— Oh, sim. Quando sair daqui, a senhora é solicitada a se dirigir ao navio bárbaro. É solicitada a esperá-lo lá.
— Devo... devo traduzir?
— Ele não disse. Eu presumiria que sim, Senhora Toda. — O secretário examinou uma lista na sua mão. — O Capitão Yoshinaka recebeu ordem de comandar a sua escolta até Osaka, se lhe aprouver.
— Eu ficaria honrada em estar sob o comando dele novamente. Posso perguntar como vai o Senhor Toranaga?
— Parece bastante bem, mas para um homem ativo como ele, engaiolar-se por dias a fio... O que posso dizer? — Espalmou as mãos, desamparado. — Sinto muito. Pelo menos hoje ele viu o Senhor Hiromatsu e concordou com um adiamento. Também concordou em tratar de outras coisas... os preços do arroz devem ser estabilizados agora, para o caso de uma má colheita... Mas aqui há tanto o que fazer... simplesmente não parece ele, Senhora Toda. Os tempos são terríveis, neh? E terríveis os presságios: os adivinhos dizem que a colheita estará perdida este ano. — Não acreditarei neles... até o tempo da colheita.
— Sábio, muito sábio. Mas não serão muitos de nós que verão o tempo da colheita. Devo ir com ele para Osaka. — Kawanabi estremeceu e se inclinou para frente nervosamente. — Ouvi um boato de que a peste começou de novo entre Kyoto e Osaka... varíola. Será que é outro sinal do céu de que os deuses estão desviando o rosto de nós?
— Não é próprio do senhor acreditar em boatos ou em sinais do céu, Kawanabi-san, ou passar boatos. Sabe o que o Senhor Toranaga pensa disso.
— Sei. Sinto muito. Mas, bem... ninguém parece estar normal hoje em dia, neh?
— Talvez o boato não seja verdadeiro... rezo para que não seja. — Ela afastou o pressentimento. — A nova data para a partida já foi marcada?
— Tomei conhecimento de que o Senhor Hiromatsu disse que estava adiada por sete dias. Estou muito contente de que o nosso comandante-chefe tenha retornado e muito contente de que tenha convencido... gostaria de que a partida fosse cancelada para sempre. É melhor combater do que ser desonrado lá, neh? — Sim — concordou ela, sabendo que não havia mais sentido em fingir que esse não era o pressentimento na mente de todo mundo. — Agora que o Senhor Hiromatsu voltou, talvez o nosso senhor veja que a rendição não é a melhor linha de conduta. — Senhora, apenas para os seus ouvidos. O Senhor Hiromatsu... — Ele parou, levantou os olhos e pôs um sorriso no rosto. Yabu estava entrando na saia, as espadas retinindo. — Ah, Senhor Kasigi Yabu, que prazer em vê-lo. — Curvou-se, Mariko curvou-se, houve algumas amenidades e depois ele disse: — O Senhor Toranaga o aguarda, senhor. Por favor, suba imediatamente.
— Bom. Para que ele me quer ver?
— Sinto muito, senhor, ele não me disse... só que queria vê-lo.
— Como vai ele?
Kawanabi hesitou. — Não houve mudança, senhor. — A partida... foi marcada uma nova data?
— Tomei conhecimento de que será dentro de sete dias. — Talvez o Senhor Hiromatsu consiga adiá-la ainda mais, neh?
— Isso dependeria do nosso amo, senhor. — Claro. — Yabu saiu.
— O senhor estava dizendo sobre o Senhor Hiromatsu? — Apenas para os seus ouvidos, senhora, já que Buntaro-san não está aqui — sussurrou o secretário. — Quando o velho Punho de Aço voltou do encontro com o Senhor Toranaga, teve que repousar quase uma hora. Estava sentindo fortes dores, senhora. — Oh! Seria terrível se alguma coisa lhe acontecesse agora! — Sim. Sem ele, haveria uma revolta, neh? Esse adiamento não resolve nada, não é? É apenas uma trégua. O verdadeiro problema... tenho medo... tenho medo desde que o Senhor Sudara agiu como assistente formal do General Kiyoshio, cada vez que o nome do Senhor Sudara é mencionado o nosso senhor fica furioso... Foi apenas o Senhor Hiromatsu quem o convenceu a adiar e isso é a única coisa que... — Lágrimas começaram a correr pelas faces do secretário. — O que está acontecendo, senhora? Ele perdeu o controle, neh?
