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— Ah, sim, o seu filho.

O rosto de Gyoko se entristeceu sob o guarda-sol, mas os olhos continuaram insensivelmente marrons como o quimono. — Por favor, desculpe-me, mas suponho que a senhora nem tenha idéia de por que estamos em desgraça com o Senhor Toranaga? — Não. Tenho certeza de que a senhora está enganada. O contrato foi firmado, neh? Conforme o combinado?

— Oh, sim, obrigada. Tenho uma carta de crédito junto a um rico mercador de Mishima, pagável contra apresentação. Menos do que combinamos. Mas o dinheiro estava longe da minha mente. O que é o dinheiro quando se perdeu o favor do protetor — seja ele ou ela quem for? Neh?

— Tenho certeza de que a senhora conserva o favor dele. — Ah, favores! Estava preocupada com o seu também, Senhora Toda.

— A senhora conta sempre com a minha boa vontade. E amizade, Gyoko-san. Talvez possamos conversar uma outra vez, realmente tenho que ir agora, sinto muito...

— Ah, sim, é muito gentil de sua parte. Eu gostaria muito. — Quando Mariko se voltou, Gyoko acrescentou no seu tom mais adocicado: — Mas a senhora terá tempo? Parte amanhã, neh? Para Osaka?

Mariko sentiu uma súbita farpa de gelo no peito, enquanto a armadilha se fechava.

— Alguma coisa errada, senhora?

— Não... não, Gyoko-san... Esta... durante a hora do Cão, esta noite... seria conveniente?

— É muito gentil, senhora. Oh, sim. Oh, sim, como vai ver o nosso amo agora, antes de mim, a senhora intercederia por nós? Precisamos de um favorzinho. Neh?

— Eu ficaria contente em fazer isso. — Mariko pensou um instante. — Alguns favores podem ser pedidos, mas ainda assim não serão concedidos.

Gyoko retesou-se ligeiramente. — Ah! A senhora já pediu a ele o... pediu-lhe que nos favorecesse?

— Naturalmente... por que não o faria? — disse Mariko com cuidado. — Kiku-san não é uma favorita? A senhora não é uma vassala devotada? Não recebeu favores no passado?

— Minhas solicitações são sempre tão pequenas. Tudo o que eu disse antes ainda se aplica, senhora. Talvez ainda mais.

— Sobre cães de barriga vazia?

— Sobre ouvidos aguçados e línguas seguras. — Ah, sim. E segredos.

— Seria tão fácil me satisfazer. O favor do meu senhor — e o da minha senhora — não é pedir demais, neh?

— Não. Se ocorrer uma oportunidade... Não posso prometer nada.

— Até a noite, senhora.

Curvaram-se uma para a outra e nenhum samurai desconfiou de nada. Mariko subiu ao palanquim para mais mesuras, ocultando os tremores que a acometiam, e o cortejo pôs-se em marcha. Gyoko ficou olhando para ela.

— Você, mulher — disse asperamente um jovem samurai, ao passar. — O que está esperando? Vá tratar dos seus negócios. — Ah! — disse Gyoko desdenhosamente para diversão dos outros. — Mulher, é, jovenzinho? Se eu fosse procurar o seu negócio, poderia ter muita dificuldade em encontrá-lo, hein, embora você ainda nem seja homem bastante para ter pêlos!

Os outros riram. Com uma sacudidela de cabeça, ela se afastou sem medo.

— Alô — disse Blackthorne.

— Boa tarde, Anjin-san. Parece feliz!

— Obrigado. É a vista de uma dama tão adorável, neh?

— Ah, obrigada — respondeu Mariko. — Como está o seu navio?

— De primeira classe. Gostaria de subir a bordo? Eu gostaria de mostrá-lo à senhora.

— Isso é permitido? Recebi ordem de vir aqui para encontrar o Senhor Toranaga.

— Sim. Estamos todos à espera dele agora. — Blackthorne voltou-se e falou ao samurai mais velho no ancoradouro. — Capitão, levo a Senhora Toda lá. Mostrar navio. Quando o Senhora Toranaga chega, o senhor chama, neh?

— Como desejar, Anjin-san.

Blackthorne tomou a dianteira do molhe. Samurais guardavam as barreiras e a segurança estava mais cerrada do que nunca, na praia e no convés. Primeiro ele foi ao tombadilho. — Isto é meu, todo meu — disse com orgulho.

— Algum dos seus tripulantes está aqui?

— Não, nenhum. Hoje não, Mariko-san. — Mostrou tudo tão depressa quanto pôde, depois guiou-a para baixo. — Esta é a cabina principal. — As vigias da popa davam para a praia. Ele fechou a porta. Agora estavam totalmente sozinhos.

— É a sua cabina? — perguntou ela.

Ele meneou a cabeça, observando-a. Ela foi para os braços dele. Abraçou-a com força. — Oh, como senti saudades de você...

— E eu também...

— Tenho muito para lhe dizer. E para lhe perguntar — disse ele.

— Não tenho nada a dizer. Exceto que o amo de todo o coração. — Ela estremeceu nos braços dele, tentando afastar o terror de que Gyoko ou alguém os denunciasse. — Tenho muito medo por você.

— Não tenha medo, Mariko, minha querida. Vai dar tudo certo.

— Isso é o que digo a mim mesma. Mas hoje é impossível aceitar que karma é a vontade de Deus.

— Você estava tão distante a última vez.

— Isto é Yedo, meu amor. E além da Primeira Ponte. — Foi por causa de Buntaro-san. Não foi?

— Sim — disse ela simplesmente. — Isso e a decisão de Toranaga de se render. É uma inutilidade tão desonrosa... Nunca pensei que diria isso em voz alta, mas tenho que dizer. Sinto muito. — Ela se aninhou mais ainda à proteção dos ombros dele. — Quando ele for para Osaka, você está liquidada, também? — Sim. O clã Toda é poderoso e importante demais. Em qualquer eventualidade, não me deixariam viva.

— Então deve vir comigo. Escaparemos. Nós... — Sinto muito, mas não há escapatória.

— A menos que Toranaga autorize, neh? — Por que ele deveria autorizar? Rapidamente Blackthorne contou-lhe o que dissera a Toranaga, mas não que também a pedira. — Sei que posso forçar os padres a trazer Kiyama ou Onoshi para o lado dele, se ele me autorizar a tomar esse Navio Negro — concluiu excitadamente —, e sei que posso fazer isso!

— Sim — disse ela, contente, pela salvação da Igreja, de que ele fosse impedido pela decisão de Toranaga. Examinou novamente a lógica do plano dele e considerou-o sem falhas. — Deve funcionar, Anjin-san. Agora que Harima é hostil, não haveria razão por que Toranaga-sama não devesse ordenar um ataque, se ele fosse combater e não render-se.

— Se o Senhor Kiyama ou o Senhor Onoshi, ou ambos, se juntassem a ele, isso faria a balança pender para o lado dele?

— Sim — disse ela. — Com Zataki e tempo. — Ela já havia explicado a importância estratégica do controle da estrada norte por Zataki. — Mas Zataki está contra Toranaga-sama.

— Ouça, posso estrangular os padres. Sinto muito, mas eles são meus inimigos, embora sejam os seus padres. Posso dominá-los em nome dele — no meu também. Você me ajudará a ajudá-lo? Ela o encarou. — Como?

— Ajude-me a persuadi-lo a me dar a chance, e convença-o a adiar a ida para Osaka.

Houve o ruído de cavalos e vozes que se erguiam no embarcadouro. Distraídos, eles se dirigiram às janelas. Os samurais estavam puxando para o lado uma das barreiras. O Padre Alvito esporeou a montaria e avançou para a clareira.

— O que ele quer? — resmungou Blackthorne, carrancudo. Observaram o padre desmontar, puxar um rolo da manga e entregá-lo ao samurai mais velho. O homem leu. Alvito olhou o navio.

— Seja o que for, é oficial — disse ela com voz débil.

— Ouça, Mariko-san, não sou contra a Igreja. A Igreja não é má, os padres é que são. E nem todos são maus. Alvito não é, embora seja um fanático. Juro por Deus que acredito que os jesuítas se curvarão ao Senhor Toranaga se eu tomar o Navio Negro deles e ameaçar o do ano que vem, porque eles têm que ter dinheiro — Portugal e Espanha têm que ter dinheiro. Toranaga é mais importante. Você me ajudará?

— Sim. Sim, eu o ajudarei, Anjin-san. Mas, por favor, desculpe-me, não posso trair a Igreja.

— Tudo o que peço é que converse com Toranaga, ou me ajude a conversar com ele, se achar melhor.