje, em público, em particular ou do modo como o senhor desejar — não foi isso o que o nosso amigo General Kiyoshio fez? Sinto muito, mas não compreendo por que lhe devo permitir desperdiçar uma vida de esforço.

— Então você se recusa a obedecer às minhas ordens de comandar a escolta que partirá para Osaka depois de amanhã? Uma nuvem passou por sobre o sol e os dois homens olharam pelas janelas.

— Logo vai chover de novo — disse Toranaga.

— Sim. Houve chuva demais este ano, neh? As chuvas devem cessar logo ou a colheita estará perdida. Entreolharam-se.

— Bem?

Punho de Aço disse simplesmente: — Formalmente lhe pergunto, senhor: ordena-me que o escolte de Yedo, depois de amanhã, para começar a viagem para Osaka?

— Já que o contrário parece ser o conselho de todos os meus conselheiros, aceitarei a opinião deles, e a sua, e adiarei a minha partida.

Hiromatsu estava totalmente despreparado para isso. — Hein? Não vai partir?

Toranaga riu, a máscara caiu, e ele se tornou de novo o velho Toranaga. — Nunca pretendi ir a Osaka. Por que eu seria tão estúpido?

— O quê?

— Meu acordo em Yokosé não foi mais que um truque para ganhar tempo — disse Toranaga afavelmente. — Ishido mordeu a isca. O imbecil me espera em Osaka dentro de poucas semanas. Zataki também mordeu a isca. E você e todos os meus bravos vassalos indignos de confiança também morderam a isca. Sem concessão real de qualquer tipo, ganhei um mês e confundi Ishido e seus imundos aliados. Ouvi dizer que já estão se engalfinhando pelo Kwanto. Foi prometido a Kiyama, assim como a Zataki.

— O senhor nunca pretendeu ir? — Hiromatsu balançou a cabeça, então, quando a clareza da idéia repentinamente o atingiu, seu rosto fendeu-se num sorriso deliciado. — Foi tudo uma manobra astuciosa?

— Claro. Ouça, todo mundo tinha que ser convencido, neh? Zataki, todo mundo, até você! Ou os espiões teriam contado a Ishido e ele se teria movido contra nós imediatamente e nenhuma boa fortuna na terra ou deuses no céu poderiam ter impedido a catástrofe.

— Isso é verdade ... ah, senhor, perdoe-me, sou tão estúpido. Mereço perder a cabeça! Então foi tudo um absurdo, sempre absurdo. Mas... mas e quanto ao General Kiyoshio?

— Ele disse que era culpado de traição. Não preciso de generais traiçoeiros, apenas de vassalos obedientes.

— Mas por que atacar o Senhor Sudara? Por que retirar dele o seu favor?

— Porque me agrada fazer isso — disse Toranaga asperamente.