— Não — disse ela com firmeza, sem convicção. — Tenho certeza de que tudo dará certo. Obrigado por me dizer. Tentarei ver o Senhor Hiromatsu antes de partir.
— Vá com Deus, senhora.
Ela ficou surpresa. — Não sabia que o senhor era cristão, Kawanabi-san.
— Não sou, senhora. Mas sei que isso é um costume seu. Ela saiu para o sol, grandemente preocupada com Hiromatsu, ao mesmo tempo agradecendo a Deus o fato de a espera ter terminado e no dia seguinte poder escapar. Dirigiu-se para o palanquim e a escolta, que a esperavam.
— Ah, Senhora Toda — disse Gyoko, avançando das sombras, interceptando-a.
— Ah, bom dia, Gyoko-san, que prazer em vê-Ia. Espero que esteja passando bem — disse ela cordialmente, um calafrio repentino percorrendo-a.
— Nada bem, em absoluto, estou com medo, sinto muito. E muito triste. Parece que não gozamos do favor do nosso senhor, Kiku-san e eu. Desde que chegamos aqui, fomos confinadas a um imundo hotel de terceira classe, onde eu não colocaria um prostituto de oitava classe.
— Oh, sinto muito. Tenho certeza de que deve ter havido algum engano.
— Ah, sim, um engano. Certamente espero que sim, senhora. Finalmente, hoje, recebi permissão de vir ao castelo, finalmente há uma resposta à minha solicitação de ver o grande senhor, finalmente permitem-me curvar-me diante do grande senhor de novo, ainda hoje, mais tarde. — Gyoko sorriu-lhe, falsa. — Ouvi dizer que a senhora também vinha ver o secretário do senhor, então pensei esperar para saudá-la. Espero que não se importe.
— É um prazer vê-Ia, Gyoko-san. Eu a teria visitado, e a Kiku-san, ou pedido que ambas viessem me visitar, mas infelizmente isso não foi possível.
— Sim... muito triste. Estes tempos são tristes. Difíceis para os nobres. Difíceis para os camponeses. A pobre Kiku-san está doente de preocupação de não contar mais com o favor do nosso senhor.
— Estou certa de que ela está enganada, Gyoko-san. Ele... o Senhor Toranaga tem muitos problemas urgentes, neh?
— É verdade... é verdade. Talvez pudéssemos tomar um chá agora, Senhora Toda. Eu ficaria honrada em poder conversar com a senhora um momento.
— Ah, sinto muito, mas recebi ordem de tratar de um assunto oficial. Senão ficaria muito honrada.
— Ah, sim, a senhora tem que ir ao navio do Anjin-san agora. Ah, esqueci, sinto muito. Como vai o Anjin-san?
— Acredito que esteja bem — disse Mariko, furiosa de que Gyoko soubesse dos seus assuntos particulares. — Vi-o apenas uma vez, e ainda assim só por alguns momentos, desde que chegamos.
— Um homem interessante. Sim, muito. É triste não ver os amigos, neh?
As duas mulheres sorriam, falavam com voz polida e despreocupada, ambas conscientes dos impacientes samurais que observavam e ouviam.
— Ouvi dizer que o Anjin-san visitou os amigos, a tripulação. Como os encontrou?
— Ele não me disse nada, Gyoko-san. Como lhe falei, só o vi um momento. Sinto muito, mas tenho que ir...
— É triste não ver os amigos. Talvez eu lhe pudesse falar sobre eles. Por exemplo, que vivem numa aldeia eta.
— O quê?
— Sim. Parece que os amigos dele pediram permissão para morar lá, preferindo a aldeia à áreas civilizadas. Curioso, neh? Não são como o Anjin-san, que é diferente. Corre o boato de que eles dizem que lá é mais como em casa para eles... a aldeia eta. Curioso, neh?...
Mariko lembrou-se de como o Anjin-san estivera estranho na escada naquele dia. Isso explica, pensou ela. Eta! Minha Nossa Senhora, pobre homem. Como deve ter ficado envergonhado. — Desculpe, Gyoko-san, o que foi que disse?
— Só que é curioso que o Anjin-san seja tão diferente dos outros.
— Como são eles? A senhora os viu? Os outros?
— Não, senhora. Eu não iria lá. O que eu teria a ver com eles? Ou com etas? Devo pensar nos meus clientes e na minha Kiku-san. E no meu filho